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Na Ilha de Lesbos, Grécia, a primeira viagem ecumênica católica-ortodoxa

Francisco, Bartolomeu e Jerônimo em Lesbos

A declaração comum, assinada por Francisco, Bartolomeu e Jerônimo

Extraído de Vatican Insider – La Stampa – Italia -18.04.2016e, análise em dez considerações, por Luís Badilla: o ato de Francisco, Bartolomeu e Jerônimo é “uma primeira vez” na milenar história cristã. Destaques da declaração comum do Papa, do Patriarca de Constantinopla e do Arcebispo de Atenas, chefe da Igreja autônoma da Grécia.

A relevância da viagem a Lesbos neste sábado, 16 de abril, de Francisco, Bartolomeu e Jerônimo – relevância religiosa, espiritual, humana e humanitária – de alguma maneira deixou na sombra uma particularidade histórica de primeira importância. É verdade que a não escapou da mídia a natureza “humanitária em chave ecumênica” desta peregrinação ao coração da dor e do sofrimento. Porém, em Lesbos, na realidade, aconteceu algo de maior: foi a primeira viagem ecumênica na história das viagens pontifícias fora da Itália (150, desde a primeira, de Paulo VI à Terra Santa em 1964, até a presente).

Houve dois momentos ecumênicos nestas viagens: o abraço entre Paulo VI e o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Atenágoras; e, 50 anos depois, o abraço entre o Papa Francisco e Bartolomeu, o sucessor de Atenágoras (…). Podemos dizer, com simplicidade, que foram “encontros ecumênicos”.

E podemos acrescentar um terceiro, muito especial: em Havana, Cuba, 12 de fevereiro de 2016: o abraço entre o Papa Francisco e o Patriarca da Rússia, Cirilo, depois de mil anos de separação…

No caso da viagem a Lesbos, porém, podemos afirmar que foi a primeira peregrinação ecumênica na história entre católicos e ortodoxos, por dez razões:

1. A viagem já nasceu como um projeto de peregrinação ecumênica entre o Papa, o Patriarca e o Arcebispo de Atenas, chefe da Igreja autônoma (autocéfala) de Atenas e de toda a Grécia. Para atuarem unidos, testemunhando, em comum, “a misericórdia do Pai”.

2. Os assessores, pessoas de alto nível, de Francisco, Bartolomeu e Jerônimo, trabalharam juntos para organizar o programa, que foi, assim, fruto de um acordo ecumênico,cuidado atentamente também quanto às fases operativas e logísticas.

3. No dia 16 de abril, do primeiro ao último minuto, os três líderes religiosos presidiram juntos todos os eventos do programa preparado e todos tiveram espaços de relevância comparável.

4. Os três sempre tomaram cuidado nas suas intervenções de dizerem “nós”, passando a ideia de que agiam conjuntamente, partilhando cada fase do programa.

5. Juntos, durante 80 minutos, abraçaram e falaram com os refugiados do Campo “Moria”, como se fossem membros de uma mesma delegação.
6. Cada qual disse as próprias orações em presença dos outros nos diversos momentos do programa.

7. Os responsáveis do programa, ainda nos pormenores, atuaram sempre em completo acordo e harmonia, e, durante toda a visita, eram vistos quase como “anjos da guarda” dos líderes religiosos, em contínua comunicação entre si.

8. Da parte do Vaticano, foram evitados todos os símbolos e protocolos que pudessem dar alguma ideia de diferença entre os líderes.

9. Uma particularidade notável da viagem foi a ausência do Presidente da Grécia, Procópio Paulopoulos, que, no entanto, havia convidado o Papa Francisco com um bela carta, onde escreveu: “Santidade, muitos milhares de pessoas foram forçadas a deixar suas pátrias, diante da guerra, do terror e da miséria. Estão, agora, em situação de estrema marginalização (…) Estou convicto, Santidade, que é necessário o empenho de todos os povos e governos europeus para enfrentar esta situação dramática, e estou seguro que Vossa contribuição pode ser especialmente significativa e decisiva, para que se compreenda a tragédia dos refugiados e colocar em evidência os valores humanitários de nossa comum civilização europeia”.

