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Entrevista do Papa, no voo para Roma, depois da JMJ-RIO

No domingo, 28 de julho de 2013, o Santo Padre responde aos jornalistas, voando do Rio a Roma

Jornalista: O Instituto de Obras da Religião (IOR), deve mudar?

Papa: Tudo o que eu deveria fazer veio da congregação geral dos cardeais, antes do conclave. A comissão de oito cardeais – e é importante que venham de fora (de Roma) – vai nesta direção de maturação do relacionamento entre sinodariedade e o primado. Há muitas propostas de reforma, por exemplo, a da Secretaria do Sínodo. Além disso, há o problema do IOR. Eu pensava tratar deste assunto no próximo ano, mas a agenda foi mudada pelos problemas a serem enfrentados, bem conhecidos de vocês (jornalistas). Como reformá-lo e sanear o que deve ser saneado? Nomeei uma comissão “referente”. Não sei como terminará o IOR. Alguns sugerem que será melhor ter um banco. Outros falam de um fundo de ajuda. Ainda outros propõem fechá-lo. Confio no trabalho das pessoas do IOR e da comissão. Não sei como terminará: experimenta-se, procura-se. Mas, com certeza, qualquer que seja o resultado, o que se quer é transparência e honestidade.

O que o Senhor leva na pasta preta?

Embarquei no avião levando minha pasta, porque sempre faço assim. Que coisa levo? O aparelho de barbear, o breviário, a agenda, um livro de leitura. Desta vez levei um livro sobre Santa Teresinha, de quem sou muito devoto. É normal levar uma pasta e devemos ser normais, devemos nos habituar a sermos normais. Estou um pouco surpreso que a imagem da pasta preta tenha dado volta ao mundo. Em todo o caso não era a valise com chave para acionar a bomba atômica…

Por que sempre pede: “Rezem por mim”?

Sempre pedi “rezem por mim”. Quando padre, pedia menos, não tanto como depois. Comecei a pedir com mais frequência, quando bispo. Sinto-me com tantos limites e tantos problemas, e ainda mais: sou pecador. Este pedido é alguma coisa que me vem de dentro. Também peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um costume que me vem do coração. Sinto que devo pedir.

As mudanças e as resistências na Cúria.

As mudanças foram pedidas pelos Cardeais antes do conclave. E há aquelas que vem do meu jeito de ser. Por exemplo: não conseguiria viver sozinho no palácio. O apartamento papal é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não conseguiria viver sozinho com um reduzido número de pessoas. Tenho necessidade de viver com gente, de encontrar gente. Por isto disse que é por motivos “psiquiátricos”. Psicologicamente, eu não poderia, e cada qual deve partir do seu modo de ser. No entanto, os apartamentos dos cardeais são austeros. Pelo menos, os que conheço. Todos devemos viver como o Senhor nos pede que vivamos. Mas uma austeridade geral é necessária para todos os que trabalham no serviço da Igreja. Há santos na Cúria: bispos, sacerdotes e leigos. Gente que trabalha. Muitos vão aos pobres, discretamente, nos tempos disponíveis, ou a alguma igreja para os ministérios. Há também os que não são tão santos, e estes fazem barulho, porque, como vocês sabem, faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce. A mim me dói quando acontecem estas coisas. Temos este Monsenhor que está preso (n. t. Mons. Nunzio Scarano, contador da APSA). Não está preso sem motivo! Acredito que a Cúria baixou um pouco com referência ao nível que já teve, um tempo atrás, quando alguns velhos curiais faziam o trabalho. Mas se há resistência, ainda não percebi. Verdade que eu não tenho feito muita coisa, mas tenho encontrado ajuda, gente leal. Agradam-me pessoas que me dizem: “Não concordo”. Estes são colaboradores leais. Mas há os que diante de você dizem: “Que bom!”; e, depois, talvez, quando saem dizem o contrário. Mas ainda não encontrei estes tipos.

Por que, no Brasil, não se pronunciou sobre o aborto e o casamento “gay”?

A Igreja já se expressou sobre estes pontos, e tem uma posição clara. Durante a viagem ao Brasil, era necessário falar de modo positivo.

