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Filion 2: Condições injustas

2º segmento

2. As condições religiosas

Se Herodes, o Grande, molestou gravemente a maioria dos seus templos construindo em vários pontos do território edifícios de estilo e funções pagãs, excitou sua gratidão e admiração, quando se propôs a construir o magnífico Templo que leva seu nome na história (…) Zorobabel e os retornados judeus da Babilônia tinham levantado sobre as ruínas do Templo de Salomão, incendiado pelas tropas de Nabucodonosor por ocasião da tomada de Jerusalém pelos caldeus. Fora construído em meio a grandes dificuldades. Era tão modesto que fez chorar os que haviam conhecido o anterior.

Herodes teve a ambição, legítima desta vez, de ampliar e embelezar este segundo Templo, de modo que se tornasse tão belo quanto o de Salomão. Trabalhou nisto quase 15 anos, mas o plano só foi concluído depois de sua morte. O conjunto arquitetônico que compunha o Templo formava, segundo testemunhos críveis, uma das construções mais esplêndidas daqueles anos. Sua magnificência e riqueza se tornaram proverbiais. Dizia-se: “Quem não viu o Templo de Herodes não viu um edifício belo”.

Tinha uma situação admirável, acima do vale do Cedron, diante do monte das Oliveiras. Por detrás dele a cidade se levantava como um anfiteatro sobre as colinas próximas. Exibia amplos tetos sobrepostos, com galerias e milhares de colunas, edifícios em estilo tradicional, agrupados com elegância em torno de vastos pátios, revestidos de pedras e mármores preciosos. Tudo se combinava para tornar o conjunto tão harmonioso que os olhos não se cansavam de contemplá-lo. Jesus foi muitas vezes a este Templo para orar e ensinar.

Também as sinagogas foram, com freqüência teatro de seus milagres e de sua pregação. A aldeia mais humilde tinha a sua. As cidades maiores dispunham de várias. Eram edificadas tão ricamente quanto permitiam os recursos da população. As formosas ruínas de muitas delas, descobertas atualmente na Palestina honram o gosto artístico e a piedade dos que as construíram. Eram, geralmente orientadas de modo que os assistentes estivessem voltados para a direção de Jerusalém. Os fiéis se reuniam várias vezes na semana, mas, sobretudo, nos sábados e festas. O culto nelas consistia de orações, leituras da Lei e do s Profetas (Antigo Testamento), canto dos Salmos e pregação. Serviam também de escolas e de outras reuniões de caráter importante.

Os ministros do culto eram o sumo sacerdote, os outros sacerdotes e os levitas, todos da tribo de Levi. A diferença era que os sacerdotes deviam ser descendentes de Aarão, o irmão de Moisés (…).

Por regra, o sumo sacerdócio era hereditário e vitalício. Mas esta regra sofreu grandes mudanças com o tempo. Depois da volta do exílio da Babilônia, o cargo provocou grandes abusos por ambições e rivalidades criminosas. Nos tempos evangélicos, Roma, que convertia tão infaustos pontífices em instrumentos de sua dominação os instituía e depunha a seu arbítrio. Apenas o procurador Valério Grato, predecessor de Pôncio Pilatos, criou e destituiu três em pouco temp.

O sumo sacerdote representava em Israel a autoridade suprema no campo religioso (…) Exercitava sal função principal no Dia do Grande Perdão ou da Expiação, quando entrava no Santo dos Santos, a parte mais interna do Templo, onde rogava ao Senhor para que perdoasse o povo dos seus pecados. Com a suntuosa veste cerimonial, oficiava também, algumas vezes, em dias de festa e nos sábados. Os Evangelhos só mencionam nominalmente dois sumos sacerdotes: Anás, deposto no ano 14 D.C., e seu genro Caifás, destituído no ano 37. Os dois, sobretudo o segundo, exerceram um papel dos mais indignos durante a Paixão de Jesus Cristo.

Os sacerdotes eram organizados em 24 classes. Suas funções principais consistiam em depositar a carne das vítimas no altar dos holocaustos, levantado ao ar livre diante do Santo, a parte anterior ao Santo dos Santos. Cabia-lhes também testemunhar, oficialmente, a cura dos leprosos (Mc 1,44; Lc 17,14, etc.).

Os levitas estavam serviço dos sacerdotes, ajudando no santuário e no altar. Eram também encarregados dos cantos sagrados e da manutenção da ordem no Templo. Sacerdotes e levitas não permaneciam em Jerusalém senão durante a semana em que eram chamados a cumprir seu ministério, segundo lhes tocava por turnos. Eram-lhes assinalados povoados e cidades de residência habitual. Tiravam sua subsistência de parte da carne das vítimas e dos dízimos pagos por todos os israelitas.

