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Leitura orante: a ciência é modesta e humilde (São Gregório Magno)

A verdadeira ciência foge do orgulho
Dos livros “Moralia” sobre Jó, de São Gregório Magno, Papa
F IV H IX TC – 2ª Leitura
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“Ouve, Jó, minhas palavras e escuta tudo o que digo” – A ciência dos arrogantes tem isto de próprio: eles não sabem comunicar com humildade o que ensinam, e não conseguem apresentar com simplicidade as coisas boas que sabem. Vê-se bem, pelo modo como ensinam, que se colocam, por assim dizer, em lugar muito elevado, e olham de cima para os discípulos, postos em baixo, à distância, sem se dignar a examinar, juntos, a questão, mas apenas impor.
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– Bom Jesus, os orgulhosos não te imitam, e não se assentam na beira dos caminhos para explicar o que não tivesse sido bem entendido pelos discípulos, que te interrogavam familiarmente (ver Mt 13,10)! Também não querem levar em conta o que nos ensinaste pelo Apóstolo Paulo: “A caridade não é arrogante” (1Cor 13,4), mas ela é “paciente, amável, não é invejosa nem falastrona”. Faze com que a caridade do Espírito Santo tome conta de mim! Que eu me torne amável, paciente, simples de coração e de atitudes! Amém!
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Com razão deles disse o Senhor pelo Profeta: “Vós governáveis com severidade e tirania” (Ez 34,4). Na verdade, governam com severidade e tirania os que não se apressam em corrigir seus súditos, expondo-lhes serenamente as razões, mas tratam de dobrá-los com aspereza e predomínio.
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– Bom Jesus, nem precisamos nos lembrar dos tiranos, que dominam povos inteiros. Há pastores de almas, pais de família, empresários que procedem deste modo, sem consideração por todos e cada um, que, afinal, somos filhos todos do Pai celeste. São Bento, pelo contrário, em sua Regra tão sábia, determina que o Abade ouça até o mais jovem monge na hora de tomar uma decisão importante, porque bem pode ser que o Espírito do Pai fale por ele (Regra 3,1-3). Assim cantou o Salmista: “Da boca das criancinhas e dos recém nascidos preparaste uma fortaleza contra Teus adversários” (Sl 8,2). Os pequeninos abrem caminho para a vida, ó Deus da Vida, enquanto os orgulhosos preparam caminhos para o desastre e a morte.
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Pelo contrário, a verdadeira ciência foge pelo pensamento, com tanto maior ímpeto desse vício da soberba, quanto, com maior ardor persegue com as flechas de suas palavras o próprio mestre do orgulho. Ela procura não apregoar por suas atitudes o vício que tenta arrancar do coração dos ouvintes, recorrendo às palavras sagradas. Esforça-se por manifestar a humildade, que é mãe e mestra de todas as virtudes, tanto com as palavras, quanto com a própria vida. Deste modo, procura transmiti-las aos discípulos da verdade, mais por seu modo de ser do que pelo que fala.
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– Bom Jesus, Tu nos ensinaste a amar, deixando-Te pender da Santa Cruz! Assim nos manifestaste o amor até o fim (Jo 13,1), mais do que com todas as Tuas maravilhosas parábolas. Se tivesses descido da Cruz, então sim, não teríamos podido acreditar, mas, ó Bom Pastor, tanto nos amaste, que deste a Tua vida terrestre até a última gota de água e de sangue (ver Jo 19,34). Nós Te bendizemos, ó Rei da Glória!
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Por isso, Paulo, falando aos tessalonissences, como que esquecido das alturas de seu serviço de Apóstolo, disse: “Nós nos fizemos pequenos diante de vós” (1Ts 2,7). Também o Apóstolo Pedro ao dizer: “Preparados sempre a dar satisfação a quem vos pedir explicações sobre a esperança que tendes”; afirma o dever de – na própria ciência da doutrina – manter a virtude do que ensina, mas, acrescenta: “com modéstia e temor, em boa consciência” (ver 1Pe 3,13-17).
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– Senhor, porque nos orgulhamos? Afinal, o que sabemos? Aquela doutora de botânica sabia tudo, ou quase tudo de musgos e liquens, mas nada a respeito da bela árvore que tinha diante dos olhos! O outro eminente professor, não sabia passar roupa ou preparar uma refeição decente! E tantos cientistas, que usam e dependem do computador, não sabem construí-lo. E aquele constitucionalista, será que conhece todas as constituições, não digo dos países deste mundo, mas as que o Brasil já teve? E o milionário, saberia sobreviver como morador de rua? E que teólogo conhece Teu pensamento? Não sabemos como Tu diriges as nuvens e fazes fulgurar os relâmpagos. Ignoramos o caminho dos tempos e nossas previsões de sol e chuva, com frequência falham (ver Jó 37). Sim, “onde estávamos quando colocaste os fundamentos da terra, marcaste suas dimensões, quando fechaste o mar nos seus limites” (ver Jó 38). O orgulho é vaidade, coisa inútil! Livra-nos dele! Que sejamos sinceros e humildes!
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Quando Paulo diz ao discípulo: “Ordena e ensina com toda autoridade”; não fala de domínio, mas se refere ao dever de ensinar com a autoridade da vida. Com autoridade se ensina aquilo que se vive antes de dizê-lo, pois não se tem confiança na doutrina, quando a consciência impede a fala. Por conseguinte, Paulo não lhe sugeriu a força de palavras orgulhosas, mas a confiança na vida honesta. Sobre o Senhor está escrito: “Ensinava como quem tinha poder, não como os escribas e fariseus” (Mc 1,22). De modo único e essencial, foi Ele o único a pregar o bem com autoridade, porque nunca cometeu mal algum por fraqueza. Com efeito, pelo poder da divindade, possuía o que nos ministrou pela inteireza de Sua humanidade.
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– Tu nos manifestaste a integridade do Altíssimo, Unidade perfeita em perfeita Comunhão, na Tua integridade moral. És a “tradução” verdadeira do Três vezes Santo! No Sermão da Montanha, não recorreste a nenhuma autoridade, a não ser à Tua mesma: “Ouviste o que disseram os antigos, mas Eu, porém, vos digo”. Jesus, que creiamos! Que ponhamos em Ti a Fé, Tu que nos ensinas de Coração manso e humilde! Amém! Aleluia!