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Santo Inácio de Loyola: Vieira narra a conversão do cavaleiro espanhol

Santo Inácio,representado como nobre armado para a guerra

Trecho do Sermão do Padre Antônio Vieira *

– pregado em Lisboa, no Real Colégio de Santo Antão, Ano 1669

Jazia Santo Inácio (não digo bem), jazia Dom Inácio de Loiola, malferido de uma bala francesa no cerco de Pamplona, e aborrecido, como valente que era, de ter perdido um castelo [fortaleza], pensava outros maiores castelos [fortalezas], pelas medidas dos seus espíritos. Já lhe parecia pouca defesa Navarra [cuja capital era Pamplona], pouca medida os Pirineus [cordilheira próxima, separando a Espanha, e sua província Navarra, da França], pouca conquista a França. Considerava-se capitão, e espanhol, e rendido [derrotado]; e a dor lhe trazia a memória como Roma em Cipião, e Cartago em Aníbal foram despojos de Espanha: os Cids, os Pelaios, os Viriatos, os Lusos, os Geriões, os Hércules [antigos heróis lendários da Península Ibérica, Portugal e Espanha], eram os homens com cujas semelhanças heróicas o animava, e inquietava a fama, mais ferido da reputação da pátria, que das suas próprias feridas.

Cansado de lutar com pensamentos tão vastos, pediu um livro de cavalarias para passar o tempo; mas oh Providência Divina! Um livro que só se achou era das vidas dos Santos. Bem pagou depois Santo Inácio em livros o que deveu a este. Mas vede quanto importa a lição de bons livros. Se o lera cavalarias, sairia Inácio um cavaleiro da ardente espada; leu vida de santos, saiu um Santo de ardente tocha (Lc 12,35: “Estejam as candeias acesas em vossas mãos). Toma Inácio o livro nas mãos: lê-o a princípio com dissabor; pouco depois sem fastio; ultimamente com gosto; e dali por diante com fome, com ânsia, com cuidado, com desengano, com devoção, com lágrimas.

Estava atônito Inácio do que lia, e de ver que havia no mundo outra milícia para ele tão nova e tão ignorada. Porque os que seguem a lei do apetite, como se rendem sem batalha, não têm conhecimento da guerra. Já lhe apreciam maiores aqueles combates, mais fortes aquelas resistências, mais ilustres aquelas façanhas, mais gloriosas aquelas vitórias e mais para apetecer aqueles triunfos. Resolve-se a trocar as armas, e alistar-se debaixo das bandeiras de Cristo: e a espada, de que tanto se prezava, foi o primeiro despojo, que ofereceu a Deus, e a Sua Mãe nos Altares de Montserrate: “Aceitai, Senhora, essa espada, que, como se hão de rebelar contra vós tantos inimigos, tempo virá, em que seja bem necessária para a defesa de vossos atributos”…

* Adaptado e extraído das Obras Completas, Tomo II, volume X, pp. 485-486, Edições Loyola / SP, 2015..