Por que se definir como “Bispo de Roma”? Isto não significa definir-se como “primus inter pares” (n.t. O primeiro entre iguais)?

Nãos e deve ler além do que dizem as palavras. O Papa é Bispo, é Bispo de Roma e daí decorre todo o restante. Este é o primeiro título. Depois veem os outros. Mas deduzir então que isto queira dizer que o Sucessor de Pedro seja “o primeiro entre iguais” significa uma ultrapassagem. Enfatizar que o título primordial é o de Bispo de Roma pode favorecer um pouco ao ecumenismo.

O trabalho de Bispo e de Papa

Fazer o trabalho de Bispo é uma coisa bonita. O problema é quando alguém procura este encargo. Isto não é tão bonito. Corre sempre o perigo de se imaginar um pouco superior aos outros, de sentir-se um pouco príncipe. Mas o trabalho de Bispo é belo. Deve estar à frente dos fiéis, no meio dos fiéis, diante dos fiéis. Fui feliz como Bispo em Buenos Aires. Era muito feliz. E como Papa? Também. Quando o Senhor põe você num lugar, se você aceita o que o Senhor pede, você é feliz.

Próximas viagens

Não há nada definido. Na Itália, espero poder ir, um dia, encontrar meus familiares no Piemonte. Teria prazer em ir lá, de avião, por um dia. O Patriarca (de Constantinopla) Bartolomeu, me convidou a viajar com ele a Jerusalém, por ocasião dos 50 anos do encontro de Paulo VI com o Patriarca Atenágoras, que se realizou ali. Tenho um convite do governo de Israel e outro da Autoridade Palestina. Por ora não iria a América Latina: um Papa latino-americano, que fez sua primeira viagem à América Latina… Até mais! Neste momento a Argentina pode esperar… Sim, devo ir a Ásia, que Bento XVI não teve tempo de visitar. No dia 30 de novembro, teria gosto de ir a Constantinopla, para a festa de Santo André, mas não tenho espaço na agenda. E há também um convite de Fátima…

O Papa se sente “engaiolado”

Sabem quantas vezes tenho vontade de andar pelas ruas de Roma? Gostaria muito! Mas os policiais são bons, tão bons, que agora já me deixam fazer alguma coisa a mais…

A questão da segurança no Brasil

A respeito de todas as conjecturas sobre a segurança: não houve um único incidente no Rio de Janeiro nestes dias. Foi tudo muito espontâneo. Com menos segurança, pude abraçar as pessoas. Quis confiar-me ao povo. É verdade que havia o risco de que houvesse ali algum maluco, mas o Senhor também se encontrava ali. Não quis carro blindado, porque o Bispo não pode ser blindado do seu povo. Prefiro a loucura desta proximidade, que faz bem a todos.

E a renovação carismática?

Nos fins dos anos setenta e começos dos oitenta, e não podia suportá-la. Uma vez até disse que confundiam celebração litúrgica com escola de samba. Depois eu os conheci melhor, e me converti, vendo o modo com que trabalhavam em Buenos Aires e, cada ano, dizia a Missa por eles. Aredito que os movimentos são necessários, são uma graça do Espirito. A Igreja é livre, e o Espírito Santo faz o que quer.

E o preparo do avião para o Papa?

Este avião não teve de ser adaptado para o Papa. Não há cama. Pedi com uma carta ou telefonema que não queria adaptações para o voo.

O papel da mulher na Igreja e a ordenação de mulheres

A Igreja sem mulheres é como os Apóstolos sem Maria. O papel das mulheres é a imagem da Virgem, da Mãe de Deus. A Mãe de Deus é mais importante que os Apóstolos. A Igreja é feminina, pois é Esposa e Mãe. Devemos avançar. Não se pode entender a Igreja sem as mulheres ativas nela. Dou um exemplo que não diz respeito à Igreja: para mim a mulher paraguaia é uma mulher gloriosa. Depois da guerra (n.t. do Paraguai contra Argentina, Brasil e Uruguai, de 1864 a 1870), restou um homem para oito mulheres. Elas fizeram a escolha de terem filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé. Na Igreja, devemos pensar na mulher nesta perspectiva. Ainda não fizemos uma teologia da mulher. É preciso fazê-lo. Quanto à ordenação de mulheres, a Igreja falou e disse que não. João Paulo II se pronunciou com uma formulação definitiva. A porta está fechada. Mas tenhamos presente que Maria é mais importante que os apóstolos bispos e, assim, a mulher na Igreja é mais importante que os bispos e padres.

