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Janeiro 26, 2017

O Amor imenso

“31 Dias no Amor de Deus”

10º DIA

O Salmo do imenso Amor (Sl 21/22)

Crucificado, Jesus recorreu a um Salmo do seu amado Povo para abrir o Coração ao Pai: “Senhor, Senhor, por que me abandonaste?” (Sl 21/22,1). Esta oração saiu das entranhas de uma pessoa que sofria, sentindo-se péssima, num beco sem saída, torturado e perseguido por seus inimigos. Contra eles esta pessoa atormentada não diz uma só palavra. Todo o seu desabafo e sua súplica se dirigem a Deus, que, embora sinta longe, é o único em quem pode confiar no meio de tanta angústia:

“Em Ti meus pais tiveram confiança,
Confiaram e Tu os libertastes.
A Ti clamaram e foram salvos,
Puseram confiança em Ti
E não se envergonharam.

Eu, porém, sou um verme, e não um homem,
Opróbrio dos humanos e abjeção do povo.
Zombam de mim todos os que me avistam,
Escarnecem com os lábios, meneiam a cabeça:
‘Confiou em Deus, que Ele o liberte,
Que Ele o salve, se é que o ama!’ ”.
(Sl 21/22,5-9)

Na hora do sofrimento e no tempo da angústia, há quem afirme: “Deus não existe!”. Outros caluniam o sofredor – que já se sente abandonado também por Deus – e põem também em dúvida o Amor: “Que Ele o salve, se é que o ama!”.

Mas uma força – reconhecemos nela o Espírito Santo – continua levando este sofredor que reza a continuar sua lamentação, seu desabafo, seu apelo ao Único que pode salvar o miserável de sua desgraça, que também é física:

“Numerosos, os touros me cercam,
Brutamontes de Basan me rodeiam.
Contra mim escancaram suas goelas:
Eles são leões que dilaceram e rugem.

Como água sou derramado,
Os meus ossos todos se desconjuntam.
Meu coração é como a cera:
Derrete no meio de minhas entranhas.

Minha boca é ressequida como argila no forno,
Ao meu paladar minha língua se cola,
À poeira da morte me manda de volta!
Sim, já me rodeiam cães numerosos,
Estou sendo cercado de malfeitores:
Minhas mãos e meus pés eles transpassaram
E eu posso contar todos os meus ossos.

Eles me olham e me observam:
Repartem entre si as minhas vestes
E tiram a sorte sobre a minha túnica. Mas Tu, meu Deus, não fiques longe!
Ó minha força, apressa-te em meu socorro!”
(Sl 21/22,13-21)

Jesus, crucificado, estava rodado de zombadores e de inimigos. Era observado. Suas roupas foram divididas, e seu manto sorteado. Sem dúvida, o suplício de estar pendurado pelos punhos no travessão da cruz, o fazia sentir os ossos desconjuntados. A perda de sangue – já começada na Agonia do Horto – prolongada pelas longas horas sem que lhe dessem um pouco de água, mas apenas empurrões, caminhadas noturnas, chicotadas, a hemorragia terrível do couro cabeludo espetado pelos espinhos da coroa, a perda constante do sangue das feridas reabertas pela ficção nos cravos e na aspereza da madeira da cruz, toda esta perda de sangue, dava-lhe terrível sede, boca ressecada, língua pastosa, grudando no paladar. Já os primeiros cristãos –que eram israelitas – reconheceram, nesse Salmo 21/22, uma profecia impressionante do martírio de Jesus.

Em Jesus, crucificado, agia o Espírito do Pai. Por isso, Ele sofre, mas não se desespera. Sente-se abandonado, mas, como o Salmista sofredor de seu Povo, como os fiéis de seu Povo em horas terríveis, ele insiste na oração. Assim é o Amor, fiel nas horas de glória e exultação e de dor e agonia. Fiel sempre!

Este Amor, que desce às nossas profundezas e se compadece da nossa miséria, atua também na hora atormentada dos piores suplícios e desgraças. Por isso a oração lamentosa, aflita, é interrompida por um grito de confiante esperança:

“Mas Tu, Senhor, não fiques tão longe!
Ó minha força, apressa-te em meu socorro! (…)
A meus irmãos anunciarei o teu Nome,
E eu te louvarei no meio da assembléia!

