Páscoa: “É necessário que nossa ressurreição seja como a de Cristo”
abril 4, 2015
Papa Francisco: A bula da Misericórdia anuncia o Ano Santo
abril 14, 2015

O projeto djadista * e explodir o mundo árabe

Estudantes massacrados em Garissa, Quênia

(La Stampa, 09.04.15 <vaticaninsider.lastampa.it>)

Pelo Pe. Giulio Albanese

Diretor da revista missionária das Pontifícias Obras Missionárias e membro da Comissão pelas ações caritativas em favor do Terceiro Mundo da Conferência Episcopal Italiana.

“È preciso muita prudência em classificar os atos criminosos, perpetrados pela metástase do salafismo” **

 

“Está ocorrendo uma guerra religiosa” – hoje em dia esta expressão é recorrente nos jornais italianos e é sintomática do mal estar que nossa sociedade ocidental experimenta com relação aos crimes perpetrados pelas células de matriz djadista. A chacina de Garissa ***, em pleno tríduo pascal, é o último de uma longa série de ataques contra os cristãos, o que tem levado muitos periodistas a estigmatizar a violência de cunho religioso dos promotores da sharia, a lei islâmica. Sobre isto, convém muita prudência em classificar os atos criminosos, perpetrados por esta metástase do salafismo, seja no Oriente Médio, seja na África ao sul do Saara. Antes de mais nada, recorde-se que o objetivo dos terroristas é o de provocar não apenas um choque entre a civilização ocidental e a islâmica, mas também de fazer explodir os estados árabes, assim como foram herdados da época da colonização pelas potências europeias.

Inclusive o conceito atual do “califado” – frequentemente difundido pela propaganda djadista na Síria, Iraque e Nigéria, se opõe ao contemporâneo quadro geopolítico da Meia Lua [N. r.: da Palestina ao Iraque, com um arco pela Síria, o chamado “Crescente Fértil”] e naqueles países onde existe uma densa comunidade muçulmana.

Com efeito: os milicianos golpeiam não somente os cristãos e outras minorias religiosas, mas quem quer que se oponha a seu delírio. Basta pensar no que ocorre quase diariamente na região nigeriana de Borno, onde a grande maioria das vítimas são muçulmanos.

Por exemplo: no dia 6 deste mês de abril, um grupo de milicianos do BoKo Haram, disfarçados de pregadores, cometeu um massacre no povoado de Kwajafa, matando pelo menos 24 pessoas e ferindo muitas outras. Fontes militares e testemunhas relatam que a carnificina foi verificada na mesquita local, O mesmo acontece na Somália, onde os extremistas da Shabaab, desde anos, semeiam morte e destruição contra os próprios correligionários de fé islâmica. No recente dia 27 de março, por exemplo, estes milicianos – os mesmos da chacina em Garissa, Quênia – atacaram o hotel Maka Al Mukarama, onde se encontravam vários parlamentares somalis. Então foram mortas mais de 20 pessoas.

Fica claro que os massacres de cristãos não são subestimados, mas contextualizados nos respectivos cenários.

Por exemplo, no Quênia, estes ataques servem para amplificar a reação da Shabbab contra o governo de Nairobe, considerado amigo do Ocidente, que enviou tropas à Somália em 2011, para combater o terrorismo islâmico. Os terroristas ignoraram que o novo presidente queniano é declaradamente filo-chinês, e que o cristianismo nasceu no Oriente próximo, e não no Ocidente. Como se isto tudo não bastasse, os serviços diplomáticos, até agora, se têm limitado a denunciar que o fenômeno tem um forte componente ideológico, que instrumentaliza a religião para seus próprios fins.

Escondem-se por detrás os interesses do salafismo mais intransigente nas monarquias do petróleo do Golfo Pérsico, várias vezes denunciadas por autorizadas vozes, mas sobre as quais se calam frequentemente as grandes democracias. As razões deste silêncio são de ordem econômica. Basta que lembremos nos enormes investimentos da Arábia Saudita de do Qatar na Europa. Recentemente, o fundo soberano dos emires do Qatar comprou novos arranha-céus em Milão, O valor total da operação foi de 2 milhões de euros, Há tempos, os países do Golfo Pérsico decidiram investir no exterior seus petrodólares. Em maio de 2011, o grupo Qatar Investments pagou 50 milhões de euros pela posse de 705 do clube de futebol Paris Saint Germain, que então estava à margem do quadro futebolístico francês. Desde então, a estratégia dos xeiques é evidente: utilizar Paris para dar um salto de qualidade, subindo na escala da UEFA, mas conquistar o negócio mesmo do esporte em seu reduto.

E o que comentaríamos da estreita amizade entre o presidente francês, Hollande, e a casa real da Arábia Saudita, que são waabitas ****? Também devemos lamentar o braço dado dos Estados Unidos com os emirados do Golfo Pérsico, não só por causa dos negócios com o petróleo, mas também pela política anti-iraniana.

