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Treze Santos: Santo Agostinho – O Colosso na Antiguidade (conclusão)
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Treze Santos – Santo Agostinho – 1ª parte

Santo Agostinho – O Colosso na Encruzilhada (354-430)

Um africano, cidadão do mundo
stoagostinhoNinguém pode se dar conta verdadeiramente de como surgiu o mundo atual se nada souber a respeito deste homem do qual vamos falar. Agostinho viveu num momento quando a civilização, que mantivera o mundo unido estava desmoronando, ainda mais totalmente do que está ocorrendo com a nossa. Foi ele um homem do seu mundo, mas igualmente um homem do mundo que o precedia e do mundo que ia seguir-se. Se não fosse Agostinho, Deus sabe em que estado de barbárie nos encontraríamos agora.
Ele nasceu na África do norte, em Tagaste, na atual Tunísia, no dia 13 de novembro de 354. Sua mãe era cristã. Seu pai, pagão. O menino cresceu, sem batismo, com uma ideia confusa de Deus, como de um ente supremo, vivendo além deste mundo, ideia à qual acrescentava um vago respeito ao Nome de Jesus.
Conhecemos gente como o jovem Agostinho
Permaneceu muito tempo sem uma verdadeira religião. Gostava do jogo. Detestava dor. Era fascinado pela beleza da literatura latina. A generosidade de amigos ajudou seus estudos na universidade de Cartago.
Ali ele perdeu todo freio. Fez parte de um bando de estudantes – os “Eversores”, isto é, os “Subversivos”. Fiquem certos que um bando deste tipo numa cidade da província africana naquele século não se parecia em nada com um grupo de garotões, um tanto turbulentos, que vão cantando pelas ruas e atirando pedras às lâmpadas.
Ele se considerava “tolo, se inocente; ridículo, se criança; e sua maior vergonha era sentir vergonha”. Nesta extraordinária cidade, onde o conhecimento era tido em grande honra, inclusive pelos cocheiros, onde igual tributo de admiração era pago aos ritos pagãos e às dançarinas, onde eram exibidos gorilas capturados no interior do continente e mulheres das tribos das selvas, monstros marinhos e sereias, ele continuou a gozar a vida, com maus costumes, até que se enamorou de uma jovem, permanecendo quinze anos seu amante fiel.
Eu não a desprezo, nem ele a desprezou. A fidelidade é uma grande coisa, tanto maior nestes nossos tempos de rápidas conquistas e de rápidos abandonos.
Contudo, ele começava a ter desgosto da sua vida desordenada. A mesma força de seu amor foi fonte de ciúmes, suspeitas e temores. Começou a detestá-lo. A partir de então este jovem atormentado rezava: “Dá-me a castidade, mas ainda não agora!”
Mônica
Sua mãe, Mônica, uma das personagens mais delicadas que a história nos legou, rezava por ele. Um velho Bispo, cheio de sabedoria, lhe disse: “Não pode ficar perdido um filho de tantas lágrimas”.
“Hortênsio”
Um livro, sobre o qual ainda falaremos, o “Hortênsio” de Cícero, um tratado pagão sobre a virtude e o vício, fez Agostinho compreender que existe algo, uma certa constância de caráter, que vale mais do que as paixões tempestuosas.
Inicialmente, desesperando de chegar a conseguir a vitória sobre si mesmo, aderiu à seita dos maniqueus. Eles ensinavam que a matéria, o corpo, embora essenciais à nossa natureza, era má em si mesma.
Um gravíssimo insulto ao Criador, que disse que era “bom” tudo quanto tinha sido criado. Mas, por enquanto, esta teoria lhe permitia dizer que não era ele quem pecava, mas, propriamente, o seu corpo… Depois iria descobrir que nossa vontade vale bem mais do que ele, então, pensava.
Nesta época, pronunciou um brilhante discurso contra a crueldade dos circos romanos, e observou que seu amigo, Alípio, depois de ouvi-lo, tinha deixado de freqüentar estes sanguinolentos espetáculos. Mas ele mesmo não pôde ficar distante deles.
Deixou a África e a vulgaridade dos costumes locais, acreditando que em Roma encontraria mais seriedade. Abriu uma escola de retórica, a arte de bem falar. Mas não conseguia que seus alunos pagassem, e obteve um lugar em Milão. Mas também lá, o vazio de sua vida (imaginem só ganhar a vida ensinando outros a discursar!) o desgostava. Recaiu no agnosticismo: parecia-lhe que o mais sábio era duvidar de tudo. Deste estado de desespero – com efeito, para onde ir, o que fazer, se tudo tem a mesma probabilidade de estar certo e de estar errado? – duas coisas o salvaram: as doutrinas místicas do filósofo grego Platão e a fascinante personalidade de Santo Ambrósio.
Entre os dois, seu coração balançava
Atraído por dois lados, pensava que devia ou fazer-se cristão “ou qualquer outra coisa”. Mas que outra coisa? Não encontrava resposta. As suas duas vontades, uma “velha”, como escreveu, e outra “nova, esta do espírito, aquela da carne, combatiam asperamente entre elas e minha alma estava na angústia”.
