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Leitura orante: a cura do paralítico (Jo 5,1-18)

“ Pega teu colchão e vai” (Jo 5,8)
No pórtico da piscina de Betesda *, um paralítico perseverava havia 38 anos, sonhando com a possibilidade muito remota de que conseguisse se atirar na água, agitada por um anjo, como se dizia, e ser curado, antes que outra pessoa mergulhasse. Havia muito amor na vida dele: seus familiares, cada dia, o levavam ali e o vinham buscar. Maior amor iria logo encontrar nos bons olhos de Jesus. Havia, também, algum pecado grave, pelo qual ficara prejudicado, pois Jesus lhe disse: “Vai! Fica são! E não peques mais para que não te aconteça algo pior” (Jo 5,14).
Meditemos ou contemplemos o texto ajudados pelos comentários de Silvano Fausti, “Uma Comunità Legge il Vangelo di Giovanni”, Âncora Editrice, Itália, ristampa 2003, pp. 104-112.
No início, o texto menciona uma “festa dos judeus”  (v. 1), no centro do “sábado” (vv 9-10) e, no final, se refere à morte de Jesus (v. 18). Será esta a festa na qual Ele dá a todos a salvação, simbolicamente descrita nesta cura. Com Jesus, o Filho, que vem ao encontro dos irmãos, atinge o “sábado”: o homem, criado no sexto dia, incapaz de chegar ao sétimo, finalmente “caminha” para a plenitude da vida, que sempre desejou.
Senhor, desejo Teu dom? Desejo vida e vida em abundância (Jo 10,10)?
Com este relato se inicia “o juízo”, já acenado em 3,17 ss: de um lado, o Filho, que dá a vida aos irmãos, que o acolhem; do outro, os chefes do povo, que a tiram. Ele cumpre a obra de libertação do Pai em favor de Seus filhos. Mas alguns deles, e, precisamente, os chefes, se opõem, como, outrora, o Faraó. Prepara-se assim o novo Êxodo, que vai se dar no capítulo 6. Diante da ação de Jesus em prol do ser humano, é colocada a alternativa entre aceitar o seu dom ou recusá-lo em nome da Lei. Quem recusa, permanece na própria morte e mata Aquele que, enquanto lhe rouba a vida, a dá. A Cruz será Seu julgamento.
Jesus, temos medo de te seguir ao Calvário! Mas é teu o querer e o agir (Fl 2,13)! Conduze-nos pelo caminho estreito (Mt 7,13), que leva à verdadeira vida!
Este relato desenvolve o precedente , quando Jesus recuperou (Jo 4,47-49) alguém “que estava para morrer”, e, ao mesmo tempo d,á início à segunda parte do “livro dos sinais”, que vai culminar na ressurreição de Lázaro (ver 11,1 ss). A Vida que vence a morte é a nota dominante do Evangelho. O homem com que Jesus se defronta é alguém que não pode ficar em pé. Sofre seu mal há 38 anos, levando uma existência inerte e meio morta. Não será curado pela água da piscina, símbolo da natureza, nem da água do poço de Jacó, símbolo da lei. A Água Viva, o dom de Deus, será o amor do Pai para com o Filho, que o mesmo amor do Filho para com os irmãos.
Senhor, dá-me desta água! Mas não é verdade que sou batizado na água e no Espírito! Então eu Te suplico: que eu viva a graça do Santo Batismo!
Este homem, como todos nós, sabe estar destinado à morte. A Palavra de Jesus lhe dá ser curado daquela “doença mortal”, que é esta vida. O “trabalho de Deus” se cumpre exatamente nesta obra: é o “sábado”, festa de Deus e do ser humano, quando ambos se encontram.
A origem da sua condição “enferma” é um “pecado” (v. 14), não definido mas indicado. O pecado é a separação do ser humano do seu Princípio e de seu Fim. A Lei, que distingue a vida da morte, não pode mais do que mostrá-lo. Assim induz no pecador uma resignação ao mal que o faz dizer: “Só pode ser assim. Era melhor que eu não tivesse nascido”. Quem se crê justo, por sua vez, é, simplesmente, um cego que acredita estar vendo (9,41). O mal do povo é a resignação; dos chefes é a cegueira.
Jesus, pelo Teu Espírito, dá-me Esperança! Dá-me olhos de ver e ouvidos de ouvir!
(…) A ação de Jesus é “curar” (v. 13), “sanar” (v. 10) o ser humano, de modo a que se torne “são”, capaz de “caminhar” e “levar o colchão” , onde, antes, era carregado como prisioneiro (…)
Jesus é o Filho, que cura a humanidade do ser humano. Nenhum elemento natural e nenhuma lei religiosa, nem a água da cisterna nem a do poço, mas apenas a Água Viva, seu Dom, apaga a sede própria de quem está consciente de que vai morrer.
A Igreja se reconhece nesse homem, que jazia perto da água. Ela sabe que sua salvação vem do Filho, que dá a vida a quem escuta Sua Palavra.
Jesus, Bom Jesus, que nós creiamos! Cura-nos! Que Te escutemos! Só Tu tens palavras de Vida Eterna (Jo 6,68)!
* Na foto, ruínas da piscina de Betesda, a piscina dos 5 pórticos, pois tinha um, como ponte, na parte central, além dos 4 que a rodeavam.