Carta de Sto. Inácio para um saudável Ano Novo
dezembro 22, 2017
31 DIAS NO AMOR DE DEUS – 22o DIA _ O AMOR DE JESUS NOS INCORPORA
dezembro 24, 2017

Homilia de preparação para o Natal

 

Irmãos e Irmãs no Senhor Jesus:

A paz e a alegria divinas estejam sempre em nossas mentes e corações!

Dou as melhores boas-vindas a todos que aceitaram o convite para ouvirmos a palavra de Deus, nos deixarmos embalar pelos motivos para enaltecer tantas oportunidades bem aproveitadas em nossas vidas e atividades ao longo deste ano e, antes do seu término, nos encaminha para a celebração do Natal de Jesus.

É muito bom conhecer o sentido de nossas existências. Descobrir a consistência de nossas esperanças. Saber que Deus nos ama, induzindo-nos à reciprocidade de uns com os outros, como atitude receptiva de seu desígnio de se revelar, estabelecendo comunicação de profunda intimidade conosco.

Deus é mistério para todos nós. Só Deus revela Deus. Seus pensamentos tão diversos dos pensamentos humanos, suas palavras tão eficazes em relação às palavras humanas. O Senhor jurou e não voltará atrás, atesta o Salmista. Procede coerentemente em sua fidelidade, em sua aliança com toda a humanidade. Diverge de como costumamos fazer ao mudarmos de opinião ou de opção em múltiplas possíveis escolhas. Deus é bem focado. Revela-nos sua misericórdia e seu amor através de gestos de bondade, de melhoria de nossa qualidade de vida, ao seguirmos seus caminhos, induções e aconselhamento.

Estamos acostumados a nos relacionarmos desde o berço, através dos nossos sentidos. Ouvimos, vemos, tocamos, cheiramos, saboreamos. Pelos sentidos, expressamos nossas preferências, comparamos, até formulamos nossos conceitos. Passando do concreto ao abstrato, do apetecível ao asqueroso, do sonoro ao estridente, do prazer ao sofrimento, vamos nos desenvolvendo, transmitindo descobertas, construindo a cultura, legando saberes às próximas gerações. O que foge da experiência imediata, de nossos sentidos, mas acena perceptivelmente para uma comunicação que precisa ser desenvolvida e contextualizada, ultrapassa o mundo criado.

O mundo do mistério, do sobrenatural, desconhecido que nos atrai e seduz em nossa consciência natural. O bem a ser feito! O mal a ser evitado! Fazem parte da nossa racionalidade. Os efeitos em nosso ser da adesão ao bem e da rejeição ao mal, ou da preferência do mal em detrimento do bem, são as iscas para um refinamento espiritual. Ninguém me vê, mas eu me vejo, eu não me engano a mim mesmo.

Estar a sós, cismar, diante da areia e das águas oceânicas, imantado pelo brilho das estrelas, pelo luar. São tantas oportunidades que nos lançam na busca do sentido da própria existência, da presença humana diante do grande universo. Contemplar para conhecer melhor, para descobrir como são guardados os grandes segredos, as chaves do mundo criado.

Pelo criado é possível chegar ao autor, ao artista criador. É possível ouvir sua voz, seguir seus passos, ver a sua presença invisível. Os sentidos materiais sugerem a possibilidade de desenvolver os homólogos espirituais. Os sentidos da imaginação permitem a analogia para o mundo espiritual. Os pais nem sempre estão ao lado dos filhos, mas comunicam uma presença que dá segurança. Vá com Deus! Deus o ilumine! Nunca estarão sós, mas confiantes na capacidade de dar as respostas adequadas a todas as situações que passarem.

A racionalidade humana é a chispa, a inteligência é a fagulha, a digital marcante que o Criador fez eclodir na natureza humana, desde a origem. A Sagrada Escritura é uma obra para a cultura humana, da cultura humana. Várias mãos, muitas inteligências convergiram para a redação final das tradições orais, transmitidas de geração em geração, das percepções e avanços na busca do infinito, das preces ao ser transcendente, que deixando-se encontrar, revelando seu mistério, apresenta-se como a referência de toda a natureza, como portadora de beleza, de reflexo de glória e luz. Deus viu que tudo era muito bom! Deus descansou da obra de suas mãos. Deus legou seu desejo: crescei, multiplicai, transformando a face da terra.

Hoje, a palavra divina proclamada nos apresenta o mais belo de todos os cânticos: O cântico dos cânticos! Um livro breve narrando o amor atraente de um homem e de uma mulher, que se buscam e se deixam encontrar para envolver-se para sempre. Há divergências sobre a interpretação de sua localização na própria Bíblia. Uma, adequada, parece ser o retrato da relação de Deus com o povo da eleição e da Aliança. Relação apresentada como paixão nupcial. O amor de Deus e o amor humano. Atraem-se, afastam-se.

Há obstáculos, o amor vence todas as barreiras. O Salmista encantado com a descoberta das maravilhas realizadas por Deus, convoca toda sua comunidade a cantar um canto novo com alegria para o Senhor.

O Evangelho, narrado pelo médico Lucas, nos apresenta a cena comovente e repleta de significado do início da encarnação. Duas mulheres gestantes se encontram. A jovem visitante percorreu estradas e colinas da Judéia para saudar a idosa, que estava em seu sexto mês, recolhida em sua casa. As parentes saúdam-se mutuamente, dando a oportunidade ao agir divino, selando a veracidade da vida de Maria e de Isabel.