Não iremos entrar aqui nos pormenores dos atos litúrgicos do culto judaico. Apenas recordamos que consistiam, em particular, na oferta dos sacrifícios e na oração. Era essencial o sacrifício cruento da vítima, que podia ser, segundo regras bem precisas, um boi ou uma vaca, um bezerro, um carneiro ou ovelha, pombas, rolinhas. Deviam ser mortos ali mesmo, o sangue derramado sobre ao altar. Um deles não deixava de ter sua beleza: pela manhã e pela tarde um cordeiro sem defeito era oferecido por todo o povo e pagava as custas. Todos os dias eram imoladas outras inumeráveis vítimas em nome de pessoas particulares, em ação de graças, para expiar pecados, alcançar bênçãos particulares, pelo cumprimento de uma promessa ou voto, etc.

O holocausto se distinguia dos outros sacrifícios cruentos porque a vítima era totalmente queimada, sem reservar suas partes para os sacerdotes e os doadores. Nenhuma destas oferendas tinham valor em si mesmas. O que as fazia agradáveis a Deus era a antecipação do único sacrifico verdadeiramente digno do supremo Mestre: a imolação da Vítima do Calvário, Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isto mesmo, estas ofertas imperfeitas deviam desaparecer pouco a pouco na Nova Aliança e dar lugar à mais pura, que,c Ada dia, se oferece em todo o mundo em milhares de altares católicos.

Nosso esboço da situação religiosa do judaísmo na Palestina no temo de Jesus Cristo ficaria incompleto se não falássemos de três seitas célebres de grande significação naquela época: os fariseus, os saduceus e os essênios.

Estes últimos não são mencionados em nenhuma parte dos Evangelhos. Eram como que monges d judaísmo. Muitos levavam uma vida austera e edificante, praticavam o celibato, alimentavam-se pobremente, trabalhavam a terra e viviam em perfeita pureza de costumes, simbolizadas no uso de vestes brancas. Mas seu objetivo principal era um misticismo radical, que muito empanava suas excelentes intenções (n. t.: quando Fillion escreveu, ainda não se tinham descoberto e explorado as ruínas de Qumrán, o mosteiro essênio).

As outras duas seitas aprecem muitas vezes na história evangélica. Embora hostis entre si, em tudo o mais se puseram, infelizmente, de acordo para aborrecer e perseguir Jesus, entregando-o, afinal, aos romanos e à morte. A origem deles remonta à metade do século 2º antes da era cristã. O espírito pagão ameaçava invadir, então, e absorver inteiramente a antiga religião de Moisés. Por isto se foram formando dentro do povo judeu, começando das classes superiores, duas tendências opostas: uma rechaçando com energia e a outra aceitando com moderação as idéias e influências gregas. Os partidários da primeira corrente se denominavam “perouchim”, isto é, “fariseus”, que se traduz por “separados”. Os da segunda corrente, contentavam-se com a virtude legal e ordinária, e eram chamados “tsedakim”, os “justos”, muito simplesmente. As duas tendências foram, pouco a pouco, se distanciando uma da outra.

Os fariseus aderiam excessiva e escrupulosamente à observância rigorosa da lei, e também a tradições humanas, com freqüência, rígidas e mesmo absurdas, tradições até em contradição com o espírito da lei. Desenvolveram um zelo singular em dois pontos: a pureza exterior e legal, que nada tinha a ver com verdadeira santidade (Mc 7,2-4; Mt 15,2); e o pagamento integral dos diversos tipos de dízimo. Pondo acento no externo, a piedade farisaica degenerou em puro formalismo, objeto de ostentação e exibição (Mt 23,23; Lc 11,42), e também de hipocrisia (Mt 6,2.5.16), como Jesus questionava vivamente.

Sem dúvida havia fariseus bons e honrados. Mas, no conjunto, tinham um espírito deplorável. Boa parte era formada pelos letrados e escribas, de que logo falaremos. A seita gozava de grande autoridade junto ao povo, deslumbrado pela aparência de santidade, tendo-a em grande conceito e estima. Roma e tudo quanto dela provinha era objeto de horror para a seita.

