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Jesus _ Os Pastores de Belém _ por Giovanni Papini

Giovanni Papini nasceu em Florença, Itália, em 1881. Faleceu em 1956. Jovem, propôs-se atingir o “ateísmo integral”. Jornalista e escritor famoso, participante das tarefas políticas de seu temp, viu-se convertido, e empregou seu talento em escrever a História de Cristo, a primeira biografia literária sobre Nosso Senhor. O mais impressionante deste livro impressionante é a “Oração” final. Antes traduzo e ofereço a vocês uma seleção de cinco textos extraídos na nova e cuidada edição espanhola da EDIBESA, Madrid, 2002.

 

Os pastores

 

Aos animais (o boi e o burro) seguiram-se os guardadores de animais. Ainda que os anjos não tivessem anunciado este grande acontecimento, os pastores teriam acudido com pressa para ver o filho da estrangeira, nascido no estábulo.

Os pastores vivem quase sempre solitários e distantes. Nada sabem do mundo longínquo e das festas desta terra. Qualquer acontecimento que se dê perto deles, por menor que seja, os comove. Vigiavam os rebanhos na longa noite do solstício (25 de dezembro), quando a luz e as palavras do anjo os estremeceu.

Apenas avistaram, na fraca luz do estábulo uma mulher, jovem e bela, que, em silêncio, contemplava seu filhinho, e viram o Menino com os olhos mal abertos, aquelas carnes rosadas e delicadas, aquela boca que ainda não havia comido, o coração deles se enterneceu. Um nascimento, o nascimento de um homem, uma alma que vem sofrer com as outras almas, é sempre um milagre tão doloroso, que enche de ternura ainda aos simples, que não compreendem. E aquele recém nascido não era para os que haviam sido avisados um desconhecido, mas aquele que desde mil anos era esperado pelo povo sofredor.

Os pastores ofereceram o pouco que tinham. O pouco que, no entanto, é muito, quando é dado com amor. Levaram os brancos dons do pastoreio: o leite, o queijo, a lã, o cordeiro. Ainda hoje, nas montanhas, onde estão se apagando os últimos vestígios da hospitalidade e da fraternidade, tão logo uma mulher, dá a luz correm as irmãs, as mulheres, as filhas dos pastores. E nenhuma tem as mãos vazias: uma traz um par de ovos, ainda quentes do ninho; outra uma jarra de leite fresca, da ovelha recém ordenhada; outra um queijo apenas colocado para curtir; outra uma galinha para fazer um caldo para a parturiente. Um novo ser apareceu no mundo e começou a chorar. Os vizinhos, como para consolá-lo, levam à mãe os presentes.

Os pastores daquele tempo eram pobres e não desprezavam os pobres. Eram simples como crianças e se alegravam contemplando crianças. Tinham vindo de um povo gerado pelo pastor de Ur (Abraão) e salvo pelo pastor de Madiã (Moisés). Pastores tinham sido seus primeiros reis: Saul e Davi, pastores de rebanho antes de pastores de tribo.

Mas os pastores de Belém, “ignorados pelo mundo duro”, não eram orgulhosos. Um pobre havia nascido entre eles e o olhavam com amor e com amor lhe ofereciam suas pobres riquezas. Sabiam que o Menino, nascido de pobres e na pobreza, nascido simples na simplicidade, nascido de gente da roça no meio do povo, haveria de ser o que resgataria dos humildes, daquelas pessoas “de boa vontade”, sobre os quais o Anjo havia invocado a paz.

Também o Rei desconhecido, o vagabundo Ulisses, não foi acolhido com mais alegria do que pelo pastor Eumeo, no estábulo. Ulisses, porém, seguia para Ítaca para tomar vingança; voltava a casa para matar seus inimigos. Pelo contrário Jesus vinha condenar a vingança, ensinar o perdão aos inimigos. E o amor dos pastores de Belém deixou na sombra a hospitaleira piedade do criador de porcos de Ítaca.