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O Messias é o “Filho do Homem”, Jesus (Léonce de Grandmaison)

O Messias Crucificado -O Filho do Homem - Giotto

2 O MESSIAS, “O FILHO DO HOMEM”

 

Até quando nos manterás em suspenso? Se tu és o Messias, fala abertamente! (Jo 10,12)

 

Jesus teve, para proceder assim, pelo menos duas razões, que dependem entre si …. Lembremos da situação da Terra Santa naquela época. Uma situação tempestuosa, de divisão, onde a palavra de ordem de uns era: Antes de tudo, nada com Roma. Esperavam um messias rei guerreiro, que haveria de expulsar todos os pagãos da Terra Santa. Uma reivindicação messiânica ostentosa suscitaria temores e excitaria expectativas. Donde viriam turbulências e repressões …. Jesus não teve de se livrar, mais de uma vez, do entusiasmo indiscreto do povo? Não houve a tentativa de fazê-lo rei à força? (Jo 6,15; ver Mc 7,24; 9,30; Lc 13,31ss; Jo 7,6; 10,23-24, etc.).

 

Jesus não podia nem queria assumir, em sua pessoa, a idéia de messias tão falseada e deformada, que já impedia que se reconhecesse nele as visões proféticas. A presença de traços autênticos em tal idéia de algum modo a fazia mais nociva, pois iluminada por este foco de verdade, a nuvem do messianismo apocalíptico e guerreiro se fazia mais espessa e criava fantasmas de grandeza épica.

 

O messias! Será, seguramente, um profeta! Mas não qualquer profeta! Será o Profeta (Jo 1,21,25; 6,14;8,40)! Só que, ao mesmo tempo, será o rei, filho de Davi, lugar-tenente de Javé na luta final contra as nações. Novo Macabeu, novo Hircano, o herói que libertará Jerusalém e a fará Cidade Santa, capital do mundo regenerado, maravilhosamente fecundo, onde os judeus fiéis serão servidos pelos arrogantes pagãos, postos de joelhos. Figura popular, cuja imagem, cada ano reavivada pela festa bastante profana dos Purim, fazia vibrar de comoção o orgulho da raça, o espírito do lucro, o instinto da justiça e o ressentimento contra o domínio estrangeiro, em mistura com tudo o que um israelita tinha como o mais sagrado: a Lei, a Cidade de Davi, o Templo.

 

O messias!  Outros entusiastas, cujas descrições encontravam, igualmente, sua clientela de crédulos, o representavam como um ser misterioso, transcendente, sobre humano. Apareceria de modo súbito, vindo de onde não se sabia, saindo do mar ou cavalgando as nuvens, anunciado por inenarráveis sinais, vigário de Javé no Grande Julgamento, que haveria de inaugurar em meio a portentos. Ele cumpriria toda a justiça. Israel seria privado de toda as suas escórias, privilegiado, enriquecido. Os pagãos seriam subjugados, convertidos, aniquilados ou entregues – para a satisfação dos justos, a infindos suplícios. Ainda era uma figura nobre este messias em algum dos seus traços, mas indeterminada, fantástica, marcada profundamente pela imaginação criadora de mitos …

 

Assim sendo, Jesus, guardando fielmente a concepção do Reino, que descreveria nas parábolas do fermento e do grão de mostarda, Jesus adota a exposição de sua mensagem pessoal com severa discrição. Na linha dos antigos profetas e de João, começa por inspirar às pessoas de coração honesto, já tocados pela pregação do Batista, esta inquietação, esta perturbação fecunda, esta contrição, esta fome e sede de justiça, que, conforme as Escrituras, devia ser a aurora do Reino de Deus.

 

Ele substitui pinturas sugestivas de prosperidade material, de desforras e de glórias exteriores por humildes perspectivas, mais próximas, mais personalizadas. Era a preparação indispensável para entender, saborear e aceitar o Evangelho.

 

Contudo, o Mestre, desde o começo de sua pregação, realiza as obras de bondade, de libertação e de poder  preditas pelos grandes videntes do passado. Perante tais obras e em conseqüência da pregação do Batista … as palavras de André e de Simão Pedro deviam subir expontâneas dos lábios dos que, com retidão e simplicidade, aguardavam a esperança de Israel: Encontramos o Messias (Jo 1, 41).

 

Os oráculos de Isaías chegavam, assim, à sua realização:

 

O Espírito do Senhor está sobre mim.

Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres,

enviou-me a proclamar a liberdade aos encarcerados,

restituir a vista aos cegos,

libertar os oprimidos

e pregar o ano de graça do Senhor! (Lc 4,18s; Is 61,1s).

Não havia chegado, então, este ano de graça, este jubileu do Senhor: os pobres evangelizados, os demônios expulsos, os espíritos postos em liberdade, tiradas as sobrecargas legalistas de origem meramente humana, que faziam pesado o jugo da Lei? Jesus não precisava mais do que deixar que os fatos falassem por si próprios.

 

Guiando o entendimento dos seus ouvintes para a verdade completa, evita promulgações messiânicas prematuras. Rechaça a homenagem mentirosa dos espíritos imundos e vai purificando a fé nascente dos apóstolos, durante muito tempo sujeito a súbitas labaredas e momentâneos eclipses …

 

Falta determinar o sentido da designação adotada por Jesus para si próprio: “Filho do Homem”. É o equivalente exato a “homem”, e seu emprega se deve, sem dúvida, às leis do “paralelismo” da língua hebraica: reiterar uma idéia por seu paralelo. Três vezes encontramos, nas Escrituras, a expressão com o mesmo sentido de “homem” (Jó 25,6; Sl 8,5; Is 51,12). No Livro de Ezequiel se usa com freqüência como vocativo, com um matiz de comiseração, pena, que assinala o contraste entre a majestade de Deus, que chama, a fragilidade do instrumento de que Ele se serve e a grandeza da missão a ser cumprida.

