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O Amor-amor revelado no sofrimento do justo e do inocente

Mãe que chora pelo filho desgarrado

O Amor de Deus se revela também na Cruz e também no sofrimento do Justo e do Inocente *

Sempre achamos que Deus poderia ter criado Adão e Eva sem possibilidade de pecar… Neste caso Ele os teria feito coisas ou animais desprovidos de capacidade de julgar e decidir. Mas Ele nos fez capazes de “crescer em idade, sabedoria e graça” diante dele e dos nossos semelhantes (ver Lc 2,52). Podemos ir assumindo a responsabilidade por nossas ações. Um dia, chegamos a poder rezar “Pai nosso”. Outro dia mais, e poderemos também dizer: “Pai nosso, como é belo nosso Céu!”. Jesus tem um Coração cheio de generosidade! Ele partilhou conosco seu Pai, seu Espírito, sua Mãe, seu Corpo e Sangue, seu poder de Perdoar, seu Céu!

Sim, podemos pecar, e como pecamos! Buscamos nosso próprio querer e interesse, mesmo atropelando os mandamentos e inspirações de Deus, nosso Amparo e Socorro no dia da tribulação! Chegamos ao cúmulo de crucificar o Justo, o Inocente! Foi então que seu Amor mais resplandeceu aos olhos do mundo incrédulo! Ele disse, no alto do Calvário, no máximo de sofrimento: “Pai, perdoa! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34).

Nossa justiça, muito limitada, até torce pela punição do pecador, e se revolta porque Deus não age: como é possível que Ele exista e seja bom, se o justo e o inocente padecem? Até censuramos o Pai porque “deixou seu Filho ser atormentado e morrer da horrenda morte de cruz”! Esta é a nossa pobre “sabedoria”.

Mas, deixem-me contar um fato de minha vida. Era tempo da reunião dos Bispos em Itaici, antes de eles mudarem o encontro anual da CNBB para Aparecida. Saindo do meu quarto, de manhãzinha, encontrei um livro, na porta, com dedicatória:

“A meu querido irmão, P. Raul Paiva, em comunhão de entrega a Jesus Cristo”.

Era o dia 24 de abril de 1996. Assinava o Autor do livro: Dom Luciano Mendes de Almeida, jesuíta como eu. O livro que menciono chama-se “Jesus, Luz da Vida Consagrada” (Edições Loyola / SP, 1996).

“E eu com isto? Quero saber do Amor de Deus, e não de estórias!”. Calma, já chegamos lá!

Na hora do almoço, demorei fazendo algumas coisas, e Dom Luciano chegou atrasado ao refeitório da comunidade jesuíta, pois tinham retirado as coisas do refeitório dos Bispos. Fui buscar os pratos da cozinha e o servi. Sentei-me a seu lado, fazendo companhia, e aproveitei para agradecer o presente. Tinha “devorado” o segundo capítulo: “O Sofrimento do Justo neste mundo”. Disse ao bom Bispo o bem que esta leitura me fizera. Ele segurou meu braço, e disse: “Meu irmão, eu levei vinte anos para escrever este capítulo”.

A maneira com que Dom Luciano toca o coração dos leitores e o ponto doloroso da questão está na história de uma sua experiência, quando era Bispo auxiliar de Dom Paulo Evaristo Arns, na Zona Leste de São Paulo, capital. Ele conta:

“Imaginemos um rapaz drogado, cujo organismo, alterado pelos tóxicos, requer um tratamento especial. O rapaz é de condição humilde e tem de ir a um hospital de subúrbio (de periferia). Com ele também vai a mãe do rapaz”.

Ela veio do interior, criou sozinha o filho, morando em casinha humilde de favela, trabalhando duro como diarista. Tentou passar a seu filho único de mãe viúva, os valores de sua fé cristã, o seguimento de Jesus, a prática da oração e dos sacramentos, a observância dos mandamentos. Mas era analfabeta. Seu filho, “estudado”, gostava da mãezinha, mas desprezava sua sabedoria, preferindo a “esperteza” dos “amigos” de bar e de copo.

Agora estava derrubado, intoxicado. Sua mãe, deixara sua casa, humilde, mas limpinha, e tinha conseguido o favor de ficar mais tempo com o filho na enfermaria graças à ajuda que dava ao pessoal da faxina e da enfermagem, sempre sobrecarregados.

Resumindo e deixando de lado muita inteligência da descrição de Dom Luciano: o rapaz estava sofrendo por causa de suas decisões erradas. A mãe não! Tinha tomado as iniciativas corretas, mas não fora ouvida. Ou melhor: sua voz foi desprezada e outras vozes foram ouvidas. Ela sofria, como inocente.

