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Padre Antônio Vieira denuncia práticas da Inquisição

Padre Antônio Vieira

Padre Antônio Vieira denuncia práticas da Inquisição

• Preza a Vossas Eminências fazer sobre estes pontos uma séria reflexão: um homem ou uma mulher que, verdadeira ou falsamente, para não se sujeitar à pena de morte, confessou de si mesma o delito e acusa como cúmplices quinze ou vinte ou trinta pessoas, que indício há que queira ir para a forca para não acusar o trigésimo primeiro? (…) Que alguém queira ser queimado para salvar a vida, ou a reputação de um outro, e que heróis destes abundem em nosso século, e às vezes entre pessoas tão vis, quais são as que se veem morrer por diminutas na Inquisição de Portugal, não se pode presumir como regra de discurso, e repugna ao senso comum (p. 222).

• Mais tremenda impressão faz à imaginação a morte dos negativos. Estes são condenados à morte por serem reputados de judeus impenitentes e de não crerem em Cristo. Mas como é que não creem se o confessam em alta voz, se O invocam com lágrimas e protestam que não podem salvar-se senão Nele, e se pedem a Deus, na hora da morte, que nunca lhes perdoe se alguma vez foram judeus? Permite, acaso, o erro judaico reconhecer e adorar Jesus Cristo por Deus e Salvador das almas? Se aquele é judeu por erro de intelecto e faz do judaísmo um princípio interior de consciência, como até o último suspiro invoca Jesus Cristo na morte (p.223)?

• O Padre Emanuel Fernandes, jesuíta, Confessor do Sereníssimo Príncipe de Portugal e sujeito de grande doutrina, experiência e valor, no parecer por ele dado àquela Alteza sobre estas matérias, e apresentado a Vossas Eminências afirma, no parágrafo 9, que viu morrer muitos sujeitos desta agora tão miserável nação, não só com grandes argumentos de inocência, afetos de piedade e protestos católicos, mas, com extraordinários sinais de predestinação, em tais circunstâncias, e com tais atos, que lhe parecia incrível e moralmente impossível encontrarem-se em tais sujeitos corações falsos. “E por isso” – acrescenta o mesmo Padre – “eu fiz então o conceito, e faço-o agora, de que muitos condenados da Inquisição morrem como católicos que sempre foram, e como predestinados. E escutei- de muitos padres da Companhia (de Jesus), muito religiosos e letrados, que, pela experiência que têm, formam o mesmo conceito, ficando nós maravilhados, guardando estes segredos com veneração dos altíssimo juízos e disposições da Divina Providência”. Até qaui o Padre Dias (p. 225).

• E apesar desta espécie de mortes, causadas, como se sabe, por testemunhas singulares [uma só testemunha] e às cegas [sem provas], merecer maior comiseração, suscita também grande compaixão ver apodrecer, por longos anos, nos cárceres tantas pessoas, que saem depois declaradas inocentes, após terem sofrido tormentos crudelíssimos ainda e que não deixam ainda de estar durante anos na prisão, depois de já ter sido reconhecida sua inocência, por se terem descoberto seus acusadores ou por terem sido reconhecidos como cristãos-velhos (isto sem confissão nem outra ajuda espiritual), para esperarem que se faça o auto de fé , e neste, embora inocentes,s ofrem a infâmia de abjurar “de levi” [jurar que renunciam à prática da religião judaica], com escritura passada à sua família e descendência de terem servido de público espetáculo e de atores naquela infame e dolorosa tragédia. Contam-se às centenas os desta espécie… (p.226).

• Atesta-o mais evidentemente a notícia que disso dá o próprio Santo Ofício [Inquisição em Portugal] na condenação e castigo dos falsários [os que acusaram falsamente], por terem causado, como diz a sentença, “danos irreparáveis”, o que significa que sob os seus depoimentos o laço [forca] e o fogo, hão de ter cumprido a sua função e de pouco terá valido a estes miseráveis, ainda para este mundo, terem negado a lei mosaica, invocarem Jesus Cristo até o último suspiro e o auxílio da Santíssima Virgem (p. 227) **.

*Padre António Vieira, “Obra Completa Escritos sobre os judeus e a Inquisição – tomo IV – volume II”, Loyola / SP 2016, pp. 223 ss.
** Nos textos que saltamos, Vieira enumera e até descreve casos terríveis, de grupos de 19 (p. 226), ou religiosas devotas (pp. 220-221) ou de pessoas de grande fama e até com obras elogiadas formalmente pela Santa Sé (ver pp. 225-226). Também cita os que renunciaram a seus cargos na Inquisição por discordarem, em consciência dos métodos usados em Portugal (p. 224).