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NOSSO SENHOR JESUS CRISTO SEGUNDO OS EVANGELHOS Por Louis Claude Fillion 1

Soldados Romanos

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

SEGUNDO OS EVANGELHOS

Por Louis Claude Fillion

Seleção e tradução por R. Paiva, SJ

A seu tempo, Jean Claude Fillion (1843-1927), Padre de São Sulpício, foi um pioneiro dos estudos científicos da Bíblia, chegando a ser consultor da Pontifícia Comissão Bíblica.
Traduzido imediatamente para várias línguas, logo que saiu na França,em 1917, sua primeira edição em espanhol foi neste mesmo ano. Lembremo-nos que a Europa e o mundo sofriam a 1ª. Grande Guerra (1914-1918), o que torna mais admirável o êxito desta obra, cuja leitura envolve e instrui até os nossos dias.
Com os progressos dos estudos bíblicos, a obra de Fillion não ficou desvalorizada, pois suas intuições e espiritualidade continuam válidas, como o prova esta edição da EDIBESA, Madrid, 2002, da qual extraí e traduzi alguns trechos. O sítio eletrônico da editora é <www3.planalta.es/edibesa>.
No seu prólogo, o Autor fala de sua obra maior, um estudo científico dos dados evangélicos sobre Jesus, e diz que muitos lhe pediram que escrevesse uma vida “mais simples” de Nosso Senhor. E esta foi a obra que o consagrou, a mais simples!
O Autor defende, com a tradição dos primitivos escritores cristãos, a data mais próxima dos eventos para a redação dos evangelhos sinóticos, deixando João para o final do primeiro século. O curioso é que, depois do furacão provocado por Bultmann e sua teoria da “história das formas”, que necessariamente postulava uma lenta composição dos atuais textos, os estudiosos se voltam mais e mais para as datas tradicionais: “Os três primeiros (evangelhos), de São Mateus, São Marcos e São Lucas não apareceram mais além dos dez, quinze e vinte e cinco anos da morte de Nosso Senhor.
A última edição da Bíblia de Jerusalém afirma:” “É muito difícil precisar a data da redação dos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) (…) colocar-se-á a composição de Marcos um pouco antes (Clemente de Alexandria), ou um pouco depois (Irineu) da morte de Pedro, entre 64 e 70, não depois desta data (…) Mateus e Lucas supõem que a ruína de Jerusalém é fato realizado (…). Deveríamos então datá-los entre 75 e 90 (…). Se admitirmos que os Sinóticos foram compostos por etapas, a datação da última redação deixa a possibilidade de datas mais antigas para as redações intermediárias, mais ainda para o Mateus aramaico, que estaria na origem da tradição sinótica”.
Gianfranco Ravasi (ver A Boa Nova – As histórias, as idéias e os personagens do Novo Testamento”, Edições Paulinas / SP, 1999), também coloca Marcos (redação final) entre os anos 65 e 70. Para Mateus, ele supõe a data em algum momento dos “anos 80”. Já Lucas é situado perto do ano 70. Quanto a João, estaria pronto no final do século 1º, portanto nos anos 90.
Não se espere, contudo de Fillion, uma atitude distante fria, “científica”. Se ele é um homem de ciência, ele o é porque ama a verdade, entusiasma-se com a verdade e nos transmite seu entusiasmo.
R. Paiva, SJ

1º segmento

A sociedade de Jesus

A nação da qual o Senhor se dignou fazer-se diretamente membro, por sua encarnação, era, na aparência, de pouca importância, como pequeno era o território onde estava estabelecida. Contudo, era uma raça notável, a que Deus, por muitos séculos, havia concedido esplêndidos privilégios, em vista, definitivamente, da união estreita que existia entre ela e o Messias. São Paulo resume com bela linguagem estas prerrogativas, das quais, com razão, se envaidecia: “Meus irmãos, os israelitas (Rm 9,3-5), aos quais pertence a adoção de filhos, a glória, a aliança, a lei, o culto e as promessas, cujos pais são os patriarcas e dos quais descende o mesmo Jesus Cristo segundo a carne, o qual é o Deus bendito sobre todas as coisas para todo o sempre. Amém!”

Não era possível traçar um quadro mais nobre e verídico. Deus adotou os israelitas como sua própria nação, tendo com eles relações totalmente paternas. Por isto mesmo os havia enchido de glória, glória única na história dos antigos povos. Firmou com eles uma aliança especial no Sinai, deu-lhes uma admirável lei com o fim de fazer deles uma nação santa. Foram os únicos em receber d’Ele um culto de nível superior,que acabava, com um só golpe, com os usos idolátricos de outras nações.

E que promessas de futuro não lhes trouxeram os profetas! Por meio de reiterados oráculos, eles lhes anunciavam a vinda do Messias e o derrame de bens inefáveis, como fruto deste acontecimento. Os patriarcas, os nomes gloriosos de Abrão, Isaac, Jacó e seus descendentes imediatos, linhagem bendita, origem do povo judeu.

Concluindo, o Apóstolo recorda e faz notar que o privilégio mencionado em último lugar é o mais precioso de todos: de Israel, segundo a carne, deveria nascer o Cristo, em sua natureza humana, ele, ao mesmo tempo, Filho eterno de Deus.

Que era, então, no tempo de Jesus, este povo privilegiado? Em que condições políticas, religiosas e sociais se encontrava? Sobre estes três pontos os evangelistas nos fornecem notas e notícias muito seguras, confirmadas pelos documentos profano da época.

1. As condições políticas da Palestina no tempo de Cristo

No momento em que se abre a história evangélica, a Palestina havia decaído já muito de sua antiga grandeza. Apesar disto, conservou-se, por alguns anos, um reino aparentemente em florescimento, sob o governo de Herodes, o Grande, funesto personagem, filho de um aventureiro de má fama, que, por ambição, se fizera judeu, ganhando dos romanos a dignidade de rei (40 A. C.), à custa dos últimos descendentes dos Macabeus.