Por isso sofrem os justos, como São José, e os inocentes, como Maria Santíssima, e Jesus, o Justo e o Inocente! Se Deus tirasse deste mundo todos os justos e inocentes, a mãezinha do nosso rapaz teria sido tirada também. E o rapaz não teria seu sorriso, suas lágrimas, seus cuidados naqueles dias do hospital. Ele não teria tido a chance de ver, com seus próprios olhos, a verdade do amor! A solidariedade da mãe na hora amarga foi pura revelação do amor na verdade e da verdade no amor (ver Ef 4,15). O Filho de Deus, se o Amor do Pai não fosse carinho, solidariedade e misericórdia, nem sequer teria vindo ao mundo para nossa alegria!

Imaginemos que um turista se perde do seu grupo numa grande cidade chinesa. Acaba num lugar perigoso, é assaltado, maltratado, perde documentos e dinheiro. Não sabe a língua e nem pode ler os letreiros, em caracteres chineses… Meio apavorado, machucado e sujo, vai andando sem rumo. Mas, dobrando uma esquina, vê o guia do grupo que o vem buscar! Ele ainda está sem passaporte, cartões de crédito, dinheiro. Ainda está machucado e sujo. Mas a tristeza e agonia passaram! A grande cidade estranha se iluminou com este encontro! Assim é conosco. Escreve Dom Luciano:

“Nesse universo, há homens e mulheres, nossos irmãos, em cujo coração habita o pecado. Neles há ciúme, inveja, desmando moral, injustiça, vontade de opressão. Há homens que não têm piedade. Não praticam a justiça. Vivem aí, no meio dos outros. Estão nas escolas, estão nas ruas, estão nas filas, estão no trabalho, estão nos lugares de diversão e eles levam, no coração, o pecado. Roubam, são violentos, oprimem os irmãos. Por causa disto, a história da humanidade está marcada de maldade e pecado. O mundo fica insuportável. É um “mundo cão”. Você não está defendido, você pode ser sequestrado, pode ser roubado, pode ser maltratado, pode ser injustiçado (…). Não é tanto o problema da fome, da miséria, do analfabetismo, mas é o problema do próprio coração humano, onde há desilusão da vida, infidelidade conjugal, inveja, ódio”.

Então?

“Ora, acontece que, dentro desse mundo, entra Jesus Cristo (…) Assim como aquela mãe entrou no quarto do hospital, porque quis, renunciou as condições de vida que possuía, assim o Cristo se encarnou e, na descrição da Carta aos Hebreus (Hb 2,17; 4,15), ‘em tudo se assemelhou ao homem’, menos, é claro, ‘no pecado’”.

Se Deus tirasse todos os justos e inocentes deste mundo de repente, de repente os maus ficariam sós, e o mundo seria o próprio inferno. Deus não quer o inferno! Ele quer todos nós na mesma Casa do Pai, na mesma festa feliz. Como cantou a Irmã Cecília Vaz:

“EU VIM PR’A CELEBRAR A VIDA * *
Ir. Cecília Vaz Castilho

1. Eu vim pr’a celebrar a vida / a vida e cantar/ bem junto de Ti./ O que eu estou vivendo/ é Deus acontecendo,/ é gesto de amor./ O tempo faz crescer/ e tudo o que eu viver/ é só esperar./ Eu vim pr’a caminhar/ bem junto de Ti.

2. Eu vim para alegrar,/ é tempo de ficar/ bem junto de Ti./ E todos aproveitam,/ de amor se enfeitam/ pr’a ser feliz./ Eu vou cantar somente/ amor pr’a toda gente/ se encontrar./ Com todos vou ficar/ bem junto de Ti.

3. Eu vim pr’a descobrir/ o céu e repartir/ bem junto de Ti./ Do povo eu faço parte/ e venho aqui buscar-te/ pr’a construir./ O amor já nos chamou/ e a gente se lançou/ em busca da paz./ Eu vim aqui/ pois ele está/ bem junto a Ti.

4. Eu vim para abraçar/ a todos que encontrar/ bem junto de Ti./ O céu já começou/ e com sorriso vou/ lutar pr’a viver./ É Deus a minha festa,/ e quero todos/ nesta dança feliz./ Eu quero sempre/ todos junto de Ti”.

* R. Paiva, SJ, “31 DIAS no Amor de Deus”, Loyola / SP

** Pe. R. Paiva SJ & Teresa Cristina Potrick, ISJ (Orgs), Cantar e Celebrar, Loyola / SP 2007, p. 19