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Problemas de Lot

Já que falamos de Lot, vamos olhar de perto algumas dificuldades muito duras pelas quais passou este sobrinho de Abraão. Ele também é chamado de seu “irmão”, no sentido de “membro do mesmo clã”, isto é: membros da mesma grande família de migrantes de Haram, descendentes de Taré (Gn 11,31). No capitulo 14 do Livro do Gênesis, o Autor Sagrado relata uma memória do tempo quase esquecido de um rei chamado “Amrafel”, de “Elasar”, aliado de “Codorlaomor, rei de Elam, e Tadal, rei de Sodoma, Bersa, rei de Gomorra, Senaab, rei de Adamã, Segor, rei de Bala” (Gn 14,1). Estes pequenos reinos se concentraram num vale fértil, “Sidim”, no sul do atual Mar Morto. Estes “reis” não passavam de pequenos senhores, que costumavam ir à guerra contra cidades e povos mais fracos para se enriquecerem com a pilhagem. Numa destas campanhas, perderam uma batalha decisiva, junto aos “poços de betume” (Gn 14,10). Entre os prisioneiros, levaram Lot, que já morava em Sodoma (Gn 13,12), cidade próspera, mas cujos habitantes “eram perversos e grandes pecadores contra o Senhor Deus” (Gn 13,13). E o pacífico pastor Abraão teve de armar sua gente para ir libertar o sobrinho (Gn 14,13-16)!

Lot talvez tivesse escolhido acampar nos arredores de Sodoma, para atender sua mulher, que gostava de estar perto de uma cidade, do mercado, da vida mais ativa e colorida. Quando Sodoma e Gomorra e as outras cidades do fértil vale, foram engolidas por um tremendo cataclismo, que a Bíblia atribui ao castigo de Deus, por causa de seus muitos e graves pecados, Lot teve a oportunidade de escapar. Mas sua mulher, possivelmente saudosa das coisas que tinha deixado para trás na fuga, demorou-se olhando para trás, foi pega pela maré de enxofre e cinza e transformada em “estátua de sal” (ver Gn 19).

O curioso é que esta história era tida mais como “estória”, metáfora ou lenda, até que os arqueólogos descobriram a biblioteca do rei de Ebla, enterrada nas areias do deserto da Síria. Esta “biblioteca” era mais um arquivo comercial. Ora, nela foram encontrados os nomes das cidades pecadoras, como parceiras comerciais! Assim, vários pesquisadores conservam a mente aberta para a possibilidade de que a catástrofe vulcânica que engoliu as cidades tenha sido um episódio histórico (se você quiser ler alguma coisa accessível sobre estes achados, consulte http://pt.wikipedia.org/wiki/Ebla).

Nós costumamos a interpretar os fenômenos naturais como “coisas que acontecem”, e achamos o Autor bíblico muito “antiquado” para falar de castigo de Deus num episódio vulcânico. Mas, na verdade, quem constrói sua casa sobre a areia terá um dia terá de vê-la desabando. Quem mora numa região sujeita a terremotos e erupções, sendo muito apegado a seus bens, e muito ocupado para reparar nos “sinais dos tempos”, sem dúvida terá grandes desgostos e até perderá a própria vida. O Livro do Gênesis menciona os “poços de betume”. Estes poços já mostravam que a região não era tão paradisíaca, quanto parecia aos moradores do Vale de Sitim. Também temos o caso bem estudado da cidade romana de Pompéia, quando os avisos do vulcão Vesúvio foram ignorados por dias. Deste modo a erupção principal aniquilou a cidade. Se nossos corações se prenderem a nossos bens materiais, preferimos nos entregar a um otimismo perigoso, que fecha nossos olhos.

Jesus nos fala: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que chegou o tempo de sua ruína. Então, os que estiverem na Judéia refugiem-se nas montanhas. Os que estiverem na cidade afastem-se dela. Os que estiverem nos campos não voltem para casa. Porque esses dias serão de castigo, em que tudo quanto foi escrito deve se cumprir…” (Lc 21,21-22). Não é prudente imitar a mulher de Lot e ficar olhando para nossos bens materiais, ignorando os sinais dos tempos! Peçamos a graça de usarmos os bens deste mundo sem nos grudarmos a eles!