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Àfrica e Iraque: terras de mártires dos nossos dias

Terroristas do ISIS avançam sobre Bagdá

África: Continuam os ataques aos cristãos. O Diretor das Missões Consolata: redescobrir estas histórias de fé e sangue, seguindo os passos de Paulo VI, que canonizou os Santos Mártires de Uganda.
GEROLAMO FAZZINI
MILANO

109 cristão massacrados em Jos, norte da Nigéria

109 cristão massacrados em Jos, norte da Nigéria

No dia 9 de julho de 1989, há 25 anos, em sua catedral, era ferido de morte Dom Salvatore Colombo, bispo de Mogadíscio, capital da Somália. Com toda probabilidade, o responsável – até hoje impune – deve ser procurado nas fileiras dos fundamentalistas muçulmanos.

Um quarto de século depois, são os estremistas islâmicos do famigerado grupo Boko Haram que semeiam morte na Nigéria e regiões limítrofes. A última chacina é de poucos dias atrás: uma centena de vítimas do incêndio de algumas igrejas dos povoados nos arredores de Chibok, no nordeste do país, a mesma localidade de onde, no mês de abril passado, foram seqüestradas 270 meninas e jovens estudantes.

Em resumo: “A África é hoje terra dos mártires”; como escreve com clareza o Padre Gigi Anataloni, diretor das Missões Consolata no último número do seu boletim mensal. Continua Anataloni, que desenvolveu na África longos anos de ministério, sempre no campo da mídia: “ Do Egito à Líbia, da Somália à África Central, da Nigéria ao Quênia, do Sudão a Serra Leoa, de Ruanda ao Congo (e a enumeração é incompleta), milhares de cristãos testemunham com a própria vida sua fé no Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em seguida, acusa: “Hoje, alguns nomes atraem a atenção da mídia, como o de Meriam, a mãe sudanesa ou de alguns missionários sequestrados e libertados em Camarões. A maior parte, centenas, talvez milhares, de cristãos desaparecem no anonimato das chacinas e na indiferença generalizada.

Com efeito, tirando algumas publicações especializadas (recordemos as assinadas pelo missionário e jornalista comboniano, Neno Contram), o martirológio africano é pouco conhecido, observa Anataloni: “Quem terá ouvido falar dos mártires de Mombaça, mortos em 1631? Quem considerou mártires os inumeráveis cristãos mortos durante séculos no Egito, ou os seqüestrados, vendidos e escravizados etíopes? E as vítimas do Simba no Congo, em 1964? E os 70 mártires Kikuyu, assassinados pelos Mau Mau entre 1951 e 1954? E os mártires de Guiua em Moçambique, mortos entre 1975 e 1992?”

Agora, sublinha o Padre Anataloni, se apresenta uma ocasião especial para redescbrir esta história luminosa de fé e sangue: “Em 8 de outubro de 1954, há 5º anos, o Papa Paulo VI proclamava santos os 22 Mártires de Uganda, mortos entre 1885 e 1887 por ordem do rei Mwanga II, e escrevia: ‘Estes Màrtires Africanos se unem à fileiras dos vitoriosos, que é o Martirológio, uma página trágica e magnífica, verdadeiramente digna de unir-se àquela maravilhosa da África antiga, que nós modernos, gente de fé enfraquecida, pensávamos que nunca mais veríamos (…) Estes Mártires da África abem uma nova época: não queiramos fixar o pensamento nas perseguições e conflitos religiosos, mas de regeneração cristã e civil. A África, banhada no sangue destes Mártires, antes dos novos tempos (queira Deus que sejam os últimos, tão precioso e magnífico é seu holocausto!), ressurge livre e redimida’”.

Comenta Anataloni: “Paulo VI saudava uma África ressurgida, livre e redimida. Um auspício que vai ao encontro, ainda hoje, de uma dura realidade de violência, exploração, injustiças e guerras. Que o sangue de tantos homens e mulheres pacíficos, não violentos, sem defesa e enamorados de Deus, seja, verdadeiramente, fecundo de paz, justiça e harmonia para toda a África.

Iraque, o Arcebispo de Kirkuk: “Entendo os cristãos que deixam o país”

Terroristas do ISIS avançam sobre Bagdá

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Fala Dom Yousif Mirkis: nos últimos dez anos perdemos um bispo, seis padres e milhares de fiéis chacinados.
DA REDAÇÃO
ROMA

“Nós, cristãos, estamos desaparecendo do Iraque, como já aconteceu com nossos irmãos na Turquia, Arábia Saudita e no norte da África. Mesmo no Líbano, atualmente, nós nos tornamos minoria” – palavras amargas pronunciadas por Dom Yousif Mirkis, durante uma recente palestra na Fundação Pontifícia “Ajuda à Igreja que sofre”.

O Arcebispo do rito caldeu de Kirkuk, no norte do Iraque, conta como em seguida à conquista de áreas do país por parte do “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” (ISIS), aumentou a possibilidade que outros fiéis emigrem.

Desde o início da guerra de 2003, centenas de milhares de cristãos abandonaram o país, deixando a sociedade iraquiana privada de um componente essencial. Embora uma pequena minoria, a comunidade cristão sempre foi assinalada por um nível cultural nitidamente superior à média nacional: “ Há onze anos – observou o Bispo – cerca de 40% dos médicos especialistas eram cristãos. O mesmo sucedia com a maior parte dos intelectuais, escritores e jornalistas”. Este foi mérito da educação proporcionada por tantas escolas geridas pela Igreja e por uma mentalidade cristã tradicionalmente aberta e falando várias línguas: “Obviamente, muito do nosso dinamismo se perdeu por causa deste maciço êxodo dos fiéis”, observou o Arcebispo.

A abertura para o Ocidente, a errônea identificação entre a minoria cristã e os “países infiéis” tem sido, sem dúvida, um dos motivos que põem os cristãos na mira dos extremistas. Para Dom Yousif Mirkis, o antagonismo entre Ocidente e mundo islâmico traz para nossos dias a mesma divisão de blocos dos tempos da guerra fria: “Assistimos a uma guerra entre a modernidade e a sociedade fortemente ligada ao passado”. O prelado sublinha como o próprio nome escolhido pelos salafitas (em árabe; “os mais antenados”) denota o desejo de um retorno à sociedade do século VII.

Os cristãos não representam os únicos inimigos dos que desejam um retorno ao passado: “É toda a comunidade intelectual que está sob ataque, inclusive a elite muçulmana – afirma o Arcebispo. Pensem que, desde os começos de 2013, forma assassinados cerca de 180 professores universitários, com consequências desastrosas para toda a sociedade iraquiana”. A saída para uma situação tão dramática pode estar apenas num maior diálogo e numa mais ampla difusão da cultura: “É o único antídoto contra o fanatismo, que hoje ameaça o mundo islâmico, e não apenas nossa comunidade”.

Dom Mirkis continua esperando que haja um futuro para os cristãos no Iraque. Confessa, porém, que não é fácil encontrar palavras para infundir nos fiéis a mesma esperança, sobretudo entre os mais jovens: “Que devo dizer aos que me perguntam sobre os motivos para permanecer? Nos últimos dez anos perdemos um bispo, seis padres e milhares de fiéis têm sido mortos em atentados. Posso compreender perfeitamente porque os cristãos decidem partir”.

Matéria extraída de POPOLI, mensário dos jesuítas da Itália, mês de julho de 2014