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Forças espirituais, por Dom Orlando Brandes (Arcebispo de Londrina / PR)

1. O heroísmo dos mártires. O martírio é o máximo e supremo testemunho de fé e amor. Vemos nos mártires a alegria em sofrer e dar vida por Jesus; a esperança da coroa eterna, gloriosa, triunfal; a certeza do céu, da eternidade, da ressurreição. Eles se encorajam uns aos outros na entrega de si e chegam a colaborar com os algozes quando estes tremem e vacilam no golpe fatal. A morte dos mártires nunca foi derrota, mas triunfo de Jesus, semente de novos cristãos e novas conversões, portanto, sucesso para a Igreja.

2. A mortificação dos santos. A espiritualidade da cruz é antes de tudo o esvaziamento de si, desapego das pessoas e coisas e primazia de Deus através da renúncia, da mortificação. Esta é a luta, o combate, o esforço dos santos para alcançar a purificação do coração. Até os defeitos mais profundos e recônditos são purificados e curados. Os santos têm a consciência de que eles são os maiores pecadores e assim cultivam uma profunda delicadeza de consciência.

3. O desapego do mundo. Para quem quiser crescer na espiritualidade o desapego é a primeira condição. De fato, o apego é uma afeto desordenado, é uma prisão, um ídolo, um engano. É pelo desapego que se chega à consciência do nosso nada e insignificância, portanto, entramos nos umbrais da porta da humildade. O apego é a raiz de todo sofrimento moral e o desapego é a experiência alegre da liberdade do mal para a prática do bem. Enfim, o desapego é a condição para conseguirmos viver o primeiro mandamento e o primeira bem aventurança. Desapego é o nome da pobreza evangélica.

4. A fidelidade à tradição. Precisamos conservar os valores, as convicções, os tesouros da tradição sem tradicionalismo. Jesus foi fiel à tradição da aliança, dos mandamentos com fidelidade criativa. Não podemos esquecer a tradição da fé, o credo, a doutrina, das origens da revelação até ao tesouro do Evangelho.

5. O amor ao sacrifício. Isso significa a entrega de si, o holocausto, a oblação de si em tudo. Consiste em seguir o cordeiro, tornado-se vitima de expiação e de reparação. Chega a ser oferenda perfeita, sacrifício vivo, imolação. Esta espiritualidade foi segredo dos mártires, dos missionários, dos santos. A dimensão sacrifical da vida cristã tem raiz no sacrifício da cruz e na eucaristia. Quem alcança esta graça perde o medo de morrer e cultiva cada dia a morte espiritual, a morte mística.

6. A benção das fraquezas. Deus não tira nossas fraquezas, mas faz maravilhas através delas com a ajuda da sua graça. Na fraqueza Deus costuma revelar sua grandeza. Nossas fraquezas nos jogam nos braços misericordiosos do Pai, nos tornam compreensivos com os outros e muito contribuem para o crescimento da humildade. Quando aceitamos nossas sombras temos chance de sermos melhores do que somos.

7. A eloquência do silêncio. Saber parar, contemplar, estar a sós, ouvir o nosso próprio interior é uma grande força espiritual. O deserto é fértil, o silêncio fala, a meditação cura, a contemplação ilumina. O silêncio é revelação. Os grandes profetas, sábios, místicos, missionários e santos vêm do silêncio. Os cientistas e filósofos entregam-se ao silêncio para encontrar a verdade que procuram. O silêncio é fonte, é escola, é remédio, é inspiração. Para sermos bons comunicadores precisamos buscar o silêncio, no qual encontramos Deus, os outros e a nós mesmos.

8. O desapego. A raiz do sofrimento moral está em nossos apegos. Por outro lado, a liberdade, a disponibilidade, a generosidade são frutos do desapego. Todo apego é uma corrente, uma prisão, uma escravidão. O primeiro gesto de Jesus vindo a este mundo foi desapegar-se da glória, esvaziar-se, descentralizar-se, humilhar-se. Sem o desapego de Jesus na manjedoura, na cruz, na pobreza, na humildade e na simplicidade não aconteceria a encarnação. Não estaríamos salvos.