Carne seca, vitela, carneiro, costeletas
julho 4, 2017
Os 40 Mártires do Brasil – 17 de julho
julho 16, 2017

Os bons olhos de Jesus

31 Dias no Amor de Deus – 15º DIA

R. Paiva, SJ, Loyola / SP 

Os olhos bons de Jesus

Em Jesus habita a plenitude da divindade (Cl 2,9). Ele é Pessoa Divina – o Filho Eterno do Pai Eterno – que assumiu totalmente a nossa humanidade. Deus feito carne, Ele é carne de nossa carne, sangue de nosso sangue. Veio do Pai e voltou para o Pai (ver Jo 13,13), levando consigo nossa humanidade.

~~~~

Na Última Ceia, assim Ele revelou a Filipe e a nós: “Quem me vê vê o Pai. Eu e o Pai somos Um” (Jo 14,9; ver Jo 12,45). Olhemos os bons olhos de Jesus e veremos os olhos bons do Pai do Céu, na beleza do Santo Espírito de Amor!

~~~~

Certa vez, Jesus estava numa sinagoga, como era seu costume nos sábados. Lucas nos diz que ali se encontrava também “uma mulher possessa, havia dezoito anos, de um espírito que a mantinha doente. Andava toda curvada, e não podia de modo algum levantar a cabeça” (ver Lc 13,10-17).

~~~~

Ela fazia parte da paisagem. Estava sempre lá. Todos, também ela, estavam acostumados com sua sina. Ninguém estranhava. Ninguém mais olhava para ela com curiosidade ou compaixão, como no começo do seu estranho mal. Assim nos habituamos, outrora, com os escravos. Assim não estranhamos a situação de miséria de milhões de nossos conterrâneos e contemporâneos. Nosso olhar pousa desatento sobre estas situações, como os motoristas nas estradas, que passam por um desastre só olhando, sem a menor ideia de ajudar.

~~~~

Não assim Jesus! Ele viu a mulher. Seus olhos bons não a ignoraram. Não foram distraídos, desatentos, nem tomaram aquele olhar resignado de “o que se há de fazer?”. Jesus olhou, viu e agiu. Chamou a mulher para o lado reservado pelo costume inquebrantável para o lado privilegiado dos homens. Os olhares dos presentes variaram entre curiosos e indignados! Se Maria Santíssima lá estivesse, seus olhos brilhariam de alegre expectativa. Seu Imaculado Coração lhe diria que seu Filho ia fazer o bem. Na verdade, “Jesus passou fazendo o bem e curando todos os que o Diabo havia escravizado” (ver At 10,38).

~~~~

Naquele momento, Jesus nos curava do mau hábito de colocar mulheres em lugar separado, afastado do centro, no caso, de perto dos rolos da Torá, centro nobre de toda a sinagoga. Seu olhar bondoso e penetrante nos ensinou a olhar o enfraquecido, o ignorado, o sem jeito de outra maneira, tirando-o do seu canto e trazendo-o para o centro.

~~~~

Jesus desafiou com seu olhar e sua ação os que acreditam que o corpo humano é uma máquina, que, às vezes se desarranja, e se os médicos nada podem fazer, então só nos resta nos resignarmos, porque estamos sós neste mundo sem Deus. Os próprios membros da sinagoga e a parentela da mulher não pensavam em ação do demônio. Doenças fazem parte da vida… É Jesus quem viu mais fundo e enxergou a ação do Maligno. Por isso respondeu à piedade falsa e desumana do chefe da sinagoga, argumentando:

“Hipócritas, no sábado cada um de vós não tira do estábulo seu boi ou seu jumento e o leva para beber? E esta filha de Abraão, que Satanás manteve ligada dezoito anos não poderia ficar livre desta prisão no sábado?”

~~~~

Contemplando os olhos de Jesus, postos na mulher doente, talvez ganhemos olhos para ver as misérias de nossa humanidade descrente. Nossa humanidade, tantas vezes e de tantos modos, tem os olhos cravados nos próprios pés, só enxergando o metro quadrado em frente dos seus passos, sem nada esperar do futuro, pois não pode levantar a cabeça e ver Jesus, “Aquele que há de vir” (ver Mc 13,26). Aquela mulher nos representa a todos, que estamos ocupados com nossos próprios pés e nada enxergamos além de nossos imediatos interesses, mesmo quando nossos interesses nos parecem altamente humanitários. Até que talvez sejam humanitários, mas são desesperançados, porque não aceitamos ter fé, não aceitamos o horizonte que a fé nos abre para vivermos olhando também em volta, com olhos bons como os de Jesus.

~~~~

Contudo, no meio de nós está quem não conhecemos, e ele vem em nosso socorro:

“Diante do que Ele dizia, todos os seus adversários ficavam envergonhados, enquanto a multidão inteira exultava com as coisas maravilhosas que Ele fazia” (Lc 13,17).

~~~~

Alguns de nós – graças a Deus – temos olhos para ver a necessidade de alguém perto de nós. Como o Samaritano, deixamos nosso cômodo para ajudar o caído. Mas não temos olhos para a grande miséria do mundo, para a desgraça de multidões. Não somos convertidos ao bem público por amor do Pai de todos, Pai nosso. Em países de maioria cristã acontecem coisas abomináveis, gente em quantidade sofre, e não nos tocamos. Ajuda o coração cantar o conhecido refrão:

“Entre nós está, e não o conhecemos!”