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Do Japão ao Vaticano, 400 anos depois dos samurais

Sendai contemporânea

No dia 15 de agosto de 1549, São Francisco Xavier, co-fundador da Companhia de Jesus, acompanhado pelo irmão de Ordem Juan Fernandez, tendo como amigo e guia Yajiro, recentemente batizado por ele com o nome cristão de Paulo, desembarcou de um junco chinês em Kagoshima, Japão. Era aniversário dos votos de ir a Jerusalém, e, se não fosse possível, irem a Roma, para se colocarem à disposição do Papa. Eram votos de um grupo de “amigos no Senhor”, reunidos pelo carisma do basco Inácio de Loyola. Mais tarde, deliberaram se constituir em uma Ordem, ligados por votos tradicionais (pobreza, castidade e obediência) mais um 4º: obediência especial ao Papa, quanto às missões.

Com a chegada de Xavier às Índias começava a saga da evangelização do Japão, que ainda está acontecendo, como se pode ver nesta reportagem publicada por “Vatican Insider” do jornal italiano “La Stampa”.

 

Em audiência com o Papa, uma delegação de estudantes e personalidades de Sendai, Japão, guiadas pelo Bispo Hiraga, para recordar a Missão Keicho, enviada em 1615 ao Papa Paulo V.

 

Chegaram hoje (3 de novembro de 2015) e amanhã estarão na Igreja de São Pedro. Exatamente há 400 anos, em 3 de novembro de 2015, quando uma embaixada japonesa, dirigida pelo samurai Hasekura Tsunemaga, foi recebida pelo Papa Paulo V. Celebra a história deste começo das relações entre a Santa Sé e o Japão a chegada desta delegação católica vinda de Sendai, cidade principal da região de Tohoku. São 47 estudantes do Instituto Santa Úrsula, com o Bispo Tetsuo Hiraga e de Date Yasymune, o décimo oitavo descendente do daimio, senhor feudal, de Sendai, há 400 anos. Eles vieram a Roma para lançar uma mensagem de “esperança no futuro”, como inscreveram numa faixa que, nesta próxima quarta-feira, abrirão na Praça de São Pedro, na audiência geral do Papa Francisco. É uma esperança que se enraíza na própria história.

O episódio ao qual se refere à Missão Keicho, uma página da história que poderia ter aberto o diálogo entre o Japão, o Vaticano e a Europa, e, pelo contrário, foi sufocada pelas intrigas políticas. Os acontecimentos tomaram um rumo exatamente oposto, com a duríssima perseguição à comunidade católica japonesa, que teve início naqueles anos.

Foi o daimio de Sendai, Date Masamune, simpatizante do cristianismo, que convenceu o shogum (primeiro ministro, governante de fato do Japão, em nome do Imperador) Tokugawa Hidetada, a enviar uma missão diplomática na América Espanhola e Europa, para assinarem um tratado comercial com a Espanha e encontra o Papa. O samurai Hasekura Tsunenaga foi escolhido para chefiar a missão, que partiu de Sendai com vinte outros samurais, e cento e vinte mercadores, marujos e outros servidores. Foram acompanhados pelo franciscano espanhol Luís Sotelo, o inspirador da operação, futuro mártir e beato.

A primeira etapa foi o México, de onde, no ano seguinte embarcaram para a Espanha, onde foram recebidos pelo rei Filipe III. Foi quando o samurai Hidedata se fez batizar, antes de continuar a viagem para Roma, onde, em 3 de novembro de 1615, entregou uma carta, em latim, ao Papa Paulo V, pedindo o envio de missionários franciscanos a Sendai. Esta carta se conserva até hoje nos arquivos vaticanos.

De volta a Madri, também por causa do tratado comercial, Hasekura encontrou o clima completamente mudado. No Japão, comerciantes ingleses e holandeses concorriam com os espanhóis e portugueses, e influíam no ânimo do shogum contra eles e contra os missionários católicos. Desencadeou-se a perseguição para expulsá-los e erradicar o cristianismo do país. A embaixada retornou a Sendai em 1620. O próprio daimio tinha se alinhado à nova política e banido a religião cristã de seus domínios. Quanto ao samurai batizado, Hasekura, só se sabe que morreu de doença em 1622. Mas, como alguns dos seus descendentes foram vítimas da perseguição, pensa-se que ele terá permanecido fiel ao batismo recebido. Quanto às relações entre Japão e os países europeus só foram reatadas dois séculos depois.

A delegação dos estudantes de Sendai com seu Bispo visitará também Civitavecchia, o porto onde desembarcou a embaixada do samurai Hasekura. Significativamente, esta cidade tem uma igrja dedicada aos santos mártires japoneses.