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Treze Santos: o Santo Cura D’Ars

SÃO JOÃO BATISTA VIANNEY – O CURA D’ARS
Que coisa quer dizer “ser Padre”
(1786-1859)
 
curadarnsNota do tradutor: “Cura” é o título que se dá a um padre que fica encarregado de um grupo populacional tão pequeno, em geral remoto, que não tem condições de constituir uma paróquia. Ars era um povoado nas montanhas do sul da França. Hoje, graças a seu santo, é uma simpática cidade, centro de peregrinações.
Este talvez seja o santo que nos deixe mais assombrados, só porque não é fácil descobrir alguma explicação natural para que as coisas tenham ocorrido como ocorreram. João Batista era o quarto filho de um sitiante do povoado de Dardilly, a norte de Lião. Os camponeses de França costumam ser, em primeiro lugar, pessoas realistas. Observam, entendem e se servem da terra, tratam dos animais, regulando sua reprodução. Quando são religiosos, consideram as doutrinas como tão concretos como outra qualquer coisa. Pelo menos era assim até que sucessivas revoluções sacudiram o mundo e uma constante de educação ateísta, imprensa vulgar e, finalmente a mídia contemporânea criaram uma grande confusão.
A Grande Revolução Francesa de 1789 logo fechou as igrejas, aboliu os sinos, perseguir os sacerdotes e, quando os encontrou, mandou-os para serem degolados na guilhotina. Como disse Augusto Comte, Deus foi mandado para fora do país sem sequer um agradecimento pelos serviços prestados no intervalo de tempo que o filósofo lhe dava para ter existido. Apenas alguns padres, em grande segredo, celebravam a Missa em algum celeiro, em alguma grota, mas João Batista só pode fazer a Primeira Comunhão quando tinha doze anos. Apenas em 1800 as igrejas foram reabertas. Deus sempre volta.
O garoto cresceu piedoso, mas um tanto lento no aprendizado das letras. Tornou-se um rapaz do interior, lavrador, forte, ossudo, desengonçado. Aos dezenove anos lhe foi concedido viver na companhia de um homem admirável, o Padre Balley, que haveria de prepará-lo para fazer-se sacerdote. Mas parecia que nenhum conhecimento escolar poderia entra naquela cabeça dura. Então, João Batista começou a rezar e a jejuar. As duas práticas limpam os olhos da alma e, portanto, têm efeitos sobre a inteligência.
Naqueles anos, Napoleão se preparava para jogar toda a Europa em novas desordens. No ano de 1809, João Batista foi convocado para o serviço militar. Atendeu ao chamado, mas adoeceu, foi internado num hospital e, assim, não pôde juntar-se a seu regimento e foi declarado desertor. Um juiz, contrário ao regime napoleônico, o protegeu e o manteve em sua própria casa, com pequenos encargos. Finalmente, os pais conseguiram sua liberação, em troca do alistamento de um irmão menor. Foi então que ele pôde entrar no seminário, na expectativa de terminar os estudos e ser ordenado padre.
Com muita dificuldade de estudos, não conseguia dominar o latim, a teologia moral, etc. Foi reprovado e mandado para casa. Mas o seu amigo, Balley, conseguiu que ele passasse nos exames e ele foi ordenado  exatamente dois meses antes da famosa batalha de Waterloo, onde Napoleão foi derrotado e forçado a deixar o trono imperial da França. O país retornou à monarquia sob o rei Luís XVIII.
Foi ordenado porque pensaram que podia ser aproveitado como um padre do interior, onde não se precisava de um erudito. Por três anos foi vigário do Padre Balley e logo se manifestou aquele certo instinto que nos permite reconhecer a santidade. Todos queriam ouvir as pregações daquele padrezinho, que ficava aterrorizado, e todos se queriam confessar com ele, que, contudo, por muito tempo, não teve licença para ouvir confissões.
Tinha 32 anos, quando foi designado cura do povoado de Ars, um lugarejo adormecido no mais distante ângulo da região, mas que, ele disse, num impulso profético, que não poderia acolher todos que o iriam procurar.
O refluxo de todo período de agitação é um tempo de apatia.  Os católicos de Ars, privados há muito de sacerdotes e de educação, eram grosseiramente ignorantes. Compensavam sua vida de trabalho duro com a embriaguez. Tinham o mau costume de blasfemar. Seus bailes acabavam em conseqüências desastrosas. Mas todos foram gentis com o novo cura, sem esperar grande coisa dele. No entanto, receberam muito.
Subia ao púlpito, com sua testa larga e alta, olhos fundos, azuis, cintilantes, com olhar penetrante, um sorriso de criança e duas grandes mãos ossudas, freqüentemente unidas em prece. Com grande fadiga preparava suas pregações, mas não recitava nenhuma frase. Definiu-se a eloqüência como a arte de dizer alguma coisa às pessoas. Ele, tudo o que dizia, “dizia” de verdade. E tudo era “alguma coisa” dita a “alguém”. O resultado era que todos podiam citar fragmentos de seus sermões, mas nenhum deles, lido por inteiro, era mais do que um conjunto de frases ditas e reditas: “Meu Deus, vede quanto te amo! Mas não te amo bastante! Nós veremos Deus: tende pensado nisto? Nós o veremos! Nós o veremos!”.
