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As necessidades em que vivemos são outras tantas preces!

Frei Tomé de Jesus, OFM

Nossas necessidades são orações: Frei Tomé de Jesus

Frei Tomé de Jesus é um dos clássicos da língua portuguesa, religioso agostiniano e reconhecido místico. Feito prisioneiro na derrota de Alcacer Quibir, onde desapareceu o Rei Dom Sebastião, e sendo de família rica, recebeu resgates, que aplicava para outros prisioneiros, sobretudo em risco de renegarem a Fé, morrendo em cativeiro. Foi nestas duras condições que se manteve ativo apóstolo e escreveu sua obra prima, “Trabalhos de Jesus”. A edição que disponho é da Lello & Irmão, Porto 1951 (6ª edição), dois volumes. O texto citado é do primeiro volume do “Exercício da fome e sede de justiça”, páginas 290 a 295, do primeiro volume.

Fonte e pego [abismo, oceano] dos soberanos e infinitos bens, a quem todas as minhas necessidades – ainda sem se entenderem – suspiram, dou-vos infinitas graças, porque me fizestes tão minguado [diminuído] de todos os bens, que até minhas misérias contínuas, continuamente me obriguem a ir a vós. Que coisa há em mim, Senhor meu, que não suspire por vós, posto que eu não entendo? Porque, como todo o bem de vós procede: os divinos, porque se encerram em vós; e os temporais, porque por essa divina mão hão de ser dados.

A estas mãos olham todas as necessidades, em que vós quisestes que eu, nesse degredo, vivesse, assim os corporais, como as espirituais… (esperando) o remédio de todas as suas necessidades, pois delas está sempre cercado, e essas tem por próprias, em que nasceu, e em que vive, e há de morrer, e até pelas temporais, essa mão, fabricadora de todo bem, dá por medida o que para cada um há de mister [necessidade].

Quando estou cativo, ela me ampara. Quando me pode vir algum mal, ela me atalha. Quando permite que venha, ela me ajuda poder com ele. E quanto mais cuidado ponho para acudir a minhas necessidades e gasto nisso toda a ocupação de minha vida, sem me lembrar dessa poderosa e benigna mão, e me valho dos homens e das coisas terrenas, se essa mão paternal não puser sua virtude, ainda quando lho não peço, nem mereço, tudo desarma em vão.

Porque não quisestes que a outrem devesse até as mínimas coisas, senão a vós e por isso todo o terreno homem a vós suspira – ainda quando menos se entende – suas necessidades, de quem só hão de receber o remédio…

NR: A divisão dos parágrafos não é do texto impresso, para facilitar a leitura…