Para te adoçar!!! O AÇÚCAR e DEUS! 
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Deus se faz – porque ama – jardineiro, oleiro, cirurgião plástico e alfaiate

Penso logo no meu Pai, que “para poupar” minha Mãe, antes de sair para o trabalho, dava um jeito de deixar o banheiro brilhando, lavava os lençóis e toalhas e pegava no pesado do mutirão semanal de limpeza da casa… Penso em minha Mãe que multiplicava seus papéis: ora era cozinheira “de forno e fogão”, ora era costureira, ora enfermeira, ora professora, ora gestora e despachante, pois era quem administrava o pouco dinheiro “do mês” e tratava “da papelada”, quando necessário.

Assim nosso Deus se revela ao olhar do Sábio nas primeiras páginas da Bíblia. Todos sabemos que tudo criou, luminosamente, por sua simples Palavra:

“No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia e as trevas cobriam o abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Disse Deus: ‘Haja luz!’; e houve luz!” (Gn 1).

O Sábio autor do livro do Gênesis também sabia disto, mas foi inspirado a expressar o amor com que fomos criados num texto em que não viu problema em nos revelar Deus como jardineiro, oleiro e alfaiate. Assim nos chama atenção para seu imenso amor, nosso imenso bem.

Somos convidados a perceber como este amor é sincero e bem real, quando lemos, depois do poema de fé que abre o Livro do Gênesis (Gn 1,1 a 2,1):

“No dia em que o Senhor Deus fez a terra e o céu e todo seu exército (de astros), nenhum arbusto do campo existia ainda sobre a terra, nem brotara ainda erva alguma do campo, porque o Senhor Deus ainda não fizera cair chuva sobre a terra, e não havia homem para cultivar o solo. Mas uma evaporação se elevava da terra e irrigava toda a superfície do solo” (Gn 2,4b a 6).

Nunca ouviram uma mãezinha zelosa dizer para o filho: “Já para dentro! Para o banho! E cuidado com os pés! Você está todo sujo de barro!”. Os oleiros ficam assim: “barreados”, “sujos” de barro. E, de suas mãos habilidosas, nascem maravilhas: potes de todo o tipo e tamanho, vasos artísticos, pratos, imagens, enfeites. Você precisa vê-los trabalhando em Tracunhaém, cidade presépio da Zona da Mata pernambucana, terra de notáveis “santeiros”. É uma maravilha ver surgir do barro e das mãos deles uma imagem delicada de Nossa Senhora ou de São Francisco… Saem caro nos revendedores do Recife… Na matéria prima, argila, cada oleiro deixou seu espírito, sua arte, sua marca!

O Sábio, para nos catequizar, viu no Criador amoroso um bom oleiro, que nos deu seu sopro de vida e pôs em nós sua marca, seu estilo! Somos “sua imagem e semelhança” (Gn 1,27):

“O Senhor Deus plasmou o homem, pó da terra, e insuflou em suas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7).

Jardineiros são cuidadosos e “quebram as costas” preparando os canteiros, que renovam ao ritmo das estações. Observam bem as coisas, os sinais dos tempos: “Não, madame, esta flor só pode ser plantada depois das águas de março…”. Têm cuidado especial com cada espécie: “Olha só: avencas e violetas gostam de sombra e água fresca…”. Este cuidado e carinho são revelações do amor com que somos criados a cada momento:

“O Senhor Deus tinha plantado o jardim do paraíso, no Éden de delícias, desde o princípio, e colocou nele o homem que Ele tinha plasmado. O Senhor Deus tinha feito brotar do solo toda espécie de árvores atraentes à vista e saborosas ao paladar e a Árvore da Vida no meio do jardim do Paraíso e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” (Gn 2,8).

Escrevendo para o povo hebreu, que habitava uma estreita faixa ao lado de grandes desertos, o Sábio não esqueceu de colocar o Paraíso à margem de belos rios:

“Um rio saía do Éden de delícias para irrigar o jardim do paraíso, e depois se dividia, formando quatro cabeceiras de rios…” (Gn 2,1,16).

E estes rios banhavam a terra e suas diferentes riquezas. Dois deles são velhos conhecidos de quem estudou um pouco de história na escola: o Tigre e o Eufrates, que banham o atual Iraque.