Mas as coisas ditas e reditas são as mais profundas. Somos tão avessos a senti-las que nos parecem vazias. As verdades que contêm são, para nós, como o ar invisível, que respiramos sem nos darmos conta. Padre João Batista, pelo contrário, nelas fazia saltar a verdade íntima. Tudo quanto dizia tinha, para ele, um significado ilimitado. Não eram fórmulas feitas, lugares comuns. Ele tencionava dizer o máximo que suas palavras podiam significar e ninguém duvidava do que ele dizia: todos respondiam à sua mensagem.
Havendo mordido a idéia de que ser padre significa sacrificar inteiramente a própria vida em favor dos outros por amor a Cristo, ele a colocou em prática. Vianney era um perfeito realista: tomava as palavras pelo seu valor estrito. Pouco a pouco a mobília foi desaparecendo de sua casa. Dormia sobre dois bancos. Cozinhava batatas que julgava suficientes para uma semana: comia duas no almoço e duas à noite. Algumas vezes, um ovo; outras vezes, uma fatia de pão preto. E não me venham dizer: Mas é um pecado tratar-se deste modo! Deste modo ele viveu até os 73 anos, trabalhando desde manhã até a noite. E precisam ver o que significava para ele “de manhã até a noite”!
Mas, depois de dez anos, o povoado e arredores estava tão mudado que o Padre João Batista podia exclamar: Ars não é mais Ars! E ali havia muita felicidade! Os trabalhadores rurais e os diaristas eram tratados com mais dignidade e se lhes concedia o justo repouso. Não podem imaginar a que grau de escravidão se pode chegar em lugares tão remotos! Uma outra verdadeira tragédia, quando não seja, antes de tudo, grotesca, sucede quando no campo se quer copiar a vida das grandes cidades, acreditando que assim se progride.
Peço que recordem que uma transformação deste grau não é coisa fácil. Havia os que tinham interesse em que se embriagassem em suas tabernas. Havia rapazes enraivecidos porque as moças começaram a se recusar a eles. Havia outras moças que ganhavam a vida vendendo o próprio corpo. Todos estes atacaram o Padre Vianney com insultos baixos. Ele, por sua vez, dentro de si, continuava a lutar contra si mesmo. E a conquista aconteceu!
Ele começou a ser conhecido, procurado, convidado daqui e dali. Todos se assombravam. Quando ele afirmava coisas já gastas pela repetição, elas se tornavam vivas, flamejantes, fulgurantes. No confessionário era evidente que ele, simplesmente, lia os corações. Não apenas percebia que coisa o penitente queria dizer realmente, mas também conhecia, até os pormenores, o que permanecia silenciado. Não era fácil enganá-lo. Tinha a agudeza do homem do campo. E, conforme o caso, sabia dizer uma palavra surpreendente. Certa vez, disse a um homem que se envaidecia do seu belo cão de caça e de sua arma: É um verdadeiro pecado que vossa alma não seja tão bela quanto o vosso cão. O homem ficou espantado, mas, depois, pensando melhor, foi limpar sua consciência e, sentindo que Deus o chamava a fazer-se monge trapista, assim o fez
O inacreditável aconteceu. Sem uma linha de publicidade ou propaganda, sem efeitos especiais, o mundo tomou conhecimento do Padre João Batista Vianney. Toda a França mandou multidão de peregrinos a Ars. Veio gente até do outro lado do mar. O governo teve de colocar uma linha de trem para as montanhas, antes esquecidas, e de organizar serviços públicos como correios. Cada casa se transformou em hospedaria e restaurante.
E esta é a crônica de sua jornada: ele se levantava à uma hora da madrugada. Rezava sozinho na igreja, onde, cedinho começava a confessar as mulheres até as seis, quando celebrava a Missa, permanecendo depois à disposição de todos até as oito, quando ia tomar um pouco de leite na Casa da Providência, que ele mesmo havia organizado. Às oito e meia dava início às confissões dos homens, até as onze, hora da catequese das crianças. Ao meio-dia, demorava uns quinze minutos para atravessar a pracinha, lotada de gente, até chegar a casa para comer, de pé, duas batatas, sempre cercado de pessoas que lhe queriam falar. Depois voltava a confessar as mulheres até às cinco da tarde e, em seguida, os homens, até às oito da noite. Então, presidia as orações da noite, durante as quais pregava. Voltava a rezar e confessar até quase meia-noite, quando se recolhia para seu brevíssimo sono, até a uma! E isto por trinta anos!
Naturalmente, fizeram-lhe inúmeras críticas, também entre os outros padres mais tradicionalistas, e críticas ferozes. O mais maravilhoso e desconcertante é que, na sua humildade, dava perfeita razão a todos os que falavam mal dele. O que este homem, cercado de multidões até quase sua hora da morte, a única cosa, repito, que mais desejava era a solidão. Estava certo de não saber dar direção espiritual. Quando tinha 59 anos, convencido de que o trabalho a fazer o superava, pediu um coadjutor. Enviaram-lhe um senhorzinho presunçoso e bem vestido, que, depois de oito anos de perseguição, embora involuntária, ao Padre Vianney, teve, por pressão popular, de pedir transferência.