Por agora, é muito cedo para pensar que o empenho da conferência de Losanne possa mudar o cenário. Certamente, os Emirados e a Arábia Saudita temem uma aliança entre os Estados Unidos e o Irã, que poderia fazer passar para um segundo plano a histórica ligação entre os americanos e as potências árabes sunitas. Por isto, Riad (capital da Arábia Saudita) acelerou, nos últimos meses, os esforços para dotar suas forças militares de tecnologia em nível de funcionarem independentes dos Estados Unidos. Neste ano, os sauditas se tornou o primeiro importador de armas do mundo, com uma despesa anual de 6,5 milhões de dólares.

Ao mesmo temo, o salafismo wahabita continua, sem vacilar, na sua propaganda delirante, O grande mufti da Arábia, xeique Abdul Azis Bin Abdullah, declarou no passado 15 de março, que “é necessário destruir toda igreja cristã na região do Golfo”, em sequência da decisão do governo do Kwait de locais para o culto cristão em seu território. Porqeu, até o momento, os políticos ocidentais não protestaram contra as autoridade de Ryad por tão aberrantes declarações de seu líder religioso? Porque, por um lado, nós, ocidentais, nos indignamos por causa das vítimas do terrorismo islâmico, e, por outro, nosso governos fazem negócios com os emirados do Golfo. É inútil escondê-lo: arriscamos a chorar lágrimas de crocodilo, e o Papa Francisco tem razão em denunciar que “nosso silêncio é cúmplice”. Então, o que fazer?

A propaganda salafita, com efeito, procura sua base jurídica na sharia, em clara violação da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, aprovada em 10 de dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, Verdade que pouquíssimas nações islâmicas participaram da elaboração e assinatura desta declaração. Mas, ingressando sucessivamente na ONU, aceitaram uma adesão de princípio à mesma, mas sem ratificar e assinar os acordos e protocolos. Nos últimos trinta anos, algumas organizações islâmicas têm específicas declarações que se inspiram no modelo ocidental, mantendo, porém, na sua essência, o modelo teocrático muçulmano.

Basta ler a “Declaração Universal dos Direitos Humanos no Islã”, adotada em 1981 pelo Conselho Islâmico da Europa, como também a Declaração do Cairo, de 1990, elaborada pela Organização da Conferência Islâmica, para nos darmos conta do forte influxo da teologia islâmica do constante apelo aos conteúdos da sharia.

Na “Carta árabe de direitos humanos” de 1994 é possível verificar uma inclinação jurídica de algum modo mais laica, que se pode atribuir à necessidade de se aproximar – no plano formal – na medida do possível, dos padrões internacionais dos direitos humanos. Examinando esses documentos, surgem, contudo, dúvidas, sobre se podem ser considerados, do ponto de vista jurídico, documentos islâmicos, codificadores dos direitos humanos.

Na maior parte dos casos, estas Cartas têm uma forte conotação declaratória, sem prever mecanismos de controles efetivos quanto ao que acontece nos estados signatários.

É possível reconduzir à razoabilidade o Islã integrista? Se, de um lado, é verdade que o mundo islâmico deva superar os condicionamentos impostos pela teocracia, que considera que a religião é o outro lado da moeda da política, recusando o desafio imposto pela história, do outro lado, esta é a primeira vítima sacrifical dos terroristas, que dizem matar em nome de Deus. Recorde-se que a mensagem dos encontros inter-religiosos de Assis, idealizados por João Paulo II, sempre estigmatizaram o engano, afirmando que quem quer que se confesse religioso deve, por sua vocação, promover a paz.

Também o Ocidente deve assumir suas responsabilidades. Nos últimos anos, as grandes democracias ocidentais, têm feito pouco ou quase nada para ajudar a sociedade civil árabe sair da letargia e sustentar política e financeiramente a inteligência muçulmana moderada, um desafio, que, considerando a atualidade, não pode ser descurado.

* “Djadista”, partidário da guerra santa contra todos os considerados infiéis, e, atualmente, também muçulmanos de outras tendências.

** “Salafismo” ou “Whabismo” tem suas raízes num movimento puritano, aliado, desde cedo, à casa real saudita, para resgatar um Islã puro dos primeiros tempos, denunciando não só práticas dos infiéis, mas também de outros muçulmanos, descritos como traidores da fé.

*** Cidade do Quênia, cuja universidade foi atacada, sendo separados os estudantes cristãos dos muçulmanos e então chacinados, fato ocorrido no último Tríduo Pascal.

**** Reacionários, desejosos de voltar a um mítico Islã primitivo, são fortemente – embora minoritários – influentes na política e nas finanças dos países petroleiros da península arábica. São da linha sunita, que admite interpretações jurídicas tradicionais, a “sharia”, não aceita pela corrente shiita, majoritária no Iraque e no Irã.