O Papa fala de paz num país sofrido, focando nas minorias
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Myanmar, onde está o Papa Francisco desde segunda!

 

Em um país que segue a corrente “Theravada” (“Pequeno Veícolo”) do budismo, surge o lado sombrio da intolerância e da pregação violenta. O Papa espera poder ajudar a diminuir as tensões

Paolo Affatato
Vaticano
La Stampa – Yurim – Itália
25.11.17

 

O Papa Francisco visita o “País dos Pagodes” e é a primeira vez que um Papa pisa na antiga Birmânia, hoje denominada Myanmar *. Vai conhecer os “zetamans”, isto é “os pequenos evangelizadores”, jovens que, com coragem e determinação, mantiveram a fé católica viva durante os 50 anos de regime opressor, que colocava fortes limitações à liberdade religiosa. O Papa abraçará os muçulmanos “rohingya” e outras minorias religiosas, que sofrem, mas, sobretudo, deixará uma marca fundamental no encontro com o “Conselho Budista do Sangha”, num país onde 90% da população segue o budismo em sua corrente “Theravada”, “o Pequeno Veículo”.

O país, que se prepara para acolher o Sumo Pontífice, é uma nação coberta de pagodes, templos budistas de todas as épocas e dimensões. Entre os mais famosos o pagode Shwedagon, em Yangon (antiga capital Rangoon), de 93 metros de altura, recoberto de ouro (na ilustração). A filosofia ascética de Siddharta Gautama, o Buda, permeia toda a vida social e tem um papel determinante na mentalidade e na cultura.

São 53 milhões de habitantes, entre os quais 500 mil monges budistas e 75 mil monjas, em 50 mil comunidades e escolas, parte integrante do sistema social, cultural e religioso. Todo birmanês passa por um período de “noviciado” entre os 7 e os 20 anos, tempo orgulhosamente assinalado pela cerimônia do “Shimbuy”, rito de passagem que recorda a partida do príncipe “Siddharta Gautama (o Buda histórico) de seu palácio, e que culmina num colorido cortejo público. Esta experiência tem, portanto, um duplo aspecto: religioso e civil.

Não foi por acaso que “o exército da compaixão” de milhares de monges tenha sido protagonista, em 2007, da que foi chamada “revolta da cor de açafrão” (cor dos hábitos dos monges), em oposição ao poder opressivo da junta militar, que reprimiu no sangue muitos protestes e que só vários anos depois, em 2011, passou a admitir um governo civil, até as eleições de 2015.

 

O lado escuro do budismo em Myanmar

Segundo o budismo “theravada”, cada pessoa é senhora do próprio destino espiritual, enquanto o budismo “mahayana”, “o grande veículo”, difundido na Ásia do norte, tem como objetivo toda a humanidade, e tem uma natureza mais marcadamente social. Talvez seja a inclinação individualista do budismo birmanês – observam alguns estudiosos – que gera o desvio de alguns monges, que, atualmente, a despeito de valores como compaixão, paz, sabedoria, difundem ódio e encorajam a violência contra as minorias religiosas, como contra os muçulmanos rohingya.

Assim emergiu o lado sombrio do budismo birmanês, focalizado pela mídia internacional, como na capa do “Time” dedicada ao “Bin Laden budista”, o monge Ashin Wiratu, que, primeiro, fundou um movimento religioso, declaradamente anti-islâmico, o “969”, depois transformado no movimento “Ma BA Tha” – “Associação Patriótica do Myanmar – que promoveu, em nível político, a aprovação de quatro leis “em defesa da raça e da religião”, destinadas a golpear, particularmente, a minoria muçulmana.

As primeiras consequências visíveis desta intolerância foram registradas em 2012, quando diversos povoados rohingya foram arrasados e seus moradores – homens, mulheres e crianças – massacrados por multidões de birmaneses budistas. Um começo de “limpeza étnica”, que, alimentada pela propaganda feroz dos monges “Ma BA Tha”, cinco anos depois, se tornou uma maciça operação para expulsar à força toda uma população. Mais de 600 mil rohingya foram coagidos pelo exército birmanês a se refugiarem no país vizinho, Bangladesh, fora de um território onde residiam a três séculos, isto numa absoluta negação dos direitos humanos mais elementares **.

