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As palavras do Papa sobre os insultos às religiões: o sentido de limites.

La Stampa / Itália, 16/01/2015

As palavras do Papa sobre os insultos às religiões: o sentido de limites.

A transcrição da resposta do Papa Francisco: nenhuma justificação à violência, mas um chamado à responsabilidade.

ANDREA TORNIELLI
ENVIADO A MANILA

Matar em nome de Deus “é uma aberração”. “Não se pode reagir violentamente”, mas “as religiões não devem ser insultadas”, porque, se se ataca daquilo que os outros têm de mais querido, se alguém “diz um palavrão contra minha mamãe, se espera um murro”. O Papa Francisco, dialogando livremente com os jornalistas no vôo entre o Ceilão e as Filipinas, falou dos atentados em Paris, do sentido de limites, da liberdade religiosa e da liberdade de expressão. A pergunta foi colocada pelo jornalista Sebastien Maillard do jornal “La Croix”: até que ponto se pode chegar, com a liberdade de expressão, que é um direito humano, como também a liberdade religiosa? Eis o texto da sua resposta:

A resposta do Papa

“Obrigado pela pergunta. É inteligente. Acredito que ambos são direitos humanos fundamentais: a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Não se pode – pensemos – Você é francês. Vamos a Paris. Falemos claro. Não se pode esconder uma verdade, que cada qual tem o direito de praticar a própria religião, sem ofender, livremente. Assim fazemos e queremos todos fazer. Segundo, não se pode ofender, fazer guerra, matar em nome da própria religião, isto é, em nome de Deus. O que sucedeu nos faz um pouco… Nós nos assombramos. Pensemos em nossa história: quantas guerras de religião tivemos! Lembremos “a Noite de São Bartolomeu” (n. t.: massacre de lideranças protestantes por ordem da rainha Catariana de Médicis, na França). Como Também nós somos pecadores como todos nós. Mas não se pode matar em nome de Deus. Esta é uma aberração. Matar em nome de Deus é uma aberração. Acredito que esta seja a principal coisa sobre a liberdade de religião: devemos agir com liberdade, sem ofender, sem impor e matar.

A liberdade de expressão… Cada qual não apenas tem a liberdade, o direito, tem também a obrigação de dizer o que pensa, para ajudar o bem comum. Pensemos num deputado, num senador: se não diz o que pensa, que seja o verdadeiro rumo, não colabora com o bem comum. E não só eles, mas tantos outros. Temos a obrigação de dizer abertamente, ter esta liberdade, mas sem ofender.

Porque é verdade que não se pode reagir violentamente, mas se meu grande amigo, Dr. Gasbarri, insulta minha mamãe, recebe um murro! É normal! É normal. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode colocar em ridículo a fé.

O Papa Bento, em um discurso – não me recordo bem onde – falou desta mentalidade pós-positivista, da metafísica pós-positivista, que leva a fim acreditar, que a religião ou a expressão religiosa são uma espécie de subcultura, que são toleradas, são coisa sem valor, não fazem parte da cultura iluminada.

Esta é uma herança do iluminismo. Tanta gente que critica as religiões, a toma em ridículo, digamos “brinca” com a religião dos outros, provocam, e pode acontecer como se o Dr. Gasparri tivesse xingado minha mamãe.

Há um limite. Toda religião tem dignidade, tem religião que respeita a vida humana, a pessoa humana. Não posso ridicularizá-la. E este é um limite. Tomei este exemplo do limite, para dizer que na liberdade de expressão há limites, como no exemplo de minha mamãe. Não sei se consegui responder à pergunta.Obrigado!”

As referências de Francisco

Como se vê, Francisco, sobretudo, insiste que matar, abusando do nome de Deus, é uma aberração. Na última segunda, antes de partir, o Papa disse ao corpo diplomático, que o terrorismo fundamentalista “renega Deus mesmo”, desejando, diante de a seus atentos ouvintes, que os líderes muçulmanos “condenem qualquer interpretação fundamentalista e extremista da religião”. Bergoglio recordou, além disto, que também os cristãos, no passado usaram violência: a Noite de São Bartolomeu foi uma referência ao massacre dos huguenotes protestantes, por obra dos católicos em 1752 [n. t.: na verdade foi uma manobra da corte, nominalmente católica, e nem mesmo foi um movimento de massas, embora manipuladas].

Sobre a liberdade de expressão, Francisco enfatiza que ela é um direito e um dever. Mas há limites. Há sentido de limites, responsabilidade. Para explicá-lo, o Pontífice se voltou para Alberto Gasparri, o organizador da viagem, que estava a seu lado. Com um sorriso nos lábios, imitou um gesto de murro: ofender a alguém no que ele tiver de mais caro, pode provocar reações inusitadas. O sentido do exemplo, depois as palavras ditas anteriormente, não soaram como justificativa do “aberrante” ato terrorista, quanto um apelo à responsabilidade e ao sentido de limites. Muito significativa, sob este aspecto, foi a citação do discurso de Bento XVI, a famosa aula em Ratisbona (12.09.2006). Naquela ocasião, Ratzinger falou da “razão positivista”, que, “diante do divino é surda e pressiona a religião a subcultura”, tornando “incapaz de inserir-se no diálogo das culturas”.

Poucas horas antes da entrevista papal, o Patriarca dos cristãos coptas, Tawadros II, tinha usado palavras semelhantes, relatadas pela agência “Fides”: “Refuto toda forma de insulto pessoal e, quando as ofensas tocam às religiões, elas não são dignas de aprovação no plano humano, nem sob o aspecto moral e social. Não ajudam à paz no mundo”.