“Apologia” de Vieira; “Os Evangelhos – Memória, Biografia, Escritura”; Percursos na filosofia de Dewey
novembro 9, 2015
Bifes: “steak”; abafados; “rom-rom”; empanados; enrolados
novembro 10, 2015

31 Dias no amor de Deus: a Bênção

Ruínas de Ur dos Caldeus

2º Dia

A bênção é maior que nossos pecados *

Um bom Padre, certa vez, insistiu que “a bênção original é maior que o pecado original”. E tinha toda razão! Conheço gente que está tão amargurada que só tem mal a dizer da humanidade, e reserva seu carinho para seus animais de estimação. E sacodem a cabeça se alguém ensaia lhes mostrar que há pessoas abençoadas em suas vidas.

Lendo o Livro do Gênesis, encontramos os problemas da vida de todos os tempos, mas encontramos uma bênção “teimosa”, que vem a nosso encontro e insiste em permanecer conosco.

Esta bênção foi buscar um homem em Ur dos Caldeus, cidade que há alguns milênios é ruína. Parece que ele não era natural da cidade, pois logo se fala de sua parentela mais ao norte, hábeis pastores e chefes de caravanas, os arameus. Podemos imaginar que ele não se sentia muito à vontade entre os muros da cidade, submisso a um rei, que se fazia adorar e que tinha deuses à imagem e semelhança dos homens: pecadores e espertalhões.

“Abrão” era seu nome. A bênção o atingiu, moveu seu coração e suas pernas, e ele se lançou à vida de pastoreio dos seus antepassados, indo de aguada em aguada, pasto em pasto, acampamento em acampamento. Não era um nômade comum, tangido pela necessidade dos seus rebanhos. Ele levava uma promessa e tinha uma missão do alto, pois tinha ouvido:

“Parte para longe de tua pátria, de teus parentes e da casa de teu pai, e dirigi-te ao país que eu te indicar. Pois de ti farei uma grande nação. Hei de abençoar e engrandecer o teu nome: sejas tu uma bênção! (…) Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,1-3).

“Abrão”, por causa desta íntima e decisiva vocação, saiu de Ur, passou pelo Haram, e não parou junto de seus parentes, mas continuou até o país de Canaã. Ganhou o nome de Abraão, e é uma referência até hoje entre judeus, cristãos e muçulmanos. Vem se cumprindo o que ouviu e aquilo em que ele pôs fé:

“Farei a tua descendência tão numerosa quanto o pó da terra. Se alguém puder contar o pó da terra, também poderá contar tua descendência” (Gn 13,14).

Os contemporâneos de Abraão acreditavam que os deuses exigiam a morte dos seus adoradores. Por isso faziam sacrifícios humanos. Abraão também pensava que devia sacrificar seu filho único, embora um fio de esperança o fizesse dizer ao garoto:

“Deus providenciará o cordeiro (para o sacrifício), meu filho” (Gn 22,8).

Foi neste momento que Abraão descobriu que o Senhor que o chamara era Deus da Vida, Bênção de Vida, e não queria a morte dos seus amados. O Anjo do Senhor desarmou sua mão, deu-lhe um cordeiro para o sacrifício e a promessa foi reafirmada. Daquele filho único jorraria a bênção da vida para multidões:

“Eu te cumularei de bênçãos e tornarei tua descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu e os grãos de areia das praias do mar (…). Todas as nações da terra serão abençoadas por meio de tua descendência, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22, 17-18).
Impressionante: a bênção convive com a liberdade humana de fazer escolhas, também más escolhas. Um neto de Abrão, chamado Jacó, às portas da morte, teve a lucidez de perceber esta verdade: por cima de nossas aventuras e desventuras, está a Bênção. Nenhum de seus filhos foi excluído de suas bênçãos de despedida. Todos eram e continuaram sendo “Israel de Deus”. Mesmo Ruben, que tinha adulterado com uma das mulheres do pai. Nem Simeão e Levi, “instrumentos de violência”. Nem José, que, como alto funcionário do Faraó, terá queimado incenso diante dos ídolos do Egito (sem dúvida, por isto mesmo, não houve “tribo de José”, mas duas tribos com nomes de seus filhos: Efraim e Manassés). Todos continuam sendo Israel. A nenhum foi negado serem filhos de Jacó, descendentes de Abraão, portadores da bênção para nós (ver Gn 49,1-28).

Onde, certamente, a bênção se revelou mais forte foi no caso de Judá. Ele tinha uma questionável atração por prostitutas. Naqueles dias, muitas mulheres pagãs acreditavam até honrar seus deuses, ídolos da fertilidade, prostituindo-se em templos e em encruzilhadas. A história de Tamar, nora de Judá, aconteceu neste ambiente (ver Gn 38). Judá tinha providenciado seu casamento com seu filho mais velho, Er. Quando este morreu sem deixar descendência, Tamar reclamou seu direito, segundo os usos e costumes do tempo, de casar-se com o segundo filho: Onã. Parece que Onã não gostou nem um pouco de ser casado contra sua vontade, possivelmente com uma mulher mais velha. Esquivou-se como pôde de lhe dar um filho. Quando Onã também morreu, Judá recusou seu terceiro filho aquela mulher. Deve ter até pensado que ela era enfeitiçada!

Tamar não se deu por vencida. Disfarçou-se de prostituta de encruzilhada, tentou Judá, e concebeu um filho dele. O que mostra que a bênção também não se deixa vencer nem mesmo por nossas falhas e nossos truques, é que Judá veio a recebê-la em grau inesperado por todos de Jacó, às portas da morte:

“O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de comando de seus pés, a te que venha Aquele a quem pertencem! A Este obedecerão os povos!” (Gn 49,10).

Assim foi dito e profetizado, assim aconteceu:

“Judá gerou de Tamar Farés e Zara. Farés gerou Esrom… Jessé gerou o rei Davi… Jacó gerou José, que foi esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, chamado o Cristo” (Mt 1,16).

Crucificamos Jesus, o Rei da Glória, mas o sepulcro não o reteve! Ao terceiro dia Ele ressuscitou! Durante quarenta dias, Ele se manifestou de muitos modos aos seus amados discípulos e discípulas. Depois, subiu aos céus, donde enviou-nos seu Divino Espírito para nosso conforto e alegria (ver At 1,1-8).

Rezamos, confiantes no Criador, que tanto nos amou:

“Grande por toda a terra é teu Nome,
Ó Senhor, nosso Deus!

Desdobraste no céu a tua glória,
Despertando o louvor dos pequeninos:
É a força que opondes aos teus rivais,
Calando os inimigos e os rebeldes!

Ao ver o céu, que é obra dos teus dedos,
E a lua e as estrelas que plasmaste,
Que somos nós? E do homem tu te lembras,
E com o filho do homem te preocupas!

Pouco menor que os Anjos o fizeste,
De glória e de louvor o coroaste,
Das tuas obras deste-lhe o governo.

Tu puseste a seus pés todas as coisas:
As ovelhas, os bois, todo animal,
E pássaros do céu, peixes do mar,
Os que fazem do céu seu caminho.

Grande por toda a terra é o teu Nome,
Ó Senhor, nosso Deus!” (Sl 8).

* R. Paiva, SJ, “31 Dias no Amor de Deus”, Loyola / SP 2015