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A Unção dos Enfermos vem de Jesus? O que é? E se não cura?
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A Vida Eterna: Vida Divina, ímpeto de Amor-amor

Chartres - rosácea - relance da Glória

Creio na Vida Eterna

Credo – Meditações sobre o Símbolo dos Apóstolos
Hans Urs Von Balthazar
Gráfica de Coimbra (s/data)

Nós cremos na vida eterna, sem imaginar como ela será. Muitos estão tão cansados deste mundo perecível, tão saturados, que só desejam uma coisa: adormecer, mergulhar no esquecimento, não ter de continuar a viver. Grandes religiões nos prometem que, se seguirmos os seus ensinamentos, poderemos nos libertar do ter-que-viver. Na sua evolução lenta e sem fim a natureza é manifestamente habitada por uma tensão e uma sede de vida sempre mais organizada, mas uma vez chegada ao nível da consciência, nível em que nada mais pode ser alcançado, aquele impulso tem uma reviravolta e se torna impulso de morte. Todo esforço despendido parece não ter servido para nada.

E eis que a vida eterna deve ser a coisa última e mais alta que a fé cristã pode esperar: “Eu sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25), “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25). Ser, consciência, identidade pessoal podem ser um valor eterno e desejável? Sim, sob a condição de que compreendamos a palavra “eterno” como “divino”, pois em Deus, ser pessoal, quer dizer doação, amor, fecundidade, e só assim Deus é Vida Eterna: como Aquele que reina eternamente no movimento de se doar e de ser gratificado, de ser feliz e de ser beatificado. O contrário puro do tédio de um ser-para-si sem saída. Não! Trata-se de um ir-para-além de si essencial, com todas as surpresas e aventuras que uma tal saída de si promete. Só é preciso deixar de pensar em qualquer temporalidade, que infalivelmente faz cada via chegar a um objetivo preciso: e depois? No que é eterno, cada ímpeto é sempre um “agora”: agora engendro um Deus, que é meu Filho; agora vivo a indizível maravilha de ser a partir do Pai e de Lhe dar graças por Mim; agora nosso amor consuma-se e traz consigo – ó maravilha inesperada! – o Espírito comum de Amor como um Terceiro, como fruto e testemunha do nosso Amor, Amor que eternamente multiplica. E, porque este Agora é inteiramente acontecimento, o contrário de uma estagnação, é o que há de mais apaixonante: tal como na terra há ímpetos de amor, antes de se transformarem em conhecimento, hábito e, talvez, saciedade. “A Ressurreição e a Vida: tal como ressurreição diz uma mutação incrível, do vazio à plenitude, única e agora, também é assim a Vida Eterna.