Ambicioso como seu pai, desconfiado, cruel, estabeleceu sua posição com o assassinato de todos os que lhe podiam fazer sombra: sua esposa, Mariamma, seu cunhado, três filhos seus, milhares de outras pessoas e, além disto, segundo São Mateus, com as crianças inocentes, as pequenas vítimas de Belém. Com toda sua aparente independência, era, na realidade, um súdito de Roma.

Admirador da cultura grega, ainda quando ela estava em oposição direta com as idéias e costumes judaicos, trabalhou durante o seu reinado para introduzi-la na Palestina. Assim, não contente de espalhar por toda parte os palácios e edifícios suntuosos, teve a ousadia de construir na própria Jerusalém um teatro e uma arena de esportes (n.t.: onde os homens e rapazes se apresentavam nus, dissimulando mesmo os efeitos da circuncisão), e em outras cidades templos em honra do Imperador Augusto. Morreu detestado quase por todos, que não lhe perdoavam sua qualidade de intruso no trono, seu espírito pagão e os sangue abundante que derramou, sem mais motivo que suas suspeitas.

Com sua morte, a influência romana, tão ativa e pesada na Palestina há meio século, se acentuou ainda mais. Suas terras foram divididas por Augusto em principados, cujos governos distribuiu entre três filhos de Herodes: Arquelau recebeu a Judéia e a Samaria; Herodes Antipas, a Galiléia e a Peréia; Herodes Filipe, as regiões ao nordeste do Jordão: Betânia, Traconites e Auranites (Lc 3,1). Arquelau teve o título de enarca e os outros dois, Antipas e Filipe de tetrarcas.

Arquelau reinou cerca de dez anos. Como renovava, em parte a crueldade do seu pai, seus irmãos e súditos o acusaram diante do imperador, que o destituiu e o exilou para Viena das Gálias, onde morreu. A Judéia e a Samaria foram anexas ao império romano, governadas por um procurador, ou governador, sediado em Cesaréia, nas margens do Mediterrâneo, comandando uma tropa de ocupação considerável. Em Jerusalém foi sediado um destacamento militar sob o comando de um tribuno, aquartelado na Torre Antônia, no ângulo nordeste do Templo.

Nas principais festas religiosas, que atraíam à capital judaica um imenso concurso de povo, o procurador costumava vir também à cidade, vigiando mais de perto aquele espírito público, com facilidade efervescente. Pois só vista dos soldados pagãos junto ao mesmo recinto do Templo, uma insolência sem limites, tornava sombrios e sublevados os ânimos. O primeiro procurador foi Copônio (6-10 D.C.). Pôncio Pilatos, de funesta e triste memória, exerceu suas funções entre os anos de 26 e 37 D.C. (n. t.: morreu exilado em Lião, nas Gálias).

Herodes Antipas (4-38 D.C.) herdou do pai sua afeição ao excessivo luxo. Como ele, embelezou cidades e construiu palácios. Seu temperamento era, em geral, benévolo. Mas tornou infame sua memória para sempre com sua criminosa malícia no martírio de São João Batista e com seu indigno e ignóbil proceder com Jesus Cristo naquela manhã da Sexta-feira Santa. Também teve os eu castigo, pois Calígula o desterrou para Lião, onde passou o resto de seus dias.

Em geral, estas eram as condições políticas da Palestina no tempo do Salvador. A conquista romana havia posto em contacto duas nacionalidades, cujo espírito, costumes e religião eram irremediavelmente opostos. Mas, sobretudo, os judeus, que se consideravam o povo eleito e a nação mais livre da terra, a sujeição a Roma parecia ser uma verdadeira ignomínia, à qual não se podiam resignar a não ser por força. Roma havia conquistado a terra, mas não conseguira quebrantar o espírito da nação nem desvanecer sua esperança, ainda que insensata. Daí provinham, de quando em quando motins e rebeliões, que os romanos logo afogavam com sangue.

Não teríamos dado a conhecer suficientemente a organização política do povo judeu nos tempos de Jesus se não mencionássemos o Sinédrio (do grego “synedrion”, lugar onde se assentam, “assembléia”), espécie de Senado ou alta câmara nacional, que gozava de grande autoridade nos negócios internos do país. Suas reuniões se realizavam em Jerusalém. Sua instituição parece remontar ao fim do cativeiro da Babilônia, quando os judeus, ao voltar da Caldéia e da Palestina, viram a necessidade de ter uma tal assembléia para resolver os assuntos referentes à reconstrução. Constava de 71 membros, pertencentes a diferentes categorias ou classes: “os príncipes dos sacerdotes”, isto é, os antigos sumos sacerdotes e chefes dos grandes clãs sacerdotais; “os escribas” (n.t.: peritos na Lei de Moisés, em particular, e nas Escrituras, em geral) e os “anciãos” (os notáveis), escolhidos entre os mais influentes da cidade. O sumo sacerdote, em função, detinha a presidência. A jurisdição do Sinédrio era muito ampla e lhe cabiam as causas civis e religiosas de importância, como a acusação de idolatria contra um povoação ou tribo, as falsas profecias, declaração de guerra, ampliações do Templo, etc.

Se bem que os romanos lhe retiraram o “jus gladii”, direito de condenar à morte (Jo 18,31), lhe deixaram uma ampla autonomia como Conselho supremo da justiça, em especial para resolver questões estritamente religiosas, entre outras as referentes à interpretação dos pontos mais importantes da lei de Moisés. Para os processos ordinários havia, pelo país, tribunais de nível inferior.