“Ó Jesus Redentor” oração da noite no Tempo Pascal
Abril 16, 2017
Davi: pecado, arrependimento e morte
Abril 23, 2017

Ressuscitou ao Terceiro Dia

“Ressuscitou ao Terceiro Dia”

De “Credo – Meditações sobre o Símbolo dos Apóstolos”
Hans Urs Von Balthazar
Gráfica de Coimbra, pp. 58-60

“Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” – diz São Paulo (1Cor 15,4), que quer também ver nesta Ressurreição, não esperada por ninguém, o cumprimento do que havia sido anunciado, enquanto os Evangelistas põem esta profecia na boca do próprio Senhor.

A datação, num dia prederteminado, desta reviravolta, que tudo abarca, mostra que, prevista com precisão, ela foi experimentada por testemunhas, como tudo o que se passou nos dias mortais de Jesus.

Esta datação é tão importante como a da Paixão sob Pôncio Pilatos. O momento em que a nova vida, sem morte, de Jesus se afasta de nossa história mortal, não é um momento indeterminado: é nessa história, que continua, um “agora” claramente situado.

Não como se alguém pudesse seguir e acompanhar este despertar da morte para a vida. Este é só um acontecimento na história de Deus, como a Encarnação. Contudo, ambos – entrada e saída – tocam a nossa história humana. As mulheres, os discípulos irão encontrar o Ressuscitado no mesmo dia, enquanto Israel reconheceu o acontecimento da Encarnação poucos dias depois de ele se ter dado (Lc 1,42s).

A Ressurreição do Senhor morto é atribuída pelas Escrituras sobretudo a Deus Pai e à Sua onipotência. Isto é justo, pois o Filho realizou de fato a decisão tri-unitária da Salvação, principalmente na obediência ao Pai divino.

No discurso de adeus de João, Jesus, que glorificará, mediante a Cruz, o Amor do Pai, pede dele a própria glorificação, e esta lhe foi concedida (Jo 13,32; 12,28).

A onipotência de Deus, que se manifesta na passagem da morte para a vida eterna, é celebrada como grandiosa por Paulo (Ef 1,19s). Mas, como o Espírito Santo foi o mediador de toda a obra da Salvação entre o céu e a terra, a Ressurreição dos mortes também lhe é atribuída, ao mesmo tempo que ao Pai (ver Rm 8,11). E se nos é estranha a ideia de que um morto possa a si mesmo acordar-se para a vida, no entanto se pode dizer que o próprio Jesus, cuja morte – como dissemos – foi obra do amor mais vivo, um amor Uno com o Espírito do Amor divino, também participou na passagem para a vida.

Doravante, Jesus vive “para Deus” (Rm 6,10). Mas Ele não viveu sempre para Deus? E, se Ele “morreu para
o pecado de uma vez para todas” (no mesmo), não o fez sempre em Sua vida e na Sua Paixão?

O Deus Único Trinitário opera a obra que é e permanece o dado central para toda a história da humanidade: aqueles que são finitos por natureza, condenados à corrupção pelo fato de se terem afastado de Deus, recebem, graças a Seu chamamento à vida eterna do Único, o dom da esperança, e mesmo a certeza de O seguirem nela.
“Dos mortos”: isto não quer dizer, portanto, deixando os mortos para trás, mas indo buscá-los, tomando-os consigo, de acordo com o que os Padres da Igreja descrevem maravilhosamente nas pregações (ver a homilia do Sábado Santo na Liturgia das Horas). Mas se Paulo grita depois, vitoriosamente: “Onde está, ó Morte, o teu aguilhão? A morte foi tragada pela vitória!” (1Cor 12,54s), isto quer dizer ainda mais: a realidade da morte, como abandono de si do homem, perdeu seu aguilhão, isto é, que, no fim das contas, “tudo era vão”, encontra-se incluída no processo da vida eterna.

Se o Pai se dá sem reserva ao Filho, se o Pai e o Filho se dão, por sua vez, ao Espírito Santo, não reside nisto a imagem originária do morrer mais belo, no íntimo da vida eterna?

Este “não-querer-ser-para-si” definitivo não é precisamente a condição de vida mais beatificante?

O nosso morrer miserável é assumido neste “morrer para”, que é o mais vivo que há, de tal modo que tudo quanto é humano, os eu ser gestado, o seu viver e o seu morrer, se encontra envolvido e abrigado numa vida que já não tem limites.