Portanto será decisivo para o Papa Francisco, o relacionamento com os budistas. Nisto a Igreja na Birmânia deve ditar a linha, como já começou a fazer, pedindo que o Papa mostre proximidade com as minorias perseguidas, mas sem pronunciar o termo “rohingya”.

Uma jovem Igreja

A Igreja no Myanmar é pequena e jovem. O anúncio do Evangelho aí chegou com missionários portugueses no século XVI, e, somente 200 anos depois, se iniciou oficialmente a missão da Birmânia, em seguida confiada à Sociedade das Missões Estrangeiras (Paris) e ao Pontifício Instituto de Missões Estrangeiras, o PIME (Itália). A fé católica se radicou graças a missionários incansáveis, como os Bem-aventurados Paolo Manna, Mario Vergara e Clemente Visnara. O primeiro Bispo birmanês foi U Win, ordenado em 1954, com Auxiliar do Bispo de Mandalav. Em 1955, foi instituída a hierarquia em duas províncias: Rangoon (a antiga capital) e Mandalav.

Hoje, há 16 dioceses, sendo 3 arquidioceses, dezessete bispos em exercício e seis eméritos, todos birmaneses. Segundo os dados da Conferência Episcopal Birmanesa, há 675 mil católicos, 939 sacerdotes diocesanos, 1398 religiosos e religiosas e 2.695 catequistas. As dioceses são muito extensas, compreendendo vastas áreas de florestas e de montanhas, dispondo de poucos meios de transporte, muito pobres, comunicações telefônicas ou via INTERNET quase inexistentes, exceto em áreas urbanas. Na maior parte das paróquias rurais, o Pároco deve viajar de dois a cinco dias para chegar a algumas das povoações.

Por isso surgiram os “zetamans”, jovens voluntários que visitam regiões distantes, precioso apoio para os sacerdotes, religiosos e religiosas. Eles de hospedam nas aldeias, investem tempo com as crianças, “nem estilo de presença feito de amizade e amor”, como disse o Bispo Paul Hla. Se lhes pedem, “dão razão da própria esperança e dizem quem são e como encontraram Cristo e mudaram de vida”. “As pessoas pensam que a Igreja é uma promotora da verdade e da caridade. Por isto a população nos aprecia, inclusive os budistas”, enfatiza o Bispo. Os seguidores de Buda facilmente veem no dom gratuito de si e no serviço desinteressado a comunhão com os valores de “metta” e “karuna” (gentileza e compaixão), que os cristãos traduzem como ágape e misericórdia.

No diálogo da vida, portanto, os católicos e budistas se encontram. Como sublinha a recente mensagem da Santa Sé pelo dia do “Vesakh Hanamatsuri”, a festa que comemora um dos principais acontecimentos da vida de Buda: “Somos chamados a um empresa comum: estudar as causas da violência, ensinar os fieis a combater o mal nos próprios corações; e libertar do mal tanto as vítimas como os que cometem violência”. Pelas relações entre cristãos e budistas passa o sucesso da visita do Papa Francisco e os possíveis bons efeitos para a Igreja na Birmânia.

À parte dos extremistas, que poderão esperar o Papa Francisco, organizando manifestações e protestos, budistas e cristãos apreciaram o tema escolhido para a viagem: “paz e reconciliação”, algo significativo para todos no país. “A sociedade em Myanmar sofreu muito no passado. Hoje se registra na nação maior abertura para a liberdade e a esperança, apesar dos muitos desafios a serem enfrentados, incluindo a delicada questão dos muçulmanos rohingya”, observa a jovem católica Saya. Para Succita, monge budista de Yangon, “a presença do Papa infundirá boa vontade a todos”. A sociedade pode encontrar o caminho para uma renovação.

 

  • * “Birmânia” e Myanmar” têm a mesma origem etimológica, sendo a primeira forma ocidental derivada do falar coloquial, e a segunda, da pronúncia erudita.
  • ** A mídia internacional tem publicado depoimentos, como o de uma mãezinha cujo filho foi atirado vivo no incêndio da casa e, em seguida, ela foi estuprada.