O Cântico dos Cânticos é um eco da narração da criação. Seu conteúdo simbólico é o amor de Deus pelo seu povo. O erotismo é discretamente expresso nos diversos símbolos campestres. O amor é descrito como um dom de Deus para as pessoas que se amam. Os casais em todas as culturas renovam o milagre, os gestos do amor. O amor que não pode ser vencido, o amor é como o fogo, que vem de Deus. Nem as águas revoltas do mar, nem a força da morte serão capazes de destruir, sufocar o amor.

São João vai afirmar com toda segurança aos cristãos das jovens igrejas recém convertidas: Deus é amor! O amor permanece em Deus! Deus permanece em nós. Paulo nos garante: o amor de Deus foi plantado em nossos corações pelo seu Filho. Deus nos legou seu Espírito que nos permite chamá-lo carinhosamente: Papai, Abba!

A noiva ouve a voz do amado, observa-o se aproximando, apressada e indomitamente, pelos montes e colinas. Sente-o ofegante encostado na parede externa de seu quarto, espreitando pelas janelas, através das grades. Ele a convida a levantar-me e a sair com ele. Argumenta o final do inverno, a chegada da primavera, os odores dos campos, o florescer das vinhas, o crescimento dos frutos das figueiras. A natureza exulta! A noiva é comparada à avezinha tímida escondida na brecha do rochedo, no esconderijo escarpado: vem, mostra teu semblante, deixa-me ouvir tua doce voz, contemplar tua graciosidade.

O amor cantado apresenta como o povo é buscado por Deus, que se deixa conhecer, aproximando-se, falando ao coração humano, aguardando a reciprocidade. Amar a Deus sobre todas as coisas! Amar ao próximo como a si mesmo! O salmista sabe constatar pela sua contemplação que os desígnios de Deus são para sempre. Que Deus não é fugaz! Os pensamentos que traz no coração vão perdurar, geração após geração. Deus é fiel ao seu amor. Deus se consagra aos que o amam e o buscam. Deus respeita as decisões. O canto novo cantado reconhece a felicidade de ser escolhido por Deus, de herdar a comunhão com Deus. Razão pela qual, é possível ressuscitar a esperança de dias melhores com muita confiança. Os corações em uníssono se alegram em seu Santo Nome. Afinal: Deus é a nossa única esperança. É eterno, não passa, a relação e a intimidade não se desgastam. Alegrai-vos justos no Senhor! Cantai para Ele o próprio amor!

O Evangelho nos envolve, convidando-nos a entrar e participar de um acontecimento primoroso. Duas mulheres: Maria e Isabel. Uma jovem, outra idosa. Ambas gestando para contribuir para o cumprimento do desígnio divino. Maria será a mãe do Senhor. Isabel a mãe do precursor, do arauto, do último profeta. Como sabem? Há um anúncio duplo do anjo Gabriel que previne ao marido de Isabel, no Templo, que iria ser pai na velhice. Zacarias, seu nome, não acredita em tanta felicidade. Duvidando da veracidade, é castigado pela mudez até que a promessa se realize. Por sua vez, Maria acolhe em sua casa, em Nazaré, que prevenida pela graça de Deus era bem-aventurada, repleta pela graça divina e que iria ser a mãe do Filho do Altíssimo. Maria inquire apenas como se fará a decisão divina. Esclarecida, lhe é comunicada a gravidez no sexto mês de sua prima Isabel. Imediatamente Maria se põe a percorrer nas estradas a distância entre as duas cidades e chegando saúda Isabel. A saudação de Maria, portadora do Espírito Santo, é a mediação de alegria e de inspiração celeste para Isabel. Em alta voz, gritando, exclama sua admiração de ser visitada pela mãe de meu Senhor, meu Deus!

Isabel fica ciente de que Maria acedeu ao que Deus lhe prometeu. Maria é agraciada com a fé em Deus. Tudo o que Deus prometeu vai se cumprir. Maria é abençoada entre todas as mulheres da terra. O fruto de seu ventre: é bendito! É o Deus Senhor do céu e da terra. O menino em meu seio saltou de alegria, reconheceu na tua voz a ação divina.

Caríssimos irmãos e irmãs no Senhor. A proximidade do Natal nos encanta espiritualmente. É o nosso acesso ao mistério de Deus, que se aproxima revelando-se. Sua palavra se faz carne, habita entre nós para que possamos acolher sua vida e verdade. Que possamos deixar a palavra ao texto universal da Sagrada Escritura, para que cada um de nós livremente prossiga na descoberta do que é essencial e possa aderir com todo seu ser ao Senhor que vem ao nosso encontro. Acolher com a intensidade dos noivos cantados no poema do Cântico dos cânticos, que se deixam buscar e encontrar para permanecerem eternamente. Com o cântico novo do salmista que reconhece as maravilhas que Deus operou pela vida e bem-estar de seu povo, de seus fiéis.

Com a generosidade de Maria, subindo e descendo colinas pela Judéia para prestar serviço à Isabel, confortando-a na alegria da esperança que a certeza da fé concede aos que amam ao Senhor da vida e da história. Assim, o Natal será o nosso encontro com a revelação do mistério divino concedendo-nos a paz que une o céu e a terra, razão de nossa alegria e esperança. Assim seja!

Pe. Theodoro Peters
Capela Santo Inácio, 21 de dezembro de 2017.