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A súplica mais dolorosa do Saltério – Sl 87/88

Salmos de Consolação – Salmo 87/88 *

A súplica no limite de um doente gravemente enfermo

Senhor, meu Deus,
Todos os dias eu clamo por Ti;
Às noites, gemo diante de Ti;
Que minha prece chegue a Ti;
Atende à minha súplica,
Porque estou sobrecarregado de males
E minha vida tocou o inferno.
Tu afastas de mim os amigos,
Fizeste de mim um objeto de horror a seus olhos.
Encarcerado, já não posso sair
E meus olhos estão exaustos de tanta dor.
Eu Te imploro, Senhor, o dia todo.
Pela manhã, levanto as mãos a Ti.
Doente e fraco desde a infância,
Tu fazes pesar sobre mim angústias, até o extremo,
E afastas de mim amigos e companheiros,
Não tenho outros íntimos que não as trevas.

(Sl 87/88,2-4.9-10.16.19)

“O Salmo mais sombrio do Saltério, a lamentação mais tenebrosa de todas as lamentações, o ‘Das profundezas’ mais dramático, o Cântico dos Cânticos do pior…”: estes são algumas das definições atribuídas ao Salmo 87/88, do qual destacamos alguns versículos para nossa oração. Eles exprimem bem a impressão que se tem da leitura desta queixa lançada a Deus, pelo enfermo gravemente atingido e a ponto de morrer. Para ele, doravante, o horizonte se tornou escuro e silencioso.

Seu grito parece um último apelo, como um S.O.S. atirado para um Deus que parece, agora, totalmente mudo e distante. Uma sensação de morte impregna a primeira parte da prece. Parece que uma mão gelada agarra a carne e os ossos do orante. O medo da morte é acompanhado de outra sensação, absolutamente terrível: a solidão. Quem está marginalizado e sozinho, mesmo se sobrevive, parece um corpo morto. O silêncio mais pesado, porém, é o da ausência de Deus, que parece ter esquecido este homem “doente e maribondo desde a infância e que carrega terrores”, que parecem vir do próprio Senhor.

No horizonte – contrariamente ao que se passa em outras súplicas dos sofredores da Bíblia – não há nenhuma luz de esperança. O fim é tremendo: o orante só conta com a companhia das trevas e da morte. Uma prece despojada, pobre, semelhante a de Jó, lança para o céu mudo e que parece mais um grito de desespero que uma invocação. Portanto, Deus aprecia também este grito e sabe o acolher, mesmo que não o atenda: “Pois meus caminhos não são os vossos”, dizia Isaías (Is 55,8).

O Cristo, sobre a Cruz, fez também a experiência do abandono por parte de seus amigos, do terror do sofrimento e da morte, e mesmo do silêncio do Pai (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”). Todos os que entraram neste sombrio túnel de sofrimento e de morte repetem as palavras do Salmista: o fato mesmo que sejam inseridas na Bíblia é sinal de que elas agradam a Deus, que saberá acolher a amargura infinita, que atormenta a alma.

Seguindo as ásperas invocações deste orante de antigamente, nós também, na noite da dor, nas trevas do espírito, na obscuridade a solidão, continuamos a invocar o Senhor:

“Ó Cristo, Tu conheceste o terror da morte. Tu tiveste d elevar aos lábios o cálice do sofrimento. Tu sentiste o gelo da solidão e do silêncio do Pai e dos homens. Ajuda-nos a crer e a viver, mesmo nesta hora terrível. Ajuda-nos a cantar, mesmo sem voz, quando, todas as nossas esperanças humanas se dissipam, colocaremos para sempre nosso espírito em Tuas Mãos”.

* Gianfranco Ravasi, “Perche il cuore possa cantare: I Salmi della conzolazione”, PIMME, Italia