Treze Santos: O compositor da Salve Rainha: Ermano, o Estropiado (1ª Parte)
abril 27, 2013
Treze Santos: O compositor da Salve Rainha – Ermano, o Estropiado (conclusão)
abril 27, 2013

Treze Santos: O compositor da Salve Rainha – Ermano, o Estropiado (2ª Parte)

A dor não é infelicidade – (1013-1054)
2ª parte

salmos_mongesEm nenhum momento de sua vida, Ermano pôde sentir-se cômodo, ou, pelo menos, livre da dor. Mas quais são os adjetivos que vemos aparecer nas páginas a ele dedicadas pelos antigos cronistas? Traduzo-as da biografia latina: “agradável, amável, afável, sempre risonho, tolerante, alegre, sempre esforçado, de trato gentil com todos”. Como resultado, era “benquisto por todos”.

Este jovem corajoso, que jamais se deitou ou ficou de pé, sempre preso à sua cadeira, que nunca esteve confortável, sem nunca ter deixado de sentir dores, aprendeu matemática, grego, latim, árabe, astronomia e música. Escreveu um tratado sobre astrolábios, os instrumentos essenciais das novas navegações do seu tempo. Eles serviam para encontrar o equador e para medir a distância entre as estrelas.
No prefácio escreveu:
“Ermano, o menor dos pobrezinhos de Cristo e diletante dos filósofos, o seguidor mais lento do asno (…) devido ao pedido de muitos amigos (sim, todos lhe queriam bem!) foi levado a escrever este tratado científico. Tenho sempre procurado poupar-me este esforço, com todo o tipo de pretextos, mas, na verdade, apenas por minha massiva preguiça”.
Então, porém, podia dedicar ao amigo este livro sobre a teoria geral deste tema, acrescentando que, se aprouvesse ao amigo, empreenderia tratar, em seguida, das linhas práticas e dos particulares.
E vocês acreditem que, com seus dedos disformes, o indomável jovem conseguiu fazer astrolábios, relógios e instrumentos musicais. Nunca ficou derrotado, nunca ocioso. Quanto à música (quem dera que nossos músicos contemporâneos lessem suas palavras!), ele afirmava que um bom músico deveria ser capaz de compor um motivo passável, ou ao menos julgá-lo passável, e, depois, cantá-lo.
Em geral, comentava, os cantores pensam apenas em cantar e não refletem nunca. Cantam, ou melhor, se esgoelam, sem cair em conta que ninguém pode cantar bem se sua mente não está em harmonia com sua voz. Para tais cantores “tubo de órgão”, uma voz poderosa é tudo o que conta! Isto é pior do que fazem os asnos que fazem bastante barulho, mas, pelo menos, não alternam latido com mugido.
Ninguém, acrescentava, tolera erros gramaticais, e, no entanto, as regras da gramática são artificiais, enquanto que “a música brota diretamente da natureza”. Na música, os seres humanos não apenas deixam de carregar seus erros, mas chegam a ponto de serem livres.
Como se vê, o alegre pequeno estropiado sabia, a seu tempo, usar uma linguagem muito irônica! Por outro lado é quase certo que foi ele o compositor da “Salve Rainha”, com seu característico canto “fermo”, que ainda hoje ressoa em todas as igrejas católicas do mundo, da “Alma Redemptoris Mater” e outras melodias.