A Transfiguração: um fato realmente histórico
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A Transfiguração – Perez de Urbel

A Transfiguração

 

Segundo “A Vida de Cristo” por J. Perez de Urbel (Editora Quadrante, São Paulo / SP, s/data), pp 273-277)

 

 

Jesus queria se referir a um fato que se realizaria seis dias mais tarde.

Ele acabava de se internar no coração da Galileia, seguido pela pequena comitiva. E chega ao pé de um monte. A sombra do Calvário lhe nublava o olhar e varria, como por encanto, a alegria dos discípulos. Mas, logo, vão surgir perante eles, os fulgores do Tabor.

Uma tradição autorizada, já no século IV, por duas vozes – de São Jerônimo e de São Cirilo de Jerusalém – nos diz que foi o Tabor o monte onde o Senhor se deteve cerca de oito dias, segundo Lucas, seis dias depois de ter deixado ao arredores de Cesareia.

Sua posição isolada, diante da planície de Jezrael, a pouca distância de Nazaré e de Naim, cerca de 600 metros acima do nível do mar, convertia-o num mirante de Genezaré até as margens do Mediterrâneo (…). Embelezado pela curva harmoniosa do seu oval achatado, isolado dos campos em redor por um bosque de azinheiras e terebintos, o Tabor aparece como que envolto em claridades do céu e aconchegado num remanso de paz e de repouso.

Os três Evangelhos sinóticos (Mc, Mt, Lc) nos contam o acontecimento da Transfiguração com ligeiras variantes:

Jesus chamou Pedro, Tiago e João e os levou à parte, a um alto monte.

Eram os três discípulos que haviam de ser testemunhas de Sua Agonia: o Príncipe dos Apóstolos [Pedro], o confidente dos Seus mais íntimos segredos [João] e o primeiro a oferecer o testemunho do próprio sangue [Tiago]. Os demais deviam esperar em baixo.

É ao cair da tarde de um dia de verão. Já tinha terminado a colheita. Os campos estão duros e ressequidos. A última luz do dia se dilui na monotonia de um cinzento amarelado, que faz sobressair manchas verde-escuras dos bosques e prados. Os pastores começam a acender as fogueiras, e o vento do oeste vem oculto nas primeiras sombras.

Fatigados pela marcha do dia e pelo esforço da subida, os três discípulos envolvem-se nos mantos e se estendem, talvez ao abrigo das ruínas daqueles torreões que, mais tarde, Flavio Josefo utilizará mais tarde para enfrentar as tropas de Vespasiano.

Jesus, por sua vez, se entrega à oração. Estava sozinho, num recanto isolado, e o Seu rosto começa a brilhar como o sol e as sua vestes se tornaram brancas como a neve, tão brancas – diz Marcos – que nenhum tintureiro conseguiria assim.

De repente, do meio daquela luz, daquela nuvem luminosa, fulgurante, que envolvia o corpo de Jesus e ressaltava o brilho de Sua divindade, ouvem-se palavras bíblicas. Jesus não está só. Duas personagens ilustres, alvas como ele, envoltas e ligadas na mesma luz, lhe falam. É, a esta altura, que os Apóstolos despertam.

(…) Olham, cheios de assombro, e, através daquele tecido de luz, veem Jesus transfigurado e, a Seu lado, as duas personagens com quem conversa (…): um deles o maior dos libertadores, Moisés, o homem que fora coroado de raios, que durante 40 dias havia conversado com Javé no Sinai; e, o outro, Elias, o perseguido pelos ímpios e idólatras, o que tivera em suas mãos o controle das chuvas e sentira passar junto dele, semelhante a um assobio suave, a glória do Senhor.

Os Apóstolos poderiam, então, ter pensado nas acusações que os fariseus amontoavam sobre o seu Mestre. É possível, que, ingenuamente, se tivessem sentido preocupados, quando os ouviam acusar Jesus de violar a Lei, perverter as tradições e desprezar os doutores de Israel.

E, no entanto, ali estava o melhor do judaísmo a confirmar Sua doutrina eminente, servindo de moldura à Sua Pessoa, a reconhecer n’Ele a realização dos antigos símbolos e profecias. Estavam com Jesus, reconheciam a sua grandeza eminente, falando com Ele do “excesso” do seu coração ou, melhor, do êxodo, da partida que iria acabar em Jerusalém – segundo Lucas – naquilo que tanto custava a compreender aos discípulos: Sua Paixão e Morte.