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Os Olhos Bons de Deus

Os bons olhos de Jesus, nosso grande Deus e Salvador

Continuação “31 dias no Amor de Deus”, 14o Dia, R. Paiva, SJ, Loyola / SP

 

14º DIA

Os olhos bons de Deus

 

Há um canto bastante conhecido, em que dizemos a nosso Deus Amor *:

“Olho em tudo e sempre encontro a ti!
Estás no céu, na terra, onde for.
Em tudo que me acontece encontro teu amor,
já não se pode mais deixar de crer no teu amor.
E impossível não crer em Ti!
É impossível não Te encontrar!
É impossível não fazer de Ti meu ideal!” *

Neste canto falamos do olhar amoroso humano que se volta para Deus Fiel, Amigo. Mas é suave lembrar como nosso Deus nos olha com bons olhos, pois Ele só tem bons olhos!

Moisés rezava confiante:

“Olha (Senhor Deus) da Tua morada santa, do céu, abençoa Teu Povo, Israel e o solo que nos deste, como o tinhas jurado a nossos pais, a terra que mana leite e mel” (Dt 27,12).

Moisés tinha uma grande experiência pessoal do olhar de Deus. Não é verdade que ele teve a surpresa de cair em conta de que o Todo-poderoso o via solitário no deserto, pastoreando os rebanhos do sogro, Jetro, e se tinha manifestado na sarça que ardia sem se consumir? Ali também descobriu que o fogo de Deus não faz mal, apenas ilumina e aquece, pois é fogo de amor (ver Ex 3,1-6). Entre outros episódios de sua movimentada vida, Moisés teve de reconhecer que era visto por Deus nas lutas. Na batalha contra os amalecitas, Moisés permaneceu no alto, em oração, com as mãos levantadas;

“E aconteceu que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, Israel vencia. Quando as abaixava, os amalecitas levavam vantagem. Ora, os braços de Moisés se tornavam pesados. Trouxeram então seus companheiros uma pedra e a ajeitaram de modo que ele pudesse sentar-se. A seguir Aarão e Hur, um de cada lado, sustentaram-lhe os braços. Deste modo, as suas mãos se conservaram erguidas até o pôr do sol. E Josué desbaratou Amalec e seu povo a fio de espada” (Ex 17,8-13).

Para Moisés, esta e outras situações o confirmavam na feliz suposição que o Senhor olhava com bons olhos aquela pequena multidão de gente no deserto. Tudo conforme a revelação do Altíssimo: “Disse-lhe o Senhor: ‘Eu vi a aflição do meu povo no Egito” (Ex 3,7).

Mais tarde, um Sábio escreveu o inspirado poema da Criação, que colocou na entrada do livro das origens, o Gênesis:

“No princípio Deus criou o céu e a terra.
A terra, porém, estava informe e vazia,
E as trevas cobriam o Abismo,
Mas o Espírito de Deus estava presente
Com seu dinamismo sobre as águas.
Disse Deus: ‘Haja luz!’.
E houve luz!
Viu Deus que a luz era boa…” (Gn 1,1-4).

O poeta inspirado continua seu poema cheio de sabedoria, e, afinal: “Deus viu tudo o que fizera, e eis que estava muito bom” (Gn 1,31).

Deus tem bons olhos! Criou seres visíveis e invisíveis. Criou seres que duram e seres que passam rápido: imensas nebulosas e partículas subatômicas. Ele, na sua generosidade teve olhos para seres que nós, com pouca sabedoria, achamos sem valor, vis, e até desprezíveis:

“Deus também escolheu o que era baixo e desprezível, conforme o mundo, e escolheu o que é fraco diante do mundo para confundir os fortes” (ver 1Cor 1,24-31).

Estes olhos bons e penetrantes de Deus se revelam para nós nos olhos bons de Jesus, “nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2,13). Um das páginas mais impressionantes dos Evangelhos se passa no movimentado e grandioso Templo de Jerusalém. Havia um cofre ou coisa parecida, onde os devotos colocavam suas oferendas em dinheiro. Jesus tinha acabado de censurar “os que devoram os bens das viúvas e, para disfarçarem, fazem longas orações. Por isso eles receberão um castigo mais severo” (Lc 20,47). Então:

“Levantando os olhos, Jesus viu que os ricos depositavam suas ofertas no cofre do Templo. Viu também uma pobre viúva que colocou ali duas moedas de cobre…”

Maravilhoso que o gesto da mulher tenha sido “pinçado” pelos olhos espertos de Jesus! Nada lhe escapava! Em particular um gesto de amor. Seus olhos bons vão muito além das aparências:

“Então Ele disse: ‘Eu vos asseguro: esta pobre viúva deu mais do que todos os outros. Pois todos deram do que lhes sobrava, mas esta deu, em sua indigência, tudo o que lhes restava para viver” (ver Lc 21,1-4).

Jesus é igual ao Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, como rezamos no Credo de Niceia e Constantinopla, a oração batismal que mantém unidas a Igreja do Ocidente e as Igrejas do Oriente. Assim, este olhar de Jesus sobre a viúva e sua humilde oferta equivale ao olhar do Altíssimo no tempo dos Reis de Israel. Ele mostrou que tinha olhos para conhecer uma pobre viúva, moradora dos arredores de Sarepta. Ele a via e conhecia “por dentro”. A ela confiou a guarda e alimentação do seu profeta, Elias:

“Depois de algum tempo, a torrente secou, pois não choveu na região. E o Senhor falou a Elias, dizendo: ‘Levanta-te (Elias) e vai a Sarepta de Sidon, e ali permanecerás. Eis que ordenei a uma viúva que te dê sustento’. Levantou-se, então, e foi a Sarepta. Chegando à porta da cidade a ajuntar lenha…” (ver 1Rs 17,7-16).

O milagre do pouco de azeite e do pouco de farinha que não se esgotaram enquanto a viúva, seu filho e Elias precisaram, aconteceu em plena época moderna, na França orgulhosa do progresso e desprezadora da religião no século XIX, na vida do Santo Cura d’Ars. O dominicano, Pe. Marc Joulin, assim relata:

“Entre 1830 e 1832, João Maria tem muita dificuldade em manter viva a (Casa da) Providência. A revolução de julho (de 1848, na França) e as perturbações que ela acarreta – especialmente em Lião, não favorecem em nada as liberalidades (ofertas generosas) com as quais ela conta habitualmente. Durante esses duros momentos, porém, acontecem fatos maravilhosos. Em duas ocasiões, quando o celeiro de trigo deveria estar vazio, encontra-se cheio. Sob os dedos de Joana Maria, a padeira, o pouco de farinha que lhe resta, começa a intumescer (crescer) e encher a masseira… A boa gente de Ars, informada pelas meninas (alunas internas) não hesita em falar de milagres. (O Pe. Vianney) crê certamente numa intervenção efetiva da bondade de Deus. Mantém-se, porém, muito discreto e, segundo Maria Filiat, teria simplesmente dito, quando o interrogavam a respeito: ‘O bom Deus é muito bom. Ele cuida de seus pobres’” (1).

Ainda há outros, muitos outros momentos em que nos é dado surpreender os olhos bons de Jesus. Ficam para amanhã!

* Pe. R. Paiva, SJ & Teresa Cristina Potrick (Orgs.), Cantar e Celebrar, Loyola / SP 2007, p. 122, canto de Maria Elisa Mendes.
(1) “A vida do Cura d’Ars – a audácia de amar a Deus”, Loyola / SP, 1989, p.90.