A maioria dos saduceus fazia parte da classe aristocrática e sacerdotal. Tinham nas mãos o poder civil e político, pois haviam aderido abertamente à dinastia dos Herodes, e,a te certo ponto, ao poder romano. Estavam em maioria no Sinédrio. Partindo princípio que bastava atacar, bem ou mal, a letra da lei divina, de concessão em concessão chegaram a perder, quase inteiramente, a fé, rechaçando não só a sobrecarga de tradições anexadas à lei de Moisés, mas muitas crenças importantes, como a existência dos anjos e a imortalidade da alma (At 33,6-8). No fundo, eram de espírito racionalista, e não se importavam muito com as grandes esperanças do seu povo.

Os herodianos eram os partidários, subornados ou comprados, da dinastia dos Herodes, por isso mesmo em estreito contacto com os saduceus. Constituíam um grupo mais político que religioso. Defendiam uma moral permissiva e tinham o indiferentismo como doutrina religiosa. Jamais pensaram em sacudir nem lamentar o jugo romano.

As afinidades entre herodianos e saduceus, existiam entre fariseus e escribas, embora os escribas não pertencessem de todo a eles. Os escribas constituíam uma como que corporação oficial, começada após o exílio na Babilônia. Seu ministério era copiar os Livros Sagrados, que continham o texto da Lei, velando por sua pureza e interpretando-o. Esta última função era muito honrosa, foi-se tornando a mais importante e assim lhes alcançou uma autoridade considerável. Daí serem chamados “doutores da Lei”. Por isso Jesus recomendou a seus discípulos obedecê-los (Mt 22,16; Mc 3,6), por que eram representantes de Deus, mas os preveniu contra seu orgulho e hipocrisia, sobre tudo suas tendências opostas ao espírito verdadeiro da lei divina (Mt 23,1-3).

O estado religioso da massa da população judaica neste tempo, também merece atenção. No conjunto não era mal. As penalidades do desterro tinham dado seu fruto, e os usos idolátricos, reiterados anteriormente, haviam caído em desuso desde muito. A nação teocrática era, em geral, fiel a Deus. Amava a oração, companheira de todos os atos da vida. Celebrava regularmente os sábados e festas. Concorria a Jerusalém na peregrinação anual prescrita pela Lei. Sacrificava inúmeras vítimas. Cumpria com bastante exatidão os preceitos divinos.

Bem verdade que em muitos a obediência era exterior e rotineira, mais do que de coração e sobrenatural. Faltava o espírito de verdadeira piedade. O culto, muitas vezes, era manifestação fria. A virtude, para muitos, consistia na prática de múltiplas observâncias, com freqüência ridículas, às quais os Rabinos davam a mesma importância do que aos Dez Mandamentos. Os responsáveis. Responsáveis por esta situação eram os perniciosos exemplos dos fariseus e dos escribas. O coração amante de Jesus estava dolorosamente impressionado. Assim dizem os evangelistas (Mt 9,36; Mc 6,34), que tinha compaixão e pena da multidão, “ovelhas sem pastor”.

Mas o que impressiona sobretudo na leitura dos Evangelhos e nos escritores profanos do período era o ardor com que esperavam, na época, a vinda do Messias. Muitos indícios e sinais anunciam, com efeito, que os oráculos proféticos relativos a sua vinda iriam logo se cumprir. Mais de um impostor se aproveitou do clima de excitação geral, causado por esta expectativa, para apresentarem-se, atrevidamente, como o Cristo (o Messias).

Este entusiasmo poderia ter sido, na verdade, excelente, se não tivesse misturado à imagem do Messias traços demasiado humanos e extravagantes, fazendo dele não um libertador espiritual e fundador do verdadeiro Reino de Deus, mas um irresistível conquistador, que chefiaria o povo contra os romanos, destruindo-os para colocar Israel na liderança das nações, garantindo uma prosperidade e felicidade sem fim.

Loucas esperanças e preocupações funesta, que dificultaram seriamente o êxito da pregação do Salvador, impedindo grande número de judeus de reconhecer sua missão divina! Felizmente havia em Israel muitas almas escolhidas, que compreendiam o verdadeiro significado das profecias, sabendo dar-lhes o justo valor. Muitas acharemos, e não de menor qualidade como Maria, José, Zacarias, Isabel,o velho Simeão, Ana, a profetisa, já no início da história evangélica.

No próximo advento do Messias estes nobres corações viam, antes de mais nada, o perdão concedido aos pecados do povo, a paz com Deus e com os seres humanos, o estabelecimento de um reino ideal, cujo chefe e cabeça seria o Cristo, trazendo a todos a verdadeira felicidade. Os três cantos evangélicos, “Minha alma engrandece o Senhor”, “Bendito seja Deus” e “Agora, Senhor deixai” (Magnificat, Benedictus e Nunc dimittis) são admiráveis modelos desta fé, apresentada em toda sua pureza e esplendor.