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Treze Santos: O compositor da Salve Rainha: Ermano, o Estropiado (1ª Parte)

ERMANO, O ALEIJADO

A dor não é infelicidade – (1013-1054)
1ª parte

ReichenauSanto Agostinho morreu em 430. Passados cerca de 600 anos, nasceu Ermano Von Reicheneau, de quem vamos falar. Contudo, há um curioso laço entre eles: um livro, escrito antes de Cristo pelo pagão Marco Túlio Cícero. Este livro foi lido e relido por Agostinho e foi também um dos preferidos do pequeno aleijado, Ermano.

Deste livro só conhecemos o título, pois se perdeu: “Hortênsio”. Na obra de outros autores podemos ler algumas citações, desta obra, que escrita há mais de dois mil anos, quinhentos anos depois de ser publicada acendeu visões na alma do homem que devia dar à Europa ocidental uma nova alma e que, quinhentos anos mais, fez preciosa companhia a Ermano, até seu leito de morte.

No dia 18 de julho de 1013, Eltrude, esposa de Godofredo, conde de Altshausen da Suábia, deu à luz um menino. Os esposos pertenciam a conhecidas famílias de fidalgos, cruzados e altos prelados, notabilidades que continuamente se repetem em suas árvores genealógicas. No entanto, não se guardou memória duradoura de nenhum deles, apenas deste pequeno, que veio ao mundo com uma grande deformidade.

Por isso foi apelidado de “o Aleijado”, tanto era retorcido e contraído. Não podia manter-se de pé nem caminhar. Tinha de ficar sentado numa cadeira especialmente feita para ele. Seus dedos eram tão débeis e retraídos que não podia escrever. Os lábios e o palato eram deformados, a tal ponto que suas palavras eram muito difíceis de entender-se.

Num mundo pagão teria sido, sem hesitação, abandonado para morrer, apenas nascido. Os pagãos contemporâneos, sobretudo sabendo que Ermano era um de 15 filhos, declarariam que ele não deveria ter nascido e afirmariam que tal aborto deveria ser eliminado sem dor. E insistiriam calorosamente em sua tese, quando forem informados que os competentes de 900 anos atrás o declararam “deficiente”.

Mas o que fizeram aqueles pobrezinhos, ainda mergulhados no que nós temos o mau gosto de chamar “idade das trevas”? Mandaram-no a um mosteiro e rezaram por ele.

Se vocês se recordam do que lhes disse a propósito de Santo Antão, devem estar lembrados também que foram os mosteiros a recolher e desenvolver quanto foi possível salvar da antiga cultura. Na Alemanha, esta cultura dos dias passados, não somente do sul latino, mas também da Irlanda e da Inglaterra (São Bonifácio, apóstolo da Alemanha, era de Devonshire) era largamente difusa até entre o povo.

A dificuldade da cultura latina era suavizada por agradáveis elementos da cultura germânica. Havia traduções para o alemão dos evangelhos, e os sermões eram em alemão. Pode-se dizer que os grandes nomes da civilização greco-latina chegavam, pelos púlpitos, a todos os ouvidos.

Estas fontes, os mosteiros, como São Gallo, Fulda e Reichenau, que possuíam grandes bibliotecas, se juntavam às escolas imperiais. Deste modo, Bruno, irmão do Imperador Oto, não desdenhava ser professor. Pode-se dizer que todo estudante era também educador. Quem dera fosse hoje também assim ou estivéssemos nestas condições!

Seja permitido ainda notar que esta não era uma cultura exclusivamente masculina: a monja Hrotswitha de Gaudeshein tinha como abadessa a professora de literatura clássica, sobrinha do Imperador Oto. Ela mesma escreveu vários gêneros, inclusive comédias, uma das quais foi posta em cena na Inglaterra do século 20, diante de um público vivamente interessado.

Foi para um destes mosteiros que foi enviado o monstrinho deficiente. Reichenau se mostrava sobre uma deliciosa ilhota no lago de Constança, onde o Reno corre impetuoso para suas cataratas. O mosteiro fora fundado duzentos anos, ainda antes do Imperador Carlos Magno. Sobre a estrada principal, na margem que lhe era fronteira, passavam, continuamente, viajantes italianos, gregos, irlandeses e mesmo islandeses.

Seus muros abrigavam estudiosos de fama e uma escola de pintura. Ainda existem pinturas do século 10, como a de Orbezell, e do 11, como as de Niederzel, executadas por monges que se ainda não tinham a mão de Fra Angélico, possuíam um coração semelhante.

Neste ambiente cresceu o menino Ermano. Aquele rapazinho que mal podia balbuciar umas poucas palavras com sua língua presa, alcançou, talvez devido a alguma psicoterapia religiosa, que sua mente se abrisse.

Ciryl Martindale, SJ