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Treze Santos: Santo Agostinho – O Colosso na Antiguidade (conclusão)

Treze Santos: Santo Agostinho – O Colosso na Antiguidade (conclusão)

quarta-feira, 9 de junho de 2010 Ciryl Martindale

 SANTO AGOSTINHO

CirylMartindale, SJ

O segundo ponto é este: Agostinho viveu quando as coisas que pareciam eternas, o império romano e sua cultura, estavam a ponto de arruinar-se para sempre. O nome “vândalo” permaneceu entre nós a indicar uma pessoa que não tem sequer o mais elementar sentido do que é lícito e do que não é, de gente sem o menor senso de arte ou de civilização. Os vândalos foram uma daqueles povos nórdicos que invadiram, por toda parte, o Império. Nem mesmo Agostinho podia imaginar que alguma coisa pudesse ficar de pé. Pareceu-lhe o fim do mundo.
Nestes anos de crise, ele escreveu sua obra prima: “Civitas Dei”, a cidade, a nação, a civilização de Deus. Nenhuma revolução política ou social que possamos experimentar pode comparar-se, ainda que de longe, àquela em que ele se viu envolvido. Nem as riquezas, nem a ordem, nem as tradições, nem mesmo uma estrutura social ou política puderam salvar-se. Ele atravessou aqueles terríveis dias sem ser aniquilado e salvou sua época do total colapso, tornando possível o futuro.
Agostinho pôde fazer isto, porque tinha solidamente captado as verdades eternas da existência de Deus e da alam humana, do bem e do mal e de sua eternas conseqüências, sabendo manter-se fiel a um só eterno Rei, Cristo, e ao seu Reino indestrutível, servido pela Igreja, cuja Cabeça é Cristo.
Muito freqüentemente pensamos em fazer dispensáveis estas realidades. Contudo, apenas mediante elas, e de nenhuma outra maneira, podemos obter a salvação civil, social, moral e sobrenatural. Sem Deus, sem Cristo, sem o vivificante contacto com Ele, que só podemos ter pela oração e pelo sacrifício de nós mesmos, procuraremos inutilmente reedificar, ainda uma vez, uma nova civilização com velha sucata.
Por fim, Agostinho exercitou sua influência por todas as gerações como pessoa. Não só como quem experimentou, literalmente, tudo que os seres humanos possam provar e que comunicou-nos através das “Confissões” (talvez um dos livros que mais leitores tenha tido, com exceção dos Evangelhos e dos Salmos), mas como aquela pessoa que soube evitar que sua vida se tornasse um caos, somando todos os elementos num todo maravilhoso.
Porque, bem conhecendo as paixões que podemos experimentar, nada rejeitou do que havia em si, mas tudo recolheu, reorientou e aperfeiçoou, tudo dirigindo para Deus, Criador de tudo, o que pode extrair apenas o melhor de toda sua criatura: “Tu nos fizeste para Ti, e nosso coração anda inquieto, enquanto não encontra em Ti seu repouso”.
Foi precisamente no período caótico que se seguiu, que São Bento – este grande gênio criativo – viveu e morreu (480-543) e que personalidades de gigantesca estatura, como os papas Leão, o Grande, e Gregório, também o Grande, reergueram a Igreja (respectivamente até 461 e 604). Podemos afirmar sem temor de desmentidos que Gregório Magno foi a personalidade mais notável do seu tempo.
Em sua época, homens trabalhadores e doutos (como Santo Isidoro, morto em 636) procuraram conservar e transmitir à posteridade o que tinham podido salvar da ruína. Também foi um tempo marcado pela energia missionária. Baste recordar um pequeno grupo de nomes, com os quais o norte da Europa tem maior dívida: Agostinho de Cantuária (morto em 604), São Bonifácio (morto em 755), Santo Oscar (morto em 875), São Patrício (morto por volta de 464), São Albano (morto em 651), São Columbano (morto em 597). São Beda (morto em 735) talvez possa ser considerado a mais doce figura destes países do norte europeu, o “pai da História inglesa”.
Citei estes nomes quase ao acaso. Apenas para relembrar que se encontram figuras heróicas em qualquer dos séculos atormentados da vida da Europa adolescente. Possivelmente, os anos mais obscuros foram os que se passaram entre 750 e 950, por causa da violência generalizada no período de fato que a liderança da Igreja era, estava, literalmente, confiscada por aqueles que desejavam controlar a alta autoridade que cercavam os prelados e seus piores cortesãos.
Precisamente nesta hora, considerada a mais escura por muitos, nasceu Ermano, o Aleijado, de quem desejo falar a vocês. Na verdade, a escuridão nunca foi total e já surgiam as primeiras luzes da aurora.