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Treze Santos: O compositor da Salve Rainha – Ermano, o Estropiado (conclusão)

A dor não é infelicidade (1013-1054)
Conclusão

SaoBento

São Bento, Pai dos Monges do Ocidente

Ermano era dotado de um cérebro ativo e vigoroso. Conhecia as tradições das mais importantes famílias do seu tempo. Tinha acesso a muitos livros que hoje não conhecemos, por causa das destruições dos séculos seguintes. Escreveu uma “Crônica” da história mundial, desde Cristo até o seu tempo. Uma obra que mereceu grandes elogios dos estudiosos da época. Eles a consideraram extraordinariamente acurada, fundada sobre as tradições, mas objetiva e original.

Imaginamos este monge aleijado, em sua cela mas cheio de vivacidade, com olhos abertos para acompanhar a vida do mundo, com um olhar nunca cínico, jamais cruel, como acontece muitas vezes em casos de duros sofrimentos, capaz de traçar um quadro completo das correntes da vida européia,

Chegou o momento de sua morte. Deixou a seu amigo e biógrafo, Bertoldo, descrevê-lo:

“Quando, finalmente, a amorosa benignidade do Senhor se dignou a libertar sua santa alma da tediosa prisão deste mundo, ele foi tomado pela pleurite, passando quase dez dias em grande sofrimento. Um dia, nas primeiras horas da manhã, logo depois da Santa Missa, eu, que ele tinha como seu mais íntimo amigo, fui visitá-lo e lhe perguntei se se sentia um pouco melhor. Respondeu-me: ‘Não me perguntes isto, não! Escuta-me bem! Morrerei certamente em breve. Não viverei. Não ficarei curado’, insistiu”.

Bertoldo conta que o paciente lhe disse que, na noite anterior, lhe tinha ocorrido tentar ler aquele famoso livro, “Hortênsio” de Cícero, com muitas sábias observações sobre o bem e sobre o mal. Tinham-lhe vinda à mente muitas coisas que desejaria escrever sobre o mesmo assunto:

“Sob a forte inspiração daquela leitura, todo o mundo presente e tudo o que ele contém, mesmo a própria vida mortal, tudo me pareceu mesquinho e tedioso. Por outro lado, o mundo futuro, que não terá fim, e a vida eterna me pareceram desejáveis e preciosos. Assim considero todas as coisas passageiras como a impalpável cinza dos cardos”.

Ouvindo estas palavras de Ermano, Bertoldo não pôde conter-se e começou a chorar e soluçar. Mas Ermano, um tanto indignado, o censurou, “tremendo um pouco de ira e olhando-me com ar de quem se maravilha”:

“Amigo do peito, não chores, não chores por mim!”

Em seguida pediu a prancheta para escrever e anotar algumas últimas palavras:

“Recordando todos os dias que tu também irás morrer, prepara-te com toda a energia para empreender a mesma viagem, porque num dia e numa hora, que não conheces, virás comigo, amigo, querido amigo!”

Foram estas suas últimas palavras,

Ermano morreu, rodeado de amigos, depois de ter recebido o Corpo e o Sangue de Cristo na santa comunhão, no dia 24 de setembro e foi sepultado, ele, o obscuro monge, “em meio a grandes lamentos”, nas suas terras de Altshausem, às quais, há muito, havia renunciado.

A primeira vez que sua vida me caiu nas mãos foi num velho texto latino, todo enrugado, na biblioteca da Universidade de Oxford. Foi, para mim, um sopro de brisa muito pura, dissipando o ar pesado da sala, enchendo-a de perfume e frescor.

A “Vida”, escrita por Bertoldo, é cheia de vida pulsante. Ermano surge de suas paginas verdadeiramente vivo! Não porque soubesse escrever sobre teoria da música e da matemática, nem porque soube trabalhar minuciosas crônicas históricas, lendo tantas diferentes línguas, mas por sua coragem, pela beleza de sua alma, sua serenidade diante da dor, sua prontidão em brincar e rir, a brandura de seus modos, que o fizeram “amado por todos”.

Peço-lhes que não dêem crédito de que um corpo enfermo produz sempre uma mente enferma e que a robustez física deve ser nossa principal preocupação, se quisermos ser bons cidadãos, que o bem estar físico, além de desejável, é absolutamente indispensável para a felicidade (…) Estamos autorizados a duvidar que as características mentais e morais sejam hereditárias.

Na verdade, cuidar bem do corpo é importante, mas subordinado. Educar a mente é o principal. E esta educação se funda em dois elementos essenciais: o amor e a religião, os dois estreitamente ligados. Neste pobre e contorcido homenzinho da Idade Média, brilha o triunfo da fé, que inspirou o amor, e do amor, que foi leal à fé professada, Ermano nos dá a prova que a dor não significa infelicidade, nem o prazer, felicidade.