Contudo, Vianney estava tão persuadido da própria incapacidade que tentou , mais de uma vez, fugir. Mas teve de voltar. Fizeram-no cônego. O Marquês de Castelane obteve do Ministério da Educação francês que o recomendasse ao Imperador Napoleão III para que lhe fosse conferida a Legião de Honra. A condecoração lhe foi concedida, mas ele não se moveu nem para assumir o canonicato nem para ser condecorado.
Envelhecido e quase transparente, passava cerca de dezesseis horas cada dia ao confessionário, onde se apresentavam filas e mais filas de gente simples e de cientistas, literatos, personalidades do mundo das altas finanças. Agora dormia dia sim, dia não um par de horas a cada vinte e quatro.
No dia 18 de julho de 1859, anunciou que, no fim deste mês ou no começo do próximo, morreria. E acrescentou: Não digam isto a ninguém!Viriam todos a confessar-se e não tenho mais forças. No dia 29, teve vários desmaios e, finalmente, consentiu que o fizessem deitar e até aceitou um colchão que alguém lhe arranjou. Disse: É meu pobre fim! Ainda viveu mais quatro dias, recebeu os últimos sacramentos e se extinguiu às duas da madrugada, sem sinal de agonia, quando o jovem sacerdote, que lia as preces pelos agonizantes, dizia: Que venham os santos Anjos do céu a seu encontro e o conduzam à cidade celeste.
 
Sei lá quantas histórias se inventam sobre os padres e sua vocação: ou são prepotentes ou são sem fibra; nenhum compromisso é bastante baixo para eles; são ignorantes; são refinados malandros; vivem no mundo da lua; são gananciosos e hábeis em conseguir dinheiro. E assim por diante: tudo de contrário que se possa imaginar. Não importa. Os primeiros a reconhecer que estão muito abaixo do próprio ideal são os mesmos padres. E se quiserem saber minha opinião, eu lhes diria que são homens simples que trabalham o melhor que podem, sem interrupções, com grandes sacrifícios, como é justo que seja. Mas posso acrescentar que em quase todas as residências sacerdotais, em que me sucedeu entrar, encontrei em algum lugar a imagem de João Batista Vianney, o Cura d’Ars, com suas faces escavadas, como que cansado, e o largo sorriso, meio infantil, meio angélico.
 
Assim temos o nosso modelo para estes dias. Temos um homem no qual homens de todas as religiões podem conhecer o altruísmo encarnado. Podem negar todas as doutrinas nas quais ele acreditava, mas não podem deixar de sentir gratidão porque um homem destes tenha existido.
Todos nós, padres, somos convidados (tenhamos recebido ou não a graça de aceitar o convite) a copiar sua total renúncia ao culto do próprio eu, sua assombrosa dedicação ao próximo, sua transformação em Cristo. Algumas vezes, durante a celebração da Missa, cada dia, os celebrantes dizem aos fiéis: “O Senhor esteja convosco!” E eles respondem: “Ele está no meio de nós!” Possam suas preces e as do Santo Cura d’Ars por seus co-irmãos serem verdadeiramente ouvidas e respondidas.
João Batista empenhou-se em sua vida em ser um padre perfeito. Também São João Bosco foi um padre, mas sua atividade se deu no campo que mais preocupa nosso mundo: o problema social, o cuidado e a formação dos jovens. A diferença entre ele e os filantropos, assistentes e educadores sociais “naturalistas” está precisamente no fato que ele erigiu toda a sua obra nos fundamentos da fé. Donde a diversidade dos resultados. Sua influência se mostra mais durável. Os resultados totais se revelaram alguma coisa de imensamente mais elevado, mais puro, mais espiritual do que as realizações de pessoas  que, ou excluíram definitivamente Deus de suas tarefas, ou foram incapazes de alcançar, apoiar=se e (ouso dizer) utilizar Deus como fez Dom Bosco.
Podemos facilmente observar, hoje ainda, os dois sistemas divergentes: o cristão católico e o “laicista”. Estudando a personalidade de homens como Dom Bosco, devemos estar em condições de nos dar conta de porque o método laicista sempre acaba mal. Somos tentados em pensar que, quando os governos se esforçam tão tenazmente em laicizar a política, a educação, as reformas sociais e tudo o mais, são como que empurrados por Deus para a própria ruína, para que possam dar-se conta da verdade dos fatos e arrepender-se, ou que, pelo menos, assim possam fazer seus sucessores.
Mas não! Deus não nos empurra para tanta loucura, tal suicídio. No entanto, se não quisermos aprender, ninguém pode prever quanto durará o estado sem conhecimento de Deus, atuando neste sentido (a silenciar na escola oficial sem Deus) a catástrofe ocorrerá de novo e teremos de ser testemunhas de uma sempre crescente corrupção, sede de domínio, guerras, desagregação.