Abramos a porta do nosso coração para Jesus!
Março 9, 2017
O Papa Francisco e o celibato sacerdotal
Março 11, 2017

O testemunho máximo de Jesus: seu martírio (Léonce de Grandmaison)

"Eis o Homem" - Bom Jesus da Cana Verde

3. JESUS SE DECLARA

À luz dessas sugestões, afirmações, promessas e profecias, podemos abordar o testemunho supremo, o do martírio, no sentido que, com justiça, deu a este termo o exemplo de Jesus. Poderíamos gravar junto a ele o que o escrivão do processo de Joana d’Arc escreveu, diante da declaração da heroica santa, que afirmava a origem divina de sua missão: Resposta mortífera. De fato, Jesus, interrogado em nome de Deus, vai reivindicar, com risco imediato de vida, perante o alto tribunal de sue povo, sua dignidade suprema:

E levaram Jesus à casa do Sumo Sacerdote e ali se reuniram todos os grandes sacerdotes, os anciãos e os escribas. Pedro o seguia de longe, até o pátio da casa do Sumo Sacerdote, e sentou-se entre os serviçais e os criados, esquentando-se junto ao fogo.

Os grandes sacerdotes, porém, e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus, a fim de levá-lo à morte.. Mas não o encontravam. Muitos depuseram falsamente contra ele, mas não concordavam os depoimentos. Então, alguns, levantando-se, o acusaram nestes termos: “Nós o ouvimos dizer: ‘Destruirei este templo, feito pelas mãos humanas e, em três dias, edificarei outro, não feito por mãos humanas’”.

Mas também nisto não entravam em acordo os testemunhos. Então, levantou-se o Sumo Sacerdote, e interrogou Jesus, dizendo: “Nada respondes aos que te acusam?” Mas Jesus se calava.

Novamente o Sumo Sacerdote o interrogou nestes termos: “És tu o Cristo, o filho do Bendito?” E Jesus respondeu: “Eu sou, e vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu” (Dn 7,13; Sl 109/110,1).

Então, o Sumo Sacerdote rasgou as vestes e disse: “Que necessidade temos de testemunhos? Ouviste a blasfêmia! Que vos parece?” E todos declararam que era réu de morte. E alguns começaram a cuspir nele e a dar-lhe bofetões (Mc 14,53-65; Mt 26,57-68; cf. Lc 22,54-55 e 63-71).

Esta cena capital está descrita em termos tão claros, que dispensa comentários. O Sinédrio inteiro – se houve alguma exceção. terá sido Niquelemos (ou Arimateia) ou algum pouco “seguro” – reuniu-se para julgar o profeta perigoso, preso para isto, amarrado e despojado de seus meios de influenciar a multidão…

Ainda capazes de cometer um crime, os piores inimigos de Jesus continuam estritos formalistas, como sucede geralmente (Mt 23,23-27; cf. Lc 11,39-42; Mc 7,1-23 e, sobretudo Jo 10,30-33)….

Para os mais instruídos e apaixonados entre eles, que esperavam um Messias “homem e filho de homem”, a atitude do acusado constituía uma usurpação e um sacrilégio do direito incomunicável de Deus … Se para obter de Pilatos uma sentença de morte era necessário entrar no terreno político, o motivo que decidiu os sinedritas foi religioso. Esta mesma ira é que ruge, no dia seguinte, feroz no Calvário. Porque não foram unicamente os passantes que insultaram Jesus, balançando a cabeça, e repetindo as famosas palavras recordadas já diante dos juízes: Tu que destróis o Templo de Deus o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo e desce da cruz (Mt 15,27-29 e 27,38-40; cf. Lc 23,35), mas também zombam dele os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos: Salvou os outros e não pode se salvar! Se é o rei de Israel, desça da cruz e acreditaremos! Confiou em Deus, que Deus o livre agora, se é que o ama! Porque ele disse: “Sou o Filho de Deus” (Mt 27,41-43; Mc 15,31-32, citando o Sl 20/22,8).

O tema do justo nunca abandonado por Deus e aqui repetido pelos inimigos de Jesus, reaparece sem cessar nos Salmos, mas os escribas o entendem aqui no sentido imediato e material, desprezando a interpretação espiritual dada a estas passagens nas profecias sobre o Servo de Javé e no Livro da Sabedoria (Sb 2,13.16-20)(*).

(*) Fiquemos de tocaia contra o justo! Ele nos incomoda!
Ele se opõe às nossas ações,
lança-nos na cara as faltas contra a Lei,
repreende nossas culpas contra a educação que nos deram!
Declara conhecer a Deus e ser Filho do Senhor!
Tornou-se acusador de nossas convicções
e só de vê-lo nos sentimos importunados!
Leva vida diferente dos demais e segue um caminho à parte,
ele nos considera malignos e se afasta de nossas sendas
como se elas contaminassem.
Proclama feliz o destino do justo
e se gloria de ter Deus como Pai.

Vamos ver se é verdade o que diz,
comprovando como é sua morte.
Se esse justo é filho de Deus, Ele o ajudará
e o arrancará das mãos dos seus inimigos.
Vamos submetê-lo a tormentos impiedosos
para apreciar sua paciência e avaliar sua têmpera.
Nós o condenaremos à morte vergonhosa,
pois diz que há quem olhe por ele! (Sb 2,12-20).