Relacionamento com Bento XVI

A última vez eu houve dois ou três Papas, simultaneamente, eles não se falavam, mas lutavam entre si para determinar quem era o verdadeiro. Quero muito bem a Bento XVI. Ele é um homem de Deus, um homem humilde, um homem que reza. Fiquei muito feliz, quando ele foi eleito Papa, e, depois, testemunhamos seu gesto de renúncia… Para mim, ele é uma grande pessoa. Agora habita no Vaticano. Atrapalha-me? Rema contra? Não! Para mim é como morar com um avô sábio. Quando, na família, temos um avô, ele é venerado e escutado. Bento XVI não se intromete. Para mim, é como ter um avô em casa, ele é meu paizinho. Mas, se tenho dificuldades posso ir falar com ele, como fiz com o grande problema do “Vatileaks”. Quando ele recebeu os cardeais no dia 28 de fevereiro para renunciar, ele disse: “Entre vocês está o novo Papa, a quem eu prometo, desde agora, a minha obediência”. Ele é uma grande pessoa!

E dar a comunhão aos divorciados novamente casados?

Este é um assunto que volta sempre. Acredito que este seja o tempo da misericórdia, este tempo de transição, no qual há tantos problemas, também na Igreja, também pelo mau testemunho de alguns padres. O clericalismo tem deixado tantas pessoas feridas e é necessário curá-las com a misericórdia. A Igreja é Mãe, e na Igreja deve-se encontrar misericórdia para todos. E não é para esperar as pessoas feridas, mas para ir procurá-las. Penso que seja este o tempo da misericórdia, como intuiu João Paulo II, que instituiu o Domingo da Divina Misericórdia. Os divorciados podem comungar, mas não os divorciados em segunda união. É preciso olhar este assunto no contexto da pastoral do matrimônio. Abro parênteses: os ortodoxos, por exemplo, seguem a teologia da economia, e permitem uma segunda união. Quando vier a se reunir o grupo de oito cardeais, nos primeiros três dias de outubro, trataremos de como levar adiante a pastoral do matrimônio. Estamos em caminho de uma pastoral do matrimônio mais profunda. Meu predecessor em Buenos Aires, o Cardeal Quarracino, dizia sempre: “Para mim, a metade dos casamentos é nula, porque os noivos se casam sem saber que é para toda vida, casam por uma conveniência social, etc.”. Também temos de estudar o tema da nulidade matrimonial.

“Continuo me sentindo um jesuíta”

Os jesuítas devem obedecer ao Papa, mas se o Papa é um jesuíta, a quem obedecerá? Talvez ao Superior Geral? Eu me sinto jesuíta, enquanto partilho a espiritualidade, penso como jesuíta, mas não hipocritamente…

Boas coisas e menos boas nestes primeiros meses de papado

Entre as coisas boas, penso no encontro com os Bispos italianos. Entre as dolorosas, que me entraram no coração, a visita a Lampedusa, que me fez bem. Pensei com dor nas pessoas mortas no mar, antes de desembarcar, vítimas de um sistema socioeconômico mundial. O pior que me aconteceu foi uma ciática, que tive no primeiro mês, por causa de uma poltrona que usava para receber as pessoas. Foi muito dolorosa e não a desejo a ninguém! O que me surpreendeu foi encontrar tanta gente boa no Vaticano.

O caso “Vatileaks”

Quando fui encontrar Bento XVI em Castel Gandolfo, vi, na sua escrivaninha uma caixa e uma pasta. Bento XVI me disse que, na caixa, estavam todos os testemunhos das pessoas escutadas pela comissão dos três cardeais sobre ocaso “Vatileaks”, enquanto que, na pasta, estavam as conclusões. Bento XVI sabia tudo de cor. É um grande problema, mas não me assustou.