Alguém lhe recomendou que lesse a vida de Santo Antão. Ele comentou:
“E tu, Senhor, nas suas palavras voltaste-me para mim mesmo (…) colocaste-me defronte a mim mesmo para que eu visse como eu era sórdido, disforme, sujo, cheio de chagas e úlceras. Se tentava escapar a teus olhos, o leitor continuando a leitura, tu, novamente, me punhas diante de mim mesmo (…) e eis que veio o dia no qual me vi nu a meus próprios olhos (…) Interiormente dizia: ‘Vamos! Tomemos logo a decisão!’
Enquanto falava eu me dispunha a decidir. Mas não me decidia verdadeiramente. Orientava-me, mas não completamente. Estava à beira da decisão e tomava fôlego. De novo me empenhava e quase, quase, tocava a meta, a tocava, mas ainda não estava lá, não a tocava, hesitando morrer à morte.
Aquelas vaidades, os meus antigos amores, continuavam atraindo-me disfarçadamente pela minha veste carnal e diziam mansamente para mim: ‘Queres deixar-nos? A partir de então isto e mais aquilo não lhe será permitido para sempre!’
Mas, do outro lado, parecia que o exército dos castos, dos fortes, argumentava: ‘Não podes o que pudemos?’ E sentia constantemente estas palavras.
“Toma e lê!”
Um dia, estando no jardim, sentindo-me desesperado, ouvi uma voz de criança que cantava: ‘Pega e lê! Pega e lê!’
Abrindo as Escrituras, os olhos deram com estas palavras: ‘ Não nos gozos vulgares, nem na bebedeira e na impureza, mas revesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo e não vos preocupeis da carne e de seus maus desejos”.
O milagre se cumpriu de improviso e com calma. Agostinho, um homem mudado, foi batizado em 378. Mônica estava com ele. Mais algum tempo, foi ordenado sacerdote. Adiante, tornou-se Bispo de Hipona, na África do norte (atual Tunísia), diocese próxima de Cartago.
Sua morte
Ali, em 1930, celebraram-se os 500 anos de sua morte. Foi um acontecimento esplêndido! Veio gente, literalmente, de toda parte do mundo, não só cristãos, mas também muçulmanos.
Não pude ir lá, porque estava doente, mas me senti recompensado quando, um ano depois, pude falar sobre ele numa igreja na África do Sul que o tinha como patrono. Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, com o olhar fixo numa grande cópia dos Salmos penitenciais, que ele fizera colocar diante de si.
Enquanto agonizava, seu mundo se dissolvia. Hipona estava sitiada pelos vândalos, povo bárbaro que a ocupou logo depois de sua morte. Falo seriamente, quando afirmo que aquele mundo teria permanecido mergulhado na barbárie, se não fosse sua influência. O que significa esta minha afirmação?
Recordo-lhes que o Ocidente – Roma e o Império Romano do Ocidente – estava se destacando sempre mais do Oriente, isto é, de Constantinopla. As riquezas, os estudos, a glória mundana e o poder político pareciam concentrar-se ali, no lado grego do Império. E, praticamente, até então, toda a obra intelectual do cristianismo tinha sido, primeiro, pensada e, depois, expressa em grego.
Muitos estudiosos no Ocidente tinham se empenhado em traduzir o patrimônio espiritual grego par ao latim. Mas foi Agostinho, homem de maravilhosa inteligência e memória, que não só leu tudo quanto lhe caía nas mãos, mas recordou tudo e o exprimiu em magnífico latim. Ele ensinou aos cristãos a não temer o melhor legado dos pagãos. Com Santo Antão e São Bento foi, verdadeiramente, cabeça de uma série de escolas, que educaram a Europa ocidental e de toda uma série de obras primas da literatura e do pensamento, que sem ele não teriam existido. Naturalmente, os séculos seguintes desenvolveram e corrigiram suas idéias. Mas sem elas não teriam, provavelmente, aprendido a pensar.
Três pontos
Sou obrigado a selecionar três pontos para expor a respeito de Santo Agostinho. Primeiro: se há uma coisa que vocês estimam é a própria vontade pessoal: a força de vontade, e não apenas a capacidade de fazer escolhas. Vocês sabem que não são máquinas e sofrem profundamente quando se sentem escravos das circunstâncias. Agostinho, mais do que qualquer outro, deu ao mundo cristão uma doutrina pronta sobre a força de vontade. Talvez não como vocês pensam. Ele, em diante a intensidade de sua mesma vida, demonstrou quanto pode ser forte a vontade humana, mas provou por experiência e pregou insistentemente, que a vontade humana sozinha é muito frágil, se não for ajudada pela graça de Deus.
Há muito que nossa pobre natureza humana jamais alcançará por si só. Nunca poderá, contanto apenas consigo mesma, elevar-se até mergulhar no amor sobrenatural de Deus, atingir a união com Deus, à felicidade em Deus, à qual a graça eleva.
Agostinho reconheceu duas coisas: ele deveria trabalhar incansavelmente com todas as forças de sua vontade, dom de Deus na natureza humana Deus. E que, sem o auxílio de Deus nunca teria pleno êxito. Por isso é sumamente necessário rezar. Ter contacto com Deus, conservar este contacto. Obter sua graça: “Sem mim – diz nosso Senhor – nada podeis fazer”.
Podemos fazer qualquer coisa, mas nada que nos faça percorrer todo o caminho por todo o tempo. Feita a soma, a diferença fundamental se coloca entre quem reza e quem não reza.
Cyril Martindale, SJ