 

No Livro de Daniel, onde a expressão aparece novamente em vários lugares, ela tem um sentido mais vago. Designa um ser com aparência de homem, um homem, pelo menos, por seu aspecto externo. A segunda destas passagens introduz o Arcanjo Gabriel em forma humana, aparecendo e agindo como “um filho de homem”. Isto é, como um homem (Dn 10,16). Resta, então, o primeiro texto, que por sua importância, deve transcrever-se no seu contexto.

 

No primeiro ano do governo de Baltazar, rei da Babilônia, o profeta vê um sonho, a que alude, brevemente, por escrito. Diante dele está a imensidão. Dos quatro pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste), dos quatro ventos que agitam o oceano, se erguem quatro poderosos seres vivos, em figura, respectivamente, de um leão alado, de um urso, de uma pantera com quatro asas e de um ser espantoso, dotado de chifres e cambiante. Atrás se elevam tronos, e Deus, o Eterno, o Ancião dos Dias, rodeado de aparato imponente, toma assento. Os quatro seres vivos são julgados. O quarto é condenado e os outros três sobrevivem por um tempo, mas privados de poder. Mas, enquanto Daniel considerava estas visões noturnas,

 

Sobreveio, acima das nuvens do céu, como que um filho do homem que chegou até o Ancião dos Dias e a Ele foi apresentado. E Lhe foram dados o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviram. Pois o Seu poder é um poder eterno, que não passará, e seu reino não será destruído (Dn 7,13-14).

 

É então que um dos assistentes diante do trono explica ao profeta que os quatro monstros representam quatro impérios. Ao seu domínio sucederá a soberania do Altíssimo e de seus Santos:

 

O reino, o poder e o domínio sobre os reinos todos que estão sob o céu serão dados ao povo dos Santos do Altíssimo, cujo reinado é eterno (Dn 7,27) …

 

Se o apelativo de “filho do homem” era capaz de um sentido messiânico, por esse emprego na profecia de Daniel e parte da interpretação literária posterior, não o era, de modo algum, por sua fórmula. pois esta se aparentava estreitamente com o uso conhecido, dos profetas, sobretudo a partir de Ezequiel: “filho do homem”, isto é, homem nascido de mulher, homem cuja vida é um sopro que passa”. Por esta razão, a expressão era, em si mesma, uma espécie de enigma, um “machal”, semelhante a muitos outros da tradição hebraica. Punha problemas e não resolvia nenhum. Era um modo de estimular a atenção das pessoas e não para satisfazer sua curiosidade.

 

O título de “filho do homem” enlaçava, efetivamente, a missão e a pessoa de Jesus com as mais altas prerrogativas messiânicas: Senhor e Juiz universal.. Por outro lado, colocava em relevo as características de aparente fraqueza, de condescendente fraternidade, de paciência redentora, de humanidade, em fim, que deviam marcar realmente a carreira do Mestre.

 

Os padres antigos o compreenderam bem, vendo o título de “Filho do Homem” unir-se ao de “Servo do Javé”, do Evangelho doloroso, “o quinto Evangelho” do Livro de Isaías (*).

 

(*) Quem acreditou no nosso anúncio?

A quem o Senhor mostrou seu braço?

Ergueu-se em sua presença como um broto,

como raiz na terra seca:

sem beleza e sem aparência,

que atraíssem nossos olhares,

nem figura que nos cativasse.

 

Desprezado e evitado pela gente,

homem acostumado a sofrer, curtido na dor.

Vendo-o, cobriam o rosto.

Desprezado, nós o tivemos por um nada.

 

Ele suportou nossos sofrimentos

e carregou nossas dores.

Nos o tivemos como um contagiado,

ferido por Deus e afligido.

 

Pelo contrário, Ele foi trespassado

por causa de nossas rebeliões,

triturado por causa de nossos crimes.

 

Sobre Ele desabou o castigo que nos cura,

 e com suas chagas fomos curados.

Andávamos como ovelhas perdidas,

cada qual para seu lado,

 e o Senhor fez recair sobre Ele

todos os nossos crimes

 

Maltratado, suportava tudo, sem abrir a boca,

como cordeiro levado ao matadouro,

como ovelha muda diante do tosquiador,

não abria a boca.

 

Sem juízo, sem processo, tiraram-no do nosso meio.

Quem pensou no seu fim?

Arrancaram-no da terra dos vivos,

pelos pecados do meu povo o feriram.

 

Deram-lhe sepultura entre os perversos,

e um túmulo com os malfeitores,

embora não tivesse cometido crimes,

nem se encontrasse engano em sua boca …

 

Pelos trabalhos suportados

verá a luz, será saciado de sabedoria!

Meu Servo inocente reabilitará a todos,

porque carregou os crimes de todos!

 

Por isso Lhe destinarei

uma porção entre aos grandes

e repartirá os despojos com os poderosos,

porque desnudou o pescoço para morrer

e foi contado entre os pecadores.

Ele carregou os pecados de todos

e intercedeu pelos pecadores. (Is 53)