Neste caso, por que o Presidente não compareceu? A resposta plausível é que um encontro oficial com o Papa daria à viagem – querendo ou não – um caráter de visita de Estado (bilateral: Grécia e Santa Sé), o que interferiria no caráter ecumênico das três partes, e, talvez, forçasse a uma recepção similar ao Patriarca [N.T.: que não é Chefe de Estado, como o Papa].

10. A confirmação que a viagem teria esta natureza foi dada pela declaração conjunta, rica de afirmações engajadas, que consolidam as ligações entre a Sé Apostólica (católicos), o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla e a Igreja Grega (autônoma, autocéfala), abrindo perspectivas, hoje irrealizáveis, mas não impossíveis no futuro.

Neste importante documento, podemos ler frases como os exemplos seguintes:

“Nós nos encontramos na ilha grega de Lesbos para manifestar nossa profunda preocupação pela trágica situação de numerosos refugiados, migrantes e indivíduos à procura de asilo, que chegaram à Europa, escapando das situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à própria sobrevivência.”.

“Desde Lesbos, fazemos um apelo à comunidade internacional, a fim de que responda, corajosamente, enfrentando esta enorme crise humanitária, como também às suas causas, mediante iniciativas diplomáticas, políticas e caritativas, com esforços conjuntos, seja no Oriente Médio, seja na Europa”.

“Como líderes de nossas respectivas Igrejas, estamos unidos no desejo da paz e no cuidado de promover soluções dos conflitos, através do diálogo e da reconciliação. Reconhecendo os esforços já empreendidos para dar ajuda e assistência aos refugiados, migrantes e quantos pedem asilo, apelamos a todos os responsáveis políticos para que sejam empregados todos os meios para assegurar que indivíduos e comunidades, inclusive cristãos, possam permanecer em suas pátrias, gozando do direito fundamental de viver em paz e segurança”.

“Juntos, imploramos, solenemente, o fim da guerra e da violência no Oriente Médio; uma paz justa e duradoura; um retorno honroso, para os que foram coagidos a abandonar suas casas. Pedimos às comunidades religiosas que aumentem os esforços para acolher, assistir e proteger os refugiados de todas as religiões, para que os serviços de socorro – religiosos e civis – operem coordenando suas iniciativas”.

“Exortamos todos os países – enquanto perdurar esta situação de precariedade – que ampliem, a tempo, o asilo, concedendo o “status” de refugiados a todos quantos forem idôneos, ampliando os esforços para dar socorro e se unirem a todos os homens e mulheres de boa vontade, para alcançar um fim concorde dos conflitos atuais”.

“De nossa parte, em obediência à vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, decidimos, com firmeza e de coração, intensificar nossos esforços para promover a plena unidade entre todos os cristãos. Reafirmamos a convicção que ‘a reconciliação entre os cristãos significa promover a justiça social em um povo e em todos os povos (…). ‘Queremos contribuir juntos para que se conceda uma acolhida humana e digna a mulheres e homens migrantes, aos refugiados e aos que procuram asilo na Europa'” (“Carta Ecumênica”, 2001).

“Defendendo os direitos humanos fundamentais dos refugiados, dos que procuram asilo, dos migrantes e de muitas pessoas que vivem à margem de nossa sociedade, entendemos estar cumprindo a missão de serviço da Igreja no mundo”.

“O nosso encontro de hoje com os refugiados se propõe a infundir coragem e esperança aos que procuram refúgio e a todos os que os acolhem e assistem”.

“Exortamos à comunidade internacional a fazer da proteção à vida humana uma prioridade e a sustentar, em todos os níveis, inclusive politicamente, que se estendam a todas as comunidades religiosas. A terrível situação de todos quantos são atingidos pela atual crise humanitária, incluindo muitíssimos e nossos irmãos e irmãs cristãos, requer nossa constante oração”.