Relacionamento com os ortodoxos

As Igrejas ortodoxas têm conservado a Liturgia tão bela. Nós perdemos um pouco o sentido de adoração. Eles adoram Deus, e cantam a Deus, sem medir o tempo. Uma vez, falando da Europa ocidental e de sua Igreja, alguns ortodoxos me disseram que “do Oriente, a luz; do Ocidente, o luxo”, isto é, o consumismo e a sociedade do bem estar, que nos te causado tantos males. Por seu lado, os ortodoxos conservam a beleza de Deus no centro. Quando se lê Dostoevisky, percebe-se o que é a alma russa e oriental. Temos muita necessidade deste ar fresco do Oriente, desta luz!

A canonização de João XXIII e de João Paulo II

João XXIII é um pouco a figura do Padre da roça, que ama cada um de seus fiéis, e isto ele manteve como Bispo e como Núncio. Lembremos tantos certificados falsos de Batismo que fez para salvar os judeus, quando era núncio na Turquia. Tinha um grande senso de humor. Quando núncio, havia no Vaticano quem não gostava muito dele, e o fazia esperar longamente. Nunca se lamentou, mas recitava o Rosário, rezava o Breviário. Era uma pessoa mansa! Vinte dias antes de morrer, D. Agostinho Casaroli, foi expor-lhe como transcorrera uma sua missão num país do leste europeu, Tchecoslováquia ou Hungria. Não me lembro bem. Antes que ele se retirasse, o Papa lhe perguntou: “E o Sr. Continua a visitar os jovens encarcerados?” Casaroli respondeu que sim. E João XXIII: “Nunca os abandone!”. E isso dizia a um membro do corpo diplomático, que lhe tinha ido dar conta de uma missão. João XXIII é uma grande pessoa, foi uma grande pessoa. Além disso, temos o Concílio. Pio XII pensava em fazê-lo, mas as circunstâncias não estavam maduras. João não pensou nas circunstâncias, mas seguiu o Espírito Santo. João Paulo II foi um grande missionário da Igreja. Andava, sentia este fogo, foi um São Paulo. Por isto, para mim, é uma grande pessoa. Canonizá-los juntos é uma grande mensagem à Igreja: são valentes, são valentes… Quanto à data, pensávamos em 8 de dezembro, mas os pobres não podem pagar o avião, usam ônibus desde a Polônia, e, em dezembro, as estradas estão com neve. Então, devemos repensar a data. Poderia ser na festa de Cristo Rei deste ano, mas é um pouco difícil, porque vai ser muito em cima do consistório para a canonização, embora esteja marcado para 30 de setembro. Talvez no Domingo da Divina Misericórdia no próximo ano.

E as acusações feitas contra Dom Rica (o Bispo encarregado de velar pelo IOR, e acusado de conduta escandalosa, por fatos que teriam acontecido há treze anos)

Agi como está previsto no Direito Canônico: proceder a uma investigação prévia. E nada foi encontrado do que tinha sido acusado. Nada! Tantas vezes, na Igreja, se procuram pecados da juventude e depois se publicam. Não estamos falando de delitos, de crimes, como abuso de menores – que são toda outra coisa – mas de pecados. Mas, se uma a pessoa leiga, ou um padre, ou uma irmão cometeu um pecado e depois se converteu e confessou, o Senhor perdoa e esquece. Nós não temos o direito de não esquecer, porque, senão, corremos o risco de que o Senhor não se esqueça dos nossos pecados. Tantas vezes relembro São Pedro, que cometeu o pecado mais grave: renegou a Cristo. Contudo, fizeram dele Papa. Mas, repito: sobre Dom Ricca nada foi encontrado.

E o “lobby gay”?

Tanto tem sido escrito sobre o “lobby gay”. Até agora não encontrei no Vaticano quem tenha escrito “gay” na carteira de identidade. E é preciso distinguir entre ser “gay”, ter uma tendência, e fazer “lobby”. Se alguém é “gay” e procura o Senhor com boa vontade, quem sou eu para julgar? O Catecismo da Igreja católica ensina que não devem ser discriminadas as pessoas “gay”, mas acolhê-las. O problema não está em ter a tendência, mas fazer “lobby”, e isto vale para este ponto como para o “lobby” dos avarentos, políticos ou maçônicos…