“A Chave dos Profetas” – a obra definitiva de Vieira!
agosto 29, 2014
THE HOUND OF HEAVEN Francis Thompson (1859-1907) O CÃO DO CÉU. Tradução por R. Paiva, SJ
setembro 12, 2014

SÃO PEDRO CLAVER, O ESCRAVO DOS ESCRAVOS AFRICANOS

São Pedro Claver se fez enfermeiro

Ele passou a maior parte da sua vida, desde jovem estudante jesuíta até à morte, na Colômbia, país de onde é co-padroeiro. Podemos e devemos considerá-lo um santo latino-americano. Trabalhou duro, até o esgotamento de suas forças para ajudar, com suas próprias mãos, as vítimas do tráfico negreiro, no porto de “importação”, Cartagena de las Índias, na costa caribenha da Colômbia.

Em 1622, terminados seus longos anos de formação na Companhia de Jesus, seus Superiores decidiram que seria definitivamente integrado na Companhia no grau de “professo”, sendo admitido a fazer o voto de especial obediência ao Santo Padre, o Papa para as missões da Igreja, voto que caracteriza o serviço dos padres e irmãos jesuítas aos demais. Neste mesmo ano, Santo Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, era inscrito na lista dos santos, juntamente como seu amigo e co-fundador, São Francisco Xavier, padroeiro, com Santa Teresinha, das missões católicas.

Na sua formação, Pedro, foi amigo e orientado espiritual, de outro humilde cristão, grande santo, irmão jesuíta, Santo Afonso Rodrigues. Com ele aprendeu a responder prontamente aos mais simples chamados dos próximos com um profundo e simpático: Já vou, Jesus!

Pedro começou a trabalhar com os africanos, vítimas do tráfico de carne humana, com seu superior e amigo, Padre Sandoval. Este combateu contra o tráfico pregando e escrevendo e organizando um serviço de pronto atendimento aos homens e mulheres despejados pelos navios negreiros nos infectos barracões do porto de Cartagena. Quando Sandoval foi enviado a prestar serviço no Peru, Pedro continuou o trabalho. Mas o fez de um modo diferente, não com escritos e sermões, não organizando o trabalho, mas “metendo as mãos na massa”. Disse um contemporâneo: Não cessava de ajudar os negros nas necessidades espirituais e corporais. Não olhava nem calor, nem lama, nem mosquitos, nem doenças de seus assistidos… Acredito que ele batizou 300 mil, nesta cidade de Cartagena, nos seus arredores e também nas missões do interior, como Tolu. Esta testemunha chamou os escravos de “negros”. Pedro nunca: eles eram seus “etíopes”, diríamos hoje, seus “africanos”.

Era um serviço heróico. Os escravos vinham apertados em porões fechados, quentíssimos, sem quase nenhuma higiene, exceto uns baldes de água salgada atirados, de quando em quando, pelas escotilhas, péssima alimentação. Muitos morriam na travessia marítima de 3 ou 4 meses. Os que sobreviviam, desembarcavam feridos pelas correntes de ferro, assados nos próprios excrementos e suor. Uma vez escreveu o Santo: Abrimos caminho até chegar onde estavam os doentes. Havia muitos, largados no chão úmido e enlameado, mal forrado com agudos pedaços de tijolos e cacos de telha. Esta era a cama deles, despidos, sem nenhum trapo para se protegerem. Tiramos os mantos e fomos buscar tábuas para improvisar um estrado, onde colocamos, levando nos braços, os doentes…

Bom samaritano, Pedro e seus ajudantes, africanos intérpretes de várias línguas, cuidava de levar laranjas, limões, bananas e comida para fortalecer o corpo, antes de cuidar das almas, falando de Jesus por amor deles crucificado, como eles desprezado e atormentado, mas Ressuscitado. Uma vez um médico, chegando de surpresa, o viu beijando as chagas gangrenadas de uma pobre e velha escrava, para mostrar-lhe, não por palavras, mas por gestos, o quanto era ela figura de Jesus Cristo nosso Senhor.

Ele morreu, depois de longa doença, no dia 14 de setembro de 1614. Neste dia se celebra sua memória litúrgica, e, na Missa, assim reza a Igreja Mãe: Senhor, que chamaste São Pedro Claver para ser escravos dos escravos, e o fortaleceste com admirável caridade e paciência, concedei-nos, por sua intercessão, que procuremos o que é de Jesus Cristo e amemos o próximo com obras e verdade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que convosco vive, na unidade do Espírito Santo. *

* São Pedro Claver e a libertação dos escravos, R. Paiva, SJ, Edições Loyola / SP, 1984