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O Amor do Pai nosso

“31 Dias no Amor de Deus” – continuação

11º DIA

Amor de Pai

Aprendemos a chamar Deus de Pai. Uma vez, tendo passado a noite em oração no alto de um monte – talvez o Tabor – Jesus atendeu a um pedido dos discípulos e nos ensinou a rezar assim:

“Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso Nome, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos daí hoje, e perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal” (ver Mt 6,913).

Jesus não rezava horas ao Pai na feliz solidão de um monte, mas, algumas vezes, dos seus lábios brotaram as preces do seu Coração, “fornalha ardente de Caridade”, como invocamos na Ladainha do Sagrado Coração.

São Mateus nos relata como São João Batista, já prisioneiro de Herodes, enviou alguns dos seus discípulos a Jesus, para que indagassem se ele era mesmo o Cristo, ou deveriam ainda esperar por outro. A resposta de Jesus nos faz entrar no imenso amor do Pai:

“Ide relatar a João o que vedes e ouvis: cegos recobram a vista e coxos andam; leprosos são curados e surdos ouvem; mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Mt 11,4-5).

O Pai do Céu envia Jesus aos mais necessitados! Onde os mais necessitados são tratados e acolhidos com dignidade, aí está o Coração do Messias, o Cristo Jesus, dom do Pai para nós.

Em contraste com este espírito de amor, Herodes, e muita gente parecida com ele, quer que o mundo gire em torno dele, dos seus interesses imediatos. São como crianças egoístas que gritam aos colegas:

“Tocamos músicas alegres para vocês e vocês não dançaram; cantamos músicas tristes e vocês não choraram” (Mt 11,17).

Somos assim: se estivermos tristes, adoentados, queremos que todos silenciem, se mostrem muito compassivos conosco, falem baixinho. Se estivermos alegres, queremos que ninguém fique triste perto de nós. Queremos que o mundo gire em torno de nossos sentimentos. Se abraçarmos uma grande causa, queremos que todos venham conosco. Se não tivermos uma bandeira, olhamos com desconfiança os que as agitam para conseguirem mudanças.

É muito difícil converter quem vive centrado em si mesmo! Não só como pessoas podemos ficar presos a nosso egoísmo, “olhando para o próprio umbigo”, mas como culturas e civilizações. Assim as cidades de Corozaim, Betsaida: amarradas aos seus interesses imediatos, não reconheceram a bênção do Messias, não aproveitaram sua hora de alegria e salvação:

“Ai de ti, Corozaim, ai de ti Betsaida! Porque se em Tiro e Sidon tivessem sido feitos os milagres, que foram realizados em vós, há muito tempo se teriam convertido, vestidas de saco e cobertas de cinza” (Mt 11,21).

Há quem pense que quando Jesus diz “Ai de ti!” estaria “rogando praga”, amaldiçoando! Mas bem pode ser expressão de uma profunda tristeza, como a de Jesus, quando, nas vésperas de sua Paixão, vindo de Betfagé, à vista de Jerusalém, chorou sobre a cidade teimosa e impenitente:

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados,quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne a ninhada debaixo de suas asas e não quisestes! Eis que vossa morada ficará deserta. Eu vos asseguro: não me voltareis ver até que digais: ‘Bendito seja o que vem em Nome do Senhor’!” (Mt23,37-39).

Deus é Pai com coração de Mãe:

“Alegra-te, Jerusalém! Exultai com ela, vós que a amais! Enchei-vos de alegria por ela, voes que trazeis luto por ela! E sereis aleitados e saciados pelo seu seio de consolação, e saboreareis com delícia suas mamas de glória! Por isso diz o Senhor: ‘Farei derramar sobre ela a paz, como um rio, como torrente transbordante a glória das nações. Seus bebês serão levados às costas e acariciados sobre os joelhos! Como alguém consolado pela mãe Eu também vos consolarei! (Is 66,10-13).

Há um outro texto em que o Pai do Céu recorre à comparação com o amor de mãe para falar do seu amor divino por nossa humanidade:

“Dizia Sião (Jerusalém): ‘O Senhor me abandonou! O Senhor se esqueceu de mim!’. Uma mulher esquece a criança de peito? Não há de amar o filho de suas entranhas? Embora alguma se esquecesse , Eu jamais te esqueceria! Vê! Eu Te gravei nas palmas de minhas Mãos!” (ver Is 49,14-16).

Zacarias, o Pai de São João Batista, reconheceu que somos amados assim, com amor maternal, entranhado, visceral, uterino mesmo! No seu canto profético, ele se volta para o filho recém nascido, e, com profunda comoção, também louva o dom de nossa salvação e do perdão dos pecados, graças às suas vísceras ou entranhas de misericórdia (Lc 1,78). Pena que muitas versões atuais falem de “ternura”, “bondade imensa”. Mas o texto grego, que é o inspirado, fala deste “amor entranhado, visceral, uterino” de nosso Pai – de Coração de Mãe – por nós.

Sabendo que nosso Pai tem um amor assim, lembramos de como nossas mães nos ameaçavam, quando éramos crianças. Um autor jesuíta, Silvano Fausti, comenta:

“As ameaças de Deus são como as da Mamãe. Induzem, com autoridade, a um primeiro nível de advertência a quem não percebe a diferença entre o bem e o mal, além das aparências. A ameaça é “eficaz”, quando não se realiza. Ela serve de freio, para afastar do mal que inadvertida e impensadamente se faria. A Mamãe ameaça a criança, para que não atravesse a rua e termine debaixo de um carro. Se, felizmente, ela atravessa sem nada sofrer, a Mãe não a empurra debaixo de um automóvel que passe para puni-la” *.

Certamente, o Bom Pastor ficará felicíssimo no Dia do Juízo, se encontra lá os habitantes de Corozaim, de Betsaida, e de todas as cidades do mundo, que parecem, às vezes, tão necessitadas das advertências mais severas, de tão perdidas que se mostram! Parece bom rezar com Santo Agostinho: “Grita, Senhor, e rompe nossa surdez!”.
* Silvano Fausti, “Uma comunità lege il Vangelo di Matteo – volume primo”, p.210, EDB, Bologna, Itália, 1998.