A Nova Evangelização: o que é, como se faz; por Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina / PR
outubro 8, 2013
CRISTO – 1 “Mais conhecer, para mais amar e servir” Introdução – 5
outubro 9, 2013

CRISTO – 1 “Mais conhecer, para mais amar e servir” Introdução – 4

Introdução **

– 4 –

Usando nossas potências interiores e aproveitando nossos desejos

Queremos aproveitar os textos das Escrituras para meditar sobre o que o Deus da Vida me dá, “sentindo e saboreando” internamente. Por isso, usamos a memória, a inteligência e a vontade. Assim:

• A memória: recordo o texto, a história, deixando as pessoas evocadas pelas palavras virem a meu coração.
• A inteligência: empenho-me em compreender e reflito sobre mim mesmo/a, para tirar algum proveito.
• A vontade: disponho-me a dar toda a atenção ao que me tocar, ressoando no meu interior, afetando minha vontade.

Como diz Santo Inácio [EE 3]: “Usamos o entendimento refletindo e a vontade afeiçoando-nos”.

Então, como queremos estar presentes a Deus, Inácio aconselha:

“Advirta-se que, nos atos da vontade, ao falarmos vocal ou mentalmente com Deus nosso Senhor ou com seus santos, requer-se, de nossa parte, maior reverência do que ao usarmos o entendimento para compreender”. Isto pode não fazer diferença para Deus, mas é formativo para quem ora!

Em qualquer exercício de oração (“inaciano” ou não!) usamos a memória, a inteligência e a vontade porque somos humanos, e este é o nosso modo de agir. Mas nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, seguimos um roteiro, que corresponde ao do Evangelho: abro-me, para começar, à experiência de conversão, incluindo uma renovação e até uma revolução na minha maneira de “ver” a Deus, aos outros e a mim mesmo/a. Sendo bem feita esta etapa ou “primeira semana”, se sinto em mim o desejo de conhecer a vontade de Deus em minha vida, entro na “segunda semana”, a etapa do seguimento de Jesus. Feita minha “eleição”, a escolha do rumo que o Espírito quer dar à minha vida, em seguimento e união a Cristo, serei convidado/a a ir além, numa etapa unitiva de confirmação pela Paixão (“terceira semana”) e Ressurreição (4a. “semana”). Este processo completo, feito intensamente, em silêncio e retiro, “se conclui mais ou menos dentro de 30 dias” [EE 4].

Como fica bem claro, Inácio chama nossa atenção para nosso modo humano de “funcionar”: convida cada exercitante a ora, usando as capacidades ou faculdades, olhando o que nos “move” e “toca” interiormente.

Para aproveitar este mergulho no Evangelho com tudo o que sou e como sou, a melhor coisa é que começar a exercitar-me espiritualmente com “grande ânimo e generosidade” [EE 5].

Inácio, neste ponto, e ao longo de sua proposta, dá grande importância aos desejos. Comentando a “espiritualidade dos desejos” do Bem-aventurado Padre Pedro Fabro, o primeiro companheiro de Inácio e primeiro sacerdote da Companhia, que nos deixou um belo diário espiritual, seu tradutor e comentarista, Pe. Armando Cardoso escreveu:

“É útil à vida espiritual nutrir grandes desejos de amor a Deus e ao próximo, mesmo em obras que são ou parecem impossíveis. Embora muitas delas não se realizem, sempre que seus desejos aumentem a fé, a esperança e a caridade em ações práticas e, aperfeiçoam a alma são bons” *.

Isto é: a melhor condição para alguém mergulhar no Evangelho, querendo “ordenar a própria vida e buscar e encontrar a vontade de Deus em todas as coisas” pelos Exercícios Espirituais, é ver pulsar no coração bom desejo, ânimo, vontade de avançar na vida cristã.

E se não sinto em mim este grande ânimo e generosidade? Disse um grande orientador de EE: “Se não tem anseio de Deus, peça-o. É uma graça que o Senhor concede a todos aqueles a quem deseja revelar-se”.

É experimentar para crer! Bons desejos!

EXERCÍCIO: Deus viu tudo o que tinha feito e viu que era bom! (Gn 1,31)

Acalmo-me! Inicio este exercício, detendo-me um pouco nas sensações do meu corpo, “repassando” tudo da cabeça aos pés. Minha respiração é minha melhor amiga: dou-me conta de minha respiração. Presto atenção ao ar que entra e sai nas minhas narinas. Simplesmente, vou sentindo. Pacificado, respiro profundamente, agradecendo este dom, sopro da vida!

Rezo! Recordo-me das situações de minha vida quando alguém me elogiou, quando senti que alguém era reconhecido a mim, ao que fiz: “Foi bom o que você fez!” Dou-me conta da alegria, da vida que se une à palavra bom!

Deus me diz: “Você é bom/boa!”. Ele está a meu favor!

Recordo os dons, as capacidades que dele recebi. O que me ocorre? Agradeço. Expresso minha resposta a Ele. Quero experimentar este louvor do coração grato e contente? Digo a Ele – sem pressa de ir adiante – unindo-me a S. Francisco de Assis:

“Onipotente e bom Senhor,
a ti a honra, a glória e o louvor!
Todas as bênçãos de ti nos vêem e todo o povo te diz ‘Amém!’
Louvado sejas nas criaturas!
Primeiro, o Sol lá nas alturas, clareia o dia, grande esplendor, radiante imagem de ti, Senhor!
Louvado sejas pela Irmã Lua! No céu criaste, é obra tua.Pelas Estrelas, claras e belas! Tu és a fonte do brilho delas!”

* Memorial do Bem-aventurado Pedro Fabro”, introd. E notas do Pe. A. Cardoso, SJ, Eds. Loyola / SP, ??? – p. 199.

** CRISTO 1, Edições Loyola 2010