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Novidade Loyola: “Deus, não sem nós”

Manuel Hurtado, “Deus não sem nós – a humanidade de Deus para pensar Deus e os pobres da terra – reflexões em Eberhard Jüngel”, Loyola / SP 2013, Coleção “Theologica”, 23×16, 126 pp.

O Autor, doutorado pelas Faculdades Jesuítas de Paris, mas conhecidas como “Centre Sèvres”, leciona na Faculdade de Filosofia e Teologia (FAJE – BH / MG) e na Universidade Católica Boliviana (Cochabamba / Bol). Seu título bem que poderia ser: “Deus conosco”, pois este é o foco: o Verbo Eterno assume nossa humanidade, mas, como lemos no hino cristológico do capítulo 2 de Filipenses, assumiu não só a condição humana, mas a condição de escravo (ver Fl 2,7). A “novidade” maior talvez seja que, desde antes dos agradecimentos e dedicatórias, o Autor declare sua adesão à vertente realista – se assim podemos dizer – da leitura da tradição evangélica e dos padres e grandes teólogos: Jesus sabia que iria morrer: “O inocente de Nazaré o sabia bem, montado em seu jumentinho, às portas de Jerusalém, sagrado rei pela multidão, algumas horas antes de por ela ser levado a morte: a verdade nunca é tão grande como na humilhação de quem a anuncia”. No capítulo 1, ele discute a “Aticulação do pensamento jüngeliano em ‘Deus Mistério do mundo'”. No “Balanço” (pp. 46-48), sublinha uma conclusão importantíssima de Jüngel: “Com Karl Barth Jüngel nos recorda que não podemos ignorar o fato de que Deus falou. Seria, portanto, insensato pensar e dizer Deus, se não considerássemos o próprio discurso de Deus”. Contudo, “será que Jüngel não confunde as possibilidades de uma ‘teologia discursiva’ (…) com as possibilidades de uma ‘teologia do balbucio?”. Com este “Balanço”, o leitor já se encontra motivado para o capítulo 2: A humanidade de Deus em E. Jüngel e em K. Barth”. Embora o Autor não pareça frisar, de fato entramos no melhor clima do diálogo ecumênico, pois o trato das teses dos dois teólogos de cepa calvinista, é como de um inventariante coletando toda uma série de tesouros de uma rica herança. Isto não significa em absoluto que o Autor se tenha feito discípulo de Jüngel. Assim (p. 80), lemos: “Cremos que, no domínio propriamente ‘teológico’ as afirmações jungelianas são problemáticas”. E, adiante (p. 82): “No que concerne à justiça de Deus, isto é, à justificação, na teologia do nosso autor, há dificuldade para ver o vínculo entre o amor de Deus – isto é, sua ação justificante – e a ação da justiça para o outro”. Distinções críticas estas que nos levam a entrar no capítulo 3: “A qualificação da humanidade de Deus. Esboço do ser de Deus enquanto afetado pelos pobres”; onde o Autor se mostra em sua face latino-americana, tocada pelos ventos e brisas das outrora dominantes “teologias da libertação”. Há uma esplêndida proposta de explicação do “segredo messiânico” nesta parte (ver p. 90), seguido de um parágrafo que vale a pena ler e reler: “A kénosis como qualificação da Encarnação”. No “Balanço” deste último capítulo, talvez encontremos a originalidade e a força da reflexão do Autor, quadse um enunciado de sua conclusão: “Queremos mostrar que não se pode ‘contemplar’ a pobreza da existência de Jesus sem ‘contemplar’ a pobreza da existência dos pobres da terra”. Todos os interessados em teologia e ciências de religião são candidatos, digamos, naturais a ler, com atenta reflexão, esta obra, que resgata o melhor da teologia sistemática em confronto com o legado da melhor teologia da libertação.