Leitura orante: São João Maria Vianney
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A Transfiguração – Perez de Urbel
agosto 5, 2017

A Transfiguração: um fato realmente histórico

A Transfiguração: evento histórico *

Festa dia 6 de agosto

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Tomaremos como ponto de apoio a contemplação de Cristo daqueles que nos precederam na Fé. O ponto de partida será, naturalmente, os três Apóstolos, que contemplaram o próprio evento. Ou, talvez, melhor dizendo, os três evangelistas que registraram sua narrativa, o primeiro dos quais, Marcos, pôde beneficiar-se do testemunho de Pedro em primeira mão.

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As narrativas evangélicas da Transfiguração constituem já, à sua maneira, uma contemplação do Mistério, isto é, uma tentativa de captar seu sentido profundo, como claramente se depreende dos destaques diversos que se observam em cada uma delas.

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Mas não se poderia que nos arriscamos assim a deixar de lado o sólido terreno da história, para construir sobre o mutável terreno das interpretações teológicas, posteriores à Páscoa?

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Não , porque estas interpretações também fazem parte do núcleo histórico do fato, supondo-se que entendemos por “histórico” não só o fato nu e cru, relatado pela crônica, mas o fato acrescido do seu significado.

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Existem vários fatos realmente acontecidos, que, entretanto, não são “históricos”, porque não deixaram traço algum na história, não despertaram qualquer interesse, nem, tampouco, fizeram nascer algo novo.

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Um evento é “histórico” quando corresponde à soma de dois requisitos: que tenha “efetivamente acontecido” e, além disso, que tenha assumido uma importância significativa e determinante para as pessoas, que nele foram envolvidos e cuja narração foi por elas determinada.

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A Transfiguração, nesse sentido, tal como nos é narrada nos Evangelhos, é um evento histórico a justo título. Poderemos fazer um cotejo instrutivo com a conversão de São Paulo. Suponhamos que alguém, ou o mesmo São Paulo, houvesse descrito por indicação e, por indícios, imediatamente após o evento, o que havia acontecido no caminho de Damasco.

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Imaginemos depois de que o modo de conversão se mostra a Paulo e é por ele apresentado muito mais tarde. Pensemos em tudo quanto ele faz remontar àquele momento na Carta aos Gálatas e em outros lugares. Pensemos também na repercussão que teve esta evento nos Atos dos Apóstolos e em toda a Igreja primitiva.

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Qual das duas apresentações faria mais justiça ao acontecimento e qual conteria em si mais verdade histórica? Muitas dificuldades na interpretação das Escrituras nascem da ignorância dos fenômenos espirituais e de suas características peculiares.

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Não deveríamos pensar semelhantemente, quando falarmos da historicidade ou sua insuficiência, das narrativas evangélicas da Transfiguração?

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Por essa razão, parece-me muito equilibrado e justo o que escreveu recentemente um ilustre exegeta, como conclusão de seu comentário do episódio da Transfiguração:

“É para se considerar como interpretação mais evidente que um evento da vida de Jesus tenha sido compreendido e expresso em sua importância única, mediante o recurso a diversas e mutáveis concepções veterotestamentárias e apocalípticas. A narração leva a pensar em um acontecimento real acontecido em Jesus, mais do que em uma visão subjetiva dos três discípulos ou de um deles” (H. Schürmann, “Il Vangelo di Luca – I”, Brescia 1983, p. 883).

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Sendo assim, é preciso dizer que os significados, que os evangelistas salientaram mediante o recurso “a diversas e mutáveis concepções veterotestamentárias”, em sentido estrito, não “acrescentam” nada de novo e estranho ao fato. Pelo contrário, “extraem” do próprio fato e põem em relevo parte do seu conteúdo inexaurível.

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Frequentemente, na vida dos santos e das grandes personalidades da fé, um momento de revelação, de contato profundo e decisivo com o divino, cujo alcance só se manifesta à medida que se experimentam seus frutos, ou se constata sua concretização no curso da vida.

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Negar à Transfiguração a importância histórica e o caráter sobrenatural e objetivo, atestado pelos Evangelhos seria o mesmo que considerar impossível a vida de Cristo, o que se observa (de outra maneira e, evidentemente, com outra relevância) na vida dos santos. A história da santidade nos apresenta casos, com a devida comprovação, de verdadeira e própria transfiguração de santos, como a de São Serafim de Sarov, relatada por seu discípulo Motovilov (I. Goranoff, “Serafino di Sarov”, Turim 1981, pp. 155ss).

 

*Extraído de Raniero Cantalamessa, “O Mistério da Transfiguração”, Loyola / SP 2001, pp. 17-19