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O Amor compassivo e fiel

"Jesus, manso e humilde de Coração, fazei nosso corações semelhantes ao Vosso!"

“31 Dias no Amor de Deus” – continuação

8º DIA

O Amor compadecido e fiel no deserto

Nossas escolhas nos levam, às vezes, a ações criminosas, abomináveis. Na sua fidelidade, Deus Amor-amor nos envia Profetas, cuja voz poderosa falava às pessoas de seus dias e chega a nossos ouvidos com força bastante para tingir corações e mentes. Podemos ser melhores, podemos fazer diferente. Se sabemos reconhecer que existe erro, engano, maldade, é porque reconhecemos que existe acerto, correção, bondade. Assim falou o Senhor Deus pelo Profeta Ezequiel, chamando-nos à responsabilidade para deixarmos de fazer o mal e nos empenharmos em fazer o bem:

“Foi-me dirigida a Palavra do Senhor nos seguintes termos: ‘Homem, mostra a Jerusalém suas ações abomináveis. Dize-lhe: assim fala o Senhor Deus! Segundo tua origem, procedes de Canaã. Teu pai era um amorrita e tua mãe hitita. Eis a história do teu nascimento: no dia em que nasceste não foi cortado o teu cordão umbilical. Não fostes lavada com água, nem esfregada com sal, nem envolvida em faixas. Sobre ti não pousou nenhum olhar compassivo. Não houve ninguém que te prestasse qualquer daqueles serviços e tivesse piedade de ti. Foste jogada em campo aberto, pois tua vida era considerada desprezível, no dia do teu nascimento. Foi então que passei junto de ti e te vi debatendo-te no teu sangue. Falei-te, enquanto te debatias em teu sangue: ‘Quero que vivas! Cresce como a erva do campo!’ E cresceste, e te desenvolveste e chegaste à puberdade” (Ez 16,1-7).

Há tanta gente que nasce como que por acaso: “Em qualquer de repente”, como adverte a “Oração da Família” do Pe. Zezinho. Há muita vida jogada fora, até arrancada do seio materno pelo crime do aborto. São vidas que não recebem nenhuma atenção: desprezadas no dia do nascimento, não encontram corações humanos, olhares piedosos.

E o que é piedade? O coração piedoso pode até ter dó de alguém, de uma situação triste. Mas, na verdade profunda, é um coração capaz de amor com respeito e reverência. Assim são muitos dos corações de nossos pais, amigos, companheiros de jornada: são capazes de olhar com profundo carinho e respeito as vítimas das misérias deste mundo, os sofrimentos, as devastações, e com o mesmo carinho e atenção para a beleza e bondade das coisas, a ação paciente e sábia de Deus…

O contrário da piedade é a impiedade, sinônimo de desumanidade, crueldade, indiferentismo para qualquer coisa que não seja o sentimento e pensamento de puro egoísmo. O coração ímpio, impiedoso, não sabe o que é amor, se ilude com seus jogos de poder e malícia, mas está preso no inferno do seu próprio e exclusivo egoísmo.

Deus é o Piedoso, o Clemente, o Fiel! Tudo vê e tudo provê! Vê nossas impiedades e nos socorre. Cientistas, políticos e marqueteiros loucos, sem piedade, tentam “reprogramar” os dissidentes políticos, os tidos como criminosos, os que são diferentes, os que perturbam. Deus Criador, não nos “reprograma”, mas nos fala: “Diz a Jerusalém…”. Através desta emocionante profecia de Ezequiel, reconhecemos Deus que tem “vísceras de misericórdia”, que nos ama com amor “uterino”: um Pai com amor de Mãe! Uma Mãe, com amor de Pai! – (ver Lc 1,78). Por isso Ele se revela como um beduíno que passa pela trilha, vê a recém nascida abandonada, a recolhe e cuida dela, dizendo: “Quero que vivas!”.

Muito mais tarde, o Apóstolo Paulo escreve em perfeita harmonia com o Profeta Ezequiel:

“Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do céu nos cumulou com toda espécie de bênçãos espirituais em Cristo! Pois nos escolheu nele – antes da criação do mundo – para sermos santos e imaculados no amor, diante dele. Também nos predestinou – num ato de amor – para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo. Este foi o plano deliberado de sua benevolência, para louvor da glória de sua graça. Por ela nos encheu de bênçãos no Bem Amado (Jesus). Nós temos nele, por seu sangue, a redenção e a remissão dos pecados, por causa das riquezas de sua graça, que Ele derramou abundantemente sobre nós, com toda sabedoria e inteligência” (Ef 1,1-8).

Uma pessoa “reprogramada cientificamente”, por meio, por exemplo, de sistemas eletrônicos no cérebro, seria um robô, não um ser humano. Domar, escravizar um ser humano é diminuí-lo e, até, destruí-lo. Aqui não há nem sabedoria, nem inteligência! A liberdade dá trabalho? Se dá! Tem de ser educada, cuidada, incentivada… Mas só este dom nos faz parecidos com Deus, Pura Liberdade para todo o bem verdadeiro, toda verdade bondosa! Uma canção popular (“Disparada”, Geraldo Vandré), contudo, toca na verdade: “Porque gado a gente marca, / Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente! / Se você não concordar não posso me desculpar, / Não canto prá enganar, vou pegar minha viola, / Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar”.

Tem quem acredite que Deus – se é que Ele existe – é mau, porque não impede o mal, porque não nos fez abelhas ou formigas ou cupins, bem programados para suas funções. Não acreditam que vale a pena ser livre. Nem sonham com um mundo sem campos de concentração, prisões, tortura, pena de morte, guerra. Mas nosso Deus, compadecido, não pegou aquela criança enjeitada para fazê-la escrava. Pelo contrário, quando chegou a época, quando a criança desabrochou numa bela jovem, deu-lhe a dignidade de Esposa querida:

“Fiz-te um juramento e concluí contigo uma aliança, e, assim, tu te tornaste minha (…). Eu te vesti com trajes de belas cores, dei-te calçados de couro finíssimo, cingi-te de linho e te cobri de tecidos preciosos. Ornei-te com jóias: coloquei braceletes em teus punhos e um colar em teu pescoço (…). Teu alimento era trigo puro, mel e azeite” (Ex 16,8-13).

A esposa é livre, não é escrava. O amor de esposa lhe dá o gozo dos bens da família em liberdade. Mas o orgulho da beleza, das próprias qualidades, da educação e habilidade de agradar, qualquer tipo de orgulho é amor de perdição, que torna a livre uma escrava:

“Mas tu te fiaste em tua beleza e te prostituíste por conta de tua fama” (Ez 16,14-20).

O orgulho esquece que todo dom perfeito vem do Altíssimo (ver Tg 1,17). E o orgulho, o amor centrado no próprio “eu” são a fonte de toda miséria:

“Olha, a culpa de tua irmã, Sodoma, foi esta: arrogância, orgia, tranquila despreocupação – eis as faltas dela e de suas filhas. E não socorriam os pobres e os desvalidos” (Ez 16,49).

Tempo de aprender a rezar: “Jesus, manso e humilde de Coração, fazei nossos corações semelhantes ao Vosso”.