31 dia no amor de Deus – 1o Dia
agosto 2, 2015
Santa Lídia – Cofundadora da Igreja na Europa – 3 de agosto
agosto 2, 2015

Santa Catarina de Sena: “O envio do Verbo” (e prece pelo Papa!)

Doutora da Igreja, Padroeira da Itália, Santa Catarina, a mulher que trouxe de volta a Roma o Papado, refugiado em Avinhão, França, deixou-nos obras místicas e doutrinais de qualidade excepcional. Entre elas as “Orações e Solilóquios”. Este é o primeiro solilóquio ou oração, que traduzimos, segundo as “Obras de Santa Catalina de Sena – El Dialogo, Oraciones y Solilóquios”, Edición preparada por José Salvador y Conde, BAC, pp. 445-447.

Este solilóquio ou oração foi escrito em Avinhão, provavelmente nos primeiros dias de agosto de 1376.

Divindade, divindade, Bondade suprema, que somente por amor nos criaste a Tua imagem e semelhança, não dizendo ao nos criar, como quando criaste as outras coisas: “Seja feito!”; mas: “Façamos o ser humano a Nossa imagem e semelhança”!

Deste ao ser humano a forma da Trindade, ó Deidade eterna, nas potências da alma. Deste a ele a memória, para que se parecesse a Ti, Pai Eterno, que, como Pai, manténs e conservas todas as coisas em Ti. A memória retém e conserva o que o entendimento vê, entende e conhece de Ti. Também participa da sabedoria do Teu Filho Unigênito.

Da doce clemência do Espírito Santo, lhe deste a vontade. Esta vontade se eleva cheia de amor e, como se fosse u’a mão, toma o que o entendimento conhece de Tua bondade inefável. Deste modo, pela vontade e mão forte dão amor, a memória e o afeto se tornam repletos de Ti.

Graças, graças Te sejam dadas, alta e eterna Divindade, pelo imenso amor como nos mostraste ao conceder-nos tão doce figura e as potências da alma: o entendimento para Te conhecer; a vontade para se conformar a Ti; e o amor para Te amar sobre todas as coisas.

É lógico que, Te conhecendo, Bondade infinita, Te ame. Tanta força tem este amor que nem o demônio nem criatura alguma nos podem tirá-lo contra nossa vontade. Com razão deve se envergonhar a pessoa ao ver que tanto a amas e ela não Te ama!

Ó eterna Deidade, vejo em Ti, Amor inestimável, que, por nossa miséria e fragilidade caímos na feiúra do pecado pela desobediência de nosso primeiro pai, o amor Te obrigou a abrir os olhos de Tua piedade para conosco, miseráveis. Assim nos enviaste o Verbo de Teu unigênito Filho, Verbo, Palavra feita carne, coberto de nossa carne e revestido de nossa mortalidade.

Tu, Jesus Cristo, reconciliador, reformador e redentor nosso, te tornaste Mediador, Verbo, Amor e mudaste em paz perfeita a guerra, que o ser humano mantinha com Deus. Castigaste em Teu corpo nossas maldades e a desobediência que mantínhamos para com Deus. Castigaste em Teu corpo, sendo obediente até a afrontosa morte de Cruz, nossas maldades e a desobediência de Adão. Na Cruz deste satisfação, de uma só vez, à injúria feita a Teu Pai e à nossa culpa, vingando, em Ti mesmo, a injúria feita ao Pai.

Pequei contra o Senhor! Tem misericórdia de mim!

Para qualquer lado que me volte, encontro um amor inefável. Não podemos deixar de amar, pois somente Tu, Deus e homem, amaste sem ser amado por mim, porque eu não existia quando me criaste.

O que desejo amar – que é o que tenha ser em si mesmo – encontro em Ti. O pecado não tem existência em Ti, e, por isso, não deve ser amado.

Se quisermos amar a Deus, temos Tu, inefável Deidade! Se quisermos amar o homem, Tu és um homem, no qual posso conhecer-Te, ó pureza inestimável! Se quiser amar o Senhor, Tu és Senhor, e pagaste o preço de Teu sangue, arrancando-nos da escravidão do pecado.

Tu és Senhor, Pai, Irmão nosso por Tua benignidade e desmedida caridade, ó Deidade eterna! O Verbo, Teu Filho, conhecendo e cumprindo Tua vontade, quis derramar Seu precioso Sangue em favor de nossa miséria no salutar madeiro da santíssima Cruz.

Tu, suprema Deidade, és sabedoria e eterna Bondade. Sou morte, Tu és vida; eu, trevas, Tu, luz; eu, estupidez, Tu sabedoria; Tu, infinito, eu mortal; eu, enferma, Tu, médico; eu débil pecadora, que não Te ama; Tu, beleza sem mancha, eu, sórdida criatura. Com amor inefável me tiraste de mim para elevar-me a Ti, e, igualmente, nos levas a todos nós a Ti, gratuitamente, e não por obrigação, sempre que nos deixemos levar a Ti, isto é, se nossa vontade não se revele contra a Tua.

Bondade eterna, não olhes para as nossas culpas, que cometemos, quando nos afastamos de Tua incomensurável bondade, desviando nossas almas de seu próprio fim. Antes te suplico, por Tua infinita misericórdia, que abras os olhos de Tua clemência e piedade. Olha Tua única Esposa e abre os olhos de Teu Vigário na terra [o Papa] para que não Te ame, considerando a si mesmo, nem se ame a si mesmo, mas apenas pelo que Tu és.

Se ele olhar para si próprio, todos pereceremos, pois ele é nossa vida e nossa morte, já que tem o cuidado de nos recolher, ovelhas que morremos. Mas, se amar em atenção a Ti, por Ti mesmo, viveremos, porque receberemos o exemplo de vida por meio do bom pastor.

Ó suma e inefável Divindade, pequei e não sou digna de te dirigir minha súplica! Mas Tu tens poder de fazer-me digna. Castiga, meu Senhor, os meus pecados, sem ter em conta minha miséria.

Tenho um corpo: eu o dou a Ti e o ofereço. Eis aqui a carne, eis aqui o sangue. Se for de Tua vontade, eu te peço que se abrasem e destruam meus ossos, por aquele que recomendo a Ti [o Papa]. Faze com que os ossos e a medula sejam triturados em favor do Teu Vigário na terra, único esposo de Tua Esposa [a Igreja]. Rogo que Te dignes escutar-me! Que Teu Vigário cumpra a Tua vontade, que a ame e a observe, para que não pereçamos.

Dá-lhe um novo coração, que continuamente aumente em graça, forte para levantar o estandarte da Cruz, para que os infiéis participem conosco do fruto da paixão e do sangue de Teu Filho unigênito, ó Cordeiro imaculado, eterna e inefável e elevada Deidade!

Pequei contra Ti, Senhor, tem misericórdia de mim!