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Jesus – As três tentações – Giovanni Papini

AS TENTAÇÕES

 

A necessidade de encher o estômago cada dia é a primeira marca da servidão à matéria, e Jesus quer vencer também a matéria. Quando está entre os homens, comerá e beberá para fazer companhia a seus amigos e também porque se deve dar ao corpo o que, segundo a lei, lhe pertence, e, enfim, por visível enfrentamento contra os jejuns hipócritas dos fariseus. Um dos últimos atos da missão de Jesus será uma ceia. Mas, antes, após o batismo, um jejum. Agora que está a sós e não humilha os companheiros de vida simples, nem pode ser confundido com os extremados, ele se esquece de comer.

Mas, no fim dos quarentas dias, teve fome. Satã esperava este momento emboscado e invisível. Se a matéria quer matéria, lhe ficava uma esperança. E o adversário fala:

– Se és o Filho de Deus, diz a estas pedras que se tornem pão.

A resposta vem pronta:

– Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra de Deus.

Satanás não se dá por vencido, e, desde o alto do monte, lhe mostra os reinos da terra:

– Para trás, Satã! Está escrito: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás.”

Então, Satã o leva a Jerusalém, e sobe ao ponto mais alto do Templo:

– Se és filho de Deus, atira-te daqui para baixo.

E Jesus, de imediato, lhe responde:

– Está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.

(…)

Não é para causar espanto que Satã tenha se achegado com a absurda pretensão de fazer Jesus cair. Também não é uma maravilha que Jesus, como ser humano, tenha sido tentado. Satã não tenta senão aos grandes e puros. Aos outros não tem sequer necessidade de murmurar-lhes uma palavra de convite. Já lhe pertencem desde a decadência da infância, na juventude. Ela não tem de empenhar-se para que lhe obedeçam. Caem nos seus braços antes que os chame. Além do mais, nem se dão conta de que ele exista. A eles não se apresenta, porque, de longe, é obedecido.

Mais ainda: nunca o tendo conhecido, inclinam-se a negá-lo. Os diabólicos não creem no diabo. A última astúcia do diabo, alguém escreveu – é ter espalhado o boato de sua morte. Assume todas as formas, tão belas algumas que nem se diria que são ele.

Os antigos gregos, por exemplo, gigantes de inteligência e elegância, não têm lugar para Satã em sua mitologia. Porque todos os seus deuses, se os estudamos, mostram os chifres de Satã por baixo de suas coroas de louro e de videira. Satânico é Júpiter, prepotente e licencioso. Vênus, adúltera. Apolo, difamador; Marte, homicida; Dionísio, bêbado. De tal modos são astutos os deuses da antiga Grécia, que dão ao povo poções para amar e essências perfumadíssimas, para que não se sinta o fedor do mal que embriaga a terra.

Porque, se muitos não se dão conta dele e se riem como de uma assombração inventada pela Igreja para as necessidades da penitência, é porque ele se lança. Precisamente, contra os que o conhecem e não o seguem.

Engana a inocência dos primeiros seres criados; seduz a Davi, o bravo; corrompe Salomão, o sábio; acusa, diante do trono de Deus, a Jó, o Justo. Todos os santos que se refugiam no deserto, todos os amantes de Deus serão tentados por Satã (…)

Jesus não é o Messias carnal e temporal esperado pela multidão judaica, o Messias da matéria, como imagina, em sua baixeza, o tentador. Não veio trazer alimento ao corpo, mas alimento à alma. Esta comida que é a verdade. Quando seus irmãos, longe de suas casas, não tenham bastante pão para acalmar a fome, partilhará com eles os poucos pães que os seus tinham e todos foram saciados e ficarão com cestos cheios (…) Se mudasse as pedras dos caminhos em pães, todos os seguiriam por amor ao próprio corpo e fingiriam crer no que ele dizia. Até os cachorros correriam para o banquete. Mas Ele não quer isto. Quem crer nele, creia em sua palavra, apesar da dor, da fome, da miséria. Mais ainda: quem quiser ser perfeito há de deixar os campos que produzem trigo e as moedas com que comprar o pão. Há de ir com ele sem sacola nem dinheiro, com só uma túnica e viver como os pássaros (…) Sem o pão terrestre é possível viver: um figo, esquecido na ramagem, um peixe pescado no lago podem substituí-lo. Mas do pão do céu ninguém pode prescindir, a menos que queira morrer para sempre, como os que nunca o provaram. Não só de pão vive o homem, mas também de amor, entusiasmo e verdade (…)