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A Criação e o discernimento

O discernimento está na origem do homem, do ser humano. Deus querendo parceiros de amor e não marionetes ou robôs manipuláveis devia dotar o homem de liberdade. “Deus quer deixar ao homem o poder de discernir” (Eclo 15, 14), para que assim procure espontaneamente o seu Criador, a ele adira livremente e chegue à perfeição plena e feliz.

“Desde o princípio, Deus criou o homem e o entregou ao poder de suas próprias decisões”
(Eclo 15, 14).
O “livre-arbítrio” não é tanto o poder de escolher entre um vestido e outro, entre uma atividade e outra. Tudo isto é superficial; na sua radicalidade o livre-arbítrio é o poder de escolher entre amar ou não amar; entre a vida ou morte; entre a bênção ou a maldição.
Deus quer a nossa felicidade e sabe que só a encontramos no caminho do amor. Indica-nos o caminho, mas nos deixa livres de trilhá-lo. Ele nos criou por amor e para o amor. Se livremente respondermos ao seu amor, seremos plenamente realizados/as e felizes.
Santo Inácio foi uma pessoa de grandes desejos. Quando jovem, desejava fama, sucesso e até mesmo o amor de uma mulher nobre. Depois da conversão, seu grande desejo era estar com Cristo e fazer tudo para a Maior Glória de Deus.
Santo Inácio matriculou-se na escola de Deus, deixou-se conduzir por ele e tornou-se o “grande mestre do discernimento”. O Deus de Jesus Cristo é o único que nos dá horizontes para classificar nossas “moções”.
O discernimento é o núcleo central da espiritualidade inaciana. Para sermos fiéis à vontade de Deus é necessário uma constante atitude de discernimento… O que é discernimento?
“Discernimento é a ousadia de deixar-se conduzir pelo Espírito. É perceber, distinguir a voz de Deus no meio de um coro de vozes”. É estar muito atento/a às vozes interiores e exteriores que nos cercam e sobretudo às vozes que gritam no nosso interior. Dentro de nós estão presentes duas forças que se digladiam, duas correntes contrárias.
O discernimento desvela para mim o papel do Bom Espírito (BE), o comportamento do Mau Espírito (ME) e a minha própria liberdade. Os espíritos (BE e ME), contudo, se manifestam em forças ou impulsos – de um lado e em expressões ou veículos – de outro. Denominamos esses impulsos, iluminações, cliques, “moções” quando nos vêm do BE e “artifícios “ ou “tretas” quando nos vêm do ME. A palavra ”moção” vem do latim ”movere” que significa mover. As moções que vêm do BE me levam para Deus e ao seu Reino. As moções do BE me levam a fazer o bem, vêm da ação da graça. Contrariamente, tudo o que me afasta de Deus e do seu Reino vêm do ME, mau espírito, é denominado “artifício” ou “treta”; são armadilhas, tentações, que me levam a fazer o mal, portanto me afastam de Deus.
As “moções espirituais” vêm ao meu coração, à minha mente, independente do meu querer, vêm de fora.
Os impulsos se exprimem em dois estados básicos: a consolação e a desolação. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio nos ensinam que discernir supõe, num primeiro momento, prestar atenção e saber “dizer” qual é o meu estado espiritual. O que estou sentindo? ( Não o que estou pensando…) consolação ou desolação…
Consolação : – Há consolação quando se experimentam os movimentos interiores por meio dos quais nos sentimos plenos de amor pelo Senhor, quando temos desejos fortes e lágrimas pelas coisas de Deus ou dirigidas para a construção do Reino. Todo o aumento de fé, de esperança e de amor é consolação, o mesmo ocorrendo com toda a alegria interior.
Desolação – Há desolação quando ocorre o contrário: obscuridade, perturbação, inclinação para as coisas do espírito deste mundo… Inquietação… Movimentos de desconfiança e de perda de esperança; sensação de fraqueza e de tristeza; sentimentos de separação de Deus.
Duas perguntas podem ajudar no discernimento:
– O que experimento ( o que estou sentindo?) A chave de leitura não é o pensamento e sim o sentimento.
– Aonde isto me leva?
Me leva para Deus ou me afasta?
O discernimento torna a pessoa livre interiormente… não se aprisiona à sua realização pessoal.
• Qual é o referencial de minha vida?
• Gosto ou não gosto? Isto não me realiza…
É importante o conhecer-se interiormente… Quais são as minhas feridas, o
“ meu sentir ferido”… O processo de “libertação interior” é muito lento… Os condicionamentos estão ligados às moções, desolações e apegos… Fácil é perceber as moções; o difícil é perceber os artifícios, os impulsos do mau espírito ( ME).
A realização pessoal no discernimento é conseqüência… Muitas vezes apela-se tanto para a realização pessoal e isto faz com que se passe à margem do Plano de Deus. Não sei se o chamado de Deus leva à realização pessoal? Leva sim, mas em outro nível. Na vida espiritual é muito importante saber distinguir claramente o que é um
”estado espiritual” em contraste com um estado fisiológico ( a dor, por exemplo) ou psíquico( depressão, ansiedade, etc. ).

Ir. Teresa Cristina Potrick, ISJ