Bênçãos na Igreja – os “Sacramentais”
novembro 13, 2017
novembro 20, 2017

Jesus – Nas águas do Jordão – Giovanni Papini

A VIGÍLIA

João convida os pecadores a se lavarem no Jordão antes de fazer penitência. Jesus procura João e pede para ser batizado. Jesus se considerava, portanto, um pecador?

Os textos parecem explícitos: o profeta pregava “o batismo de penitência para a remissão dos pecados”. Quem ia a ele se reconhecia pecador. Quem vai lavar-se é porque se sente sujo.

O pouco que sabemos da vida de Jesus entre os doze e os trinta anos, precisamente os anos da adolescência capaz de vícios e da juventude acalorada e cheia de fantasias, tem dado a alguns pensar se nesse tempo ele haveria sido – ou pelo menos ele se consideraria tal – pecador como os demais.

O que sabemos dos três anos de vida que lhe restam, os mais iluminados pelas palavras dos quatro evangelistas (porque dos mortos se recordam melhor os últimos dias e conversas) não fornece nenhum indício desta presumida inserção de culpa entre a inocência do princípio e a glória do fim.

Em Cristo não se manifestam sequer aparências de conversão. Suas palavras primeiras têm o mesmo acento das últimas. O manancial de onde correm é transparente desde o primeiro dia. Não há fundo lodoso, nem decantação de maus sedimentos. Ele começa seguro, franco, absoluto. Tem a autoridade reconhecível da pureza. Sente-se que nada deixou de obscuro atrás de si. Sua voz é alta, livre, sincera, um melodioso canto, que não procede do mau vinho dos prazeres, nem da rocha dos arrependimentos. A limpidez de seu olhar, de seu sorriso, de seu pensamento não é a serenidade que se segue às nuvens do temporal, ou a incerta alvura do amanhecer, que, lentamente, vence as malignas sombras da noite. É a limpidez de quem nasceu e permaneceu criança, ainda na maturidade. A limpidez, a transparência, a tranqüilidade, a paz de um dia que terminará na noite, mas que, antes, não teve sombras, dia constante e igual, infância intacta, que não se toldará.

Vai entre os impuros com a simplicidade do puro. Entre os pecadores, com a força do inocente. Entre os enfermos, com a franqueza do são.

Quem se converte está sempre, no fundo da alma, um pouco turvo. Uma só gota amarga que tenha ficado, uma ligeira sombra de imundície, um resto de pena, um perpassar ligeiro de tentação bastam para submergi-lo, novamente, em espasmos. Fica-lhe sempre a suspeita de não se ter despojado da última pele do homem velho, de não haver destruído, apenas adormecido, o outro, que em seu corpo habitava. Tanto pagou, suportou, sofreu por sua salvação que ela lhe parece o seu bem mais precioso, embora tão frágil, que sempre tem medo de pô-la em perigo, de perdê-la. Não foge dos pecadores, mas deles se aproxima com um sentimento de espanto involuntário. Com o receio, às vezes nem sequer assumido, de um novo contágio. Com a suspeita de que, vendo novamente a lama, em que também se deleitava, a recordação, demasiada e atrozmente irresistível, da vergonha, lhe provoque desespero da salvação posterior. Quem foi empregado, costumeiramente, não saber se tornar um patrão amável com seus empregados. Quem foi pobre, muitas vezes, não sabe, uma vez rico, ser generoso com os pobres. Quem foi pecador, nem sempre é, depois da penitência, amigo dos pecadores.

Este restinho de soberba, que se esconde, às vezes, até no coração dos santos, mistura à piedade um mau fermento de desprezo: “Porque não fazem como eles souberam fazer? O caminho para cima está aberto a todos, inclusive aos mais maculados e encardidos. O prêmio é grande. Por que permanecem lá em baixo, afundados no cego inferno?”

E quando o convertido fala a seus irmãos para convertê-los, não pode deixar de se lembrar de sua queda e de sua libertação. Sente-se inclinado, talvez mais pelo desejo de eficácia que pelo orgulho, a oferecer-se com exemplo vivo e presente da graça, como testemunho da doçura da salvação.

Pode-se renegar o passado, mas não se pode destruí-lo de todo. Ele volta a sair, ainda que inconscientemente, nas mesmas pessoas que voltam a começar a vida com o segundo nascimento da penitência.

Em Jesus, este suposto passado de convertido não se vê retornar nunca, de nenhum modo. Não se adverte sequer por uma alusão ou suposição. Não é reconhecível no menor dos seus atos, na mais obscura de suas palavras. Seu amor pelos pecadores nada tem do impetuoso ardor do arrependido, que quer fazer prosélitos. Amor espontâneo, não amor do dever. Ternura de irmão, isenta de censuras. Fraternidade espontânea de amigo, que não tem de vencer repugnâncias. Atração para o impuro do puro que não tem medo de sujar-se e sabe que pode limpar. Amor dos santos, nos momentos supremos de santidade. Amor que faz que com que todos os demais amores pareçam vulgares. Amor que, depois, somente se voltou a encontrar na memória ou na imitação deste amor. Amor que se chamará cristão e nunca teve outras palavras. Amor divino, amor de Jesus, amor.