Vós que temeis o Senhor, vinde, louvai-o!
Raça toda de Jacó, glorificai-o!
Reverenciai-o, ó vós, de Israel toda a raça!”
(Sl 21/22,20-24)

O coração do sofredor se reanima, sua mente clareia, a prece de lamentação se torna uma prece de louvor, a ausência dolorosa é substituída por uma presença, que conforta na tremenda tribulação. No entanto esta mudança é interior. Nada indica que houve uma mudança nas condições exteriores tão terríveis. Tudo revela a ação do Espírito Consolador, o dom da fortaleza. E isto é interpretado pela promessa de Cristo:

“No mundo tereis aflições. Vós tereis de sofrer no mundo. Mas tende coragem: Eu venci o mundo!” (Jo 16,33).

O louvor pessoal se amplia e passa a ser um louvor universal:

“Os pobres comerão e ficarão saciados!
Louvarão o Senhor os que o procuram!
Seus corações encham-se de vida!
Todas as terras, as mais distantes,
Se lembrarão do Senhor e voltarão a Ele,
E, diante dele, há de prostrar-se
A grande família dos povos!”
(Sl 21/22,27-28)

Então o Amor de Deus, mesmo nas horas mais terríveis, é capaz de atender a prece dos sofredores e “encher de vida” seus corações:

“Bendito seja o Senhor, meu Rochedo,
Que no combate as minhas mãos fortalece
E adestra meus dedos para a batalha!”
(Sl 143/144,1).

O Apóstolo Paulo, nas vésperas de seu martírio, pôde dizer, cheio de confiança neste Amor que age em nós e nos ampara com o dom da fortaleza nas situações mais cruéis:

“Combati o bom combate, cheguei ao fim de minha carreira, guardei a fé. Desde agora está reservada a coroa de justiça para mim. Vou recebê-la do Senhor, Justo Juiz, naquele dia. Mas não serei eu o único a recebê-la. Serão todos os que tiverem esperado com amor a volta do Senhor (Jesus)” (2Tm 4,7-8).

A fortaleza nas horas difíceis e até nas horas finais da vida é dom do Espírito, um dos “sete” dons da profecia:

“Sairá um rebento do tronco de Jessé, um broto despontará de suas raízes! Sobre ele repousará o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus…” (Is 11,1-2).

Jesus é o “rebento do tronco de Jessé”. Inspirados, podemos cantar com corações cheios de bela esperança:

DA CEPA BROTOU A RAMA *
Reginaldo Veloso

DA CEPA BROTOU A RAMA,/ da rama brotou a flor,/ da flor nasceu Maria,/ de Maria o Salvador.

1. O Espírito de Deus/ sobre ele pousará,/ de saber e entendimento/ este Espírito será./ De conselho e fortaleza,/de Ciência e de temor,/ achará a alegria/ no temor do seu Senhor.

2. Não será pela ilusão/ do olhar, do ouvir dizer,/que ele irá julgar os homens,/ como é praxe acontecer./ Mas os pobres desta terra/ com justiça julgará/ e dos fracos o direito/ Ele é quem defenderá.

3. A palavra de sua boca/ ferirá o violento/ e o sopro de seus lábios/ matará o avarento./ A justiça é o cinto/ que circunda a sua cintura/ e o manto da lealdade/ é a sua vestidura.

4. Neste dia, neste dia/ o incrível, verdadeiro,/ coisa que nunca se viu,/ morar lobo com cordeiro./ A comer do mesmo pasto/ tigre, boi, burro e leão,/ por um menino guiados / se confraternizarão.

5. Um menino, uma criança/ com as feras a brincar/ e nenhum mal, nenhum dano/ mais na terra se fará./ Da ciência do Senhor/ cheio o mundo estará,/ como o sol inunda a terra/ e as águas enchem o mar.

6. Neste dia, neste dia/ o Senhor estenderá/ sua mão libertadora,/ pr’a seu povo resgatar. Estandarte para os povos/ o Senhor levantará./ À seu povo, sua Igreja,/ toda a terra acorrerá.

7. A inveja, a opressão/ entre irmãos se acabará/ e a comunhão de todos/ o inimigo vencerá./ Poderosa mão de Deus/ fez no Egito o mar secar./ Para o resto de seu povo/ um caminho se abrirá.

* Pe. R. Paiva, SJ & Teresa Cristina Potrick (Orgs.), Cantar e Celebrar, Loyola / SP 2007, p. 17.

Vence, Jesus! Vence nosso medo, nossa frieza, nossa desconfiança! Valha-nos teu Espírito de Bondade e Fortaleza! Amém!