Conhecendo bem o ser humano, tendo lhe dado a dinâmica da vida, o Criador não o fez para ficar parado, admirando o jardim, mas lhe deu aquela maravilha para que ele cuidasse dela. Ainda em nossos tempos, toda vez que tratamos bem nosso meio ambiente, ele fica bonito e bom que dá gosto! Assim está escrito:

“O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim paradisíaco do Éden de delícias para o cultivar e guardar” (Gn 2,15).

Naturalmente o Sábio autor do Livro do Gênesis, nem sonhava em descrever a Criação. Seu serviço era de revelar-nos com que carinho e cuidado somos criados! Nossa vida bem que pode ser boa e bela, sadia, santa! Ele também nada sabia de cirurgiões plásticos, mas, de fato, “viu” no Criador, um deles, e dos mais hábeis, inclusive doutor anestesista e cirurgião plástico:

“Então o Senhor Deus fez o homem cair num sono profundo e esse adormeceu. Tirou-lhe uma costela e fechou de novo a carne em seu lugar. Da costela que tirou do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e a apresentou ao homem…” (Gn 2,21-22).

Assim a mulher é uma obra prima do Criador! Como “a costela” é a armadura da caixa torácica, a proteção do coração e dos pulmões, a mulher tem a vocação original de proteger e guardar o amor e a vida.

Desde o princípio, portanto, homem e mulher nasceram com vocação de cuidar da vida! Nascer com vocação missão é ser criado para viver com responsabilidade, com capacidade de fazer escolhas. Esta liberdade foi mostrada pelo Sábio com a parábola da Árvore da Ciência do Bem e do Mal:

“O Senhor Deus deu ao homem este preceito: ‘Dos frutos de todas as árvores do jardim podes comer. Só não podes comer do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. No dia em que dela comeres, ficarás sujeito à morte” (Gn 2,16).

Sabemos que não devemos usar do produto da folha de fumo, nem da essência da folha de coca. No dia em que o fazemos, chamamos a morte. Questão de escolha! Se alguma alma caridosa nos diz: “Não faça isto!”; até respondemos: “Meta-se com sua vida! Sei o que estou fazendo!”. Isto é, caímos de pés juntos na tentação!

Falando de tentação, o Sábio nos mostra uma esperta Serpente e uma Mãe dos Viventes, Eva, capaz de desconfiar do seu bom Criador:

“A Serpente disse à Mulher: ‘Nada disso! Vós não morrereis, mas Deus sabe que, no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e serei como Deus, conhecendo o bem e o mal’. A Mulher viu que o fruto da árvore era apetitoso para comer e desejável para adquirir inteligência” (Gn 3,4-6).

Doce engano, doce veneno! Deus não tem ciência do mal:

“O conhecimento do mal não é sabedoria. Não se acha prudência nas decisões dos maus. Há uma habilidade que é abominável. É insensato aquele a quem falta a sabedoria. Mais vale ser menos inteligente e possuir o temor de Deus, que ter prudência em abundância e transgredir a lei” (Eclo 19,22).

Assim morremos e matamos, violando a lei e ultrapassando em faixa contínua… Não há sabedoria de vida em nossas más escolhas.

Às vezes imaginamos que o paraíso, o dom de Deus, é um hotel de luxo, em que poderíamos “pintar e bordar”, desde que paguemos ou sejamos convidados do dono. Não é bem assim! Mas o Éden não era, primeiramente, um jardim, mas um dom amoroso, dom de amor. Ferido o amor, ferimos o dom. Estamos fora. Só que o Amor-amor, o Criador, não desiste. O Sábio diz tudo isto numa imagem delicada e singela, em que vemos o Senhor todo poderoso se fazendo de alfaiate, na hora mesmo que mandou embora Adão e Eva do paraíso:

“O Senhor Deus fez para o homem e a sua mulher túnicas de peles, e assim os vestiu” (Gn 2,21).

Protegidos do frio, assim começamos a aventura humana, a história bonita de nossa salvação! Assim prosseguiremos no bem e na paz:

 

“Como levar o jovem vida pura?

Só seguindo, Senhor, tua palavra!

De todo coração eu te procuro,

Não me deixes fugir dos teus preceitos.

Guardei no coração tuas palavras,

A fim de que eu não venha a te ofender.

Senhor, Tu és bendito para sempre!” (Sl 118/119,9-12).

(Do livro “31 Dias no Amor de Deus”, por R. Paiva, SJ, Loyola / SP 2015, 1o DIA)