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abril 27, 2013

Treze Santos: Santo Antão do Egito – depois da geração apostólica

Ciryl Martindale, SJ

1ª parte: depois da geração dos Apóstolos.

SantoAntãoDepois da dispersão e da morte dos apóstolos, quanto também São João já morrera, em avançada idade, uma nova geração de cristãos assumiu o dever da defesa da fé com seus escritos, de adorná-la com a santidade da própria vida, de glorificá-la na morte. Começou assim a geração dos “apologistas” e dos “mártires”, em alguns casos, os dois conjuntamente. Assim foi São Justino, morto em 167, escritor segundo sua consciência, defensor do “creio” e condenado exatamente por isto.

A raiz da perseguição foi sempre a exorbitância do poder imperial, daquele império romano que se acreditava ser o maior poder do mundo e exigia culto a seus imperadores. Veremos, através da história, que este culto do poder humano tem estado repetidamente contra a consciência cristã, que bem sabe como, se devemos a César o que é de César, o que é de Deus deve ser reservado somente a Ele.

Grandes bispos, como os orientais Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, morreram gloriosamente mártires. Homens de alta inteligência, como Irineu de Lião, os africanos Tertuliano e Cipriano, e os egípcios Clemente e Orígenes, aplicaram sua capacidade, com maior ou menor sucesso, à defesa espiritual do cristianismo. E, foi nesta época, que nasceu Santo Antônio (ou Antão), no Egito.

Quando falei de São Paulo, acenei para o fato de que parte de seu trabalho consistia em manter fiéis os seus convertidos. A Igreja de Cristo nunca foi, nem jamais acreditou ser, uma espécie de piedosa seita secreta. Nosso Senhor mesmo a descreve como um campo, onde se encontra a cizânia e o bom grão. Ou uma rede, onde são pegos tantos bons peixes e tantos sem proveito. A Igreja não existe para os que já são bons, mas para ajudar as pessoas a se tornarem boas. Seus sacramentos não são prêmios para os perfeitos, e sim remédios e fortificantes para os que são, espiritualmente, doentes ou enfermos.

No entanto, a Igreja também não é uma espécie de hospital para os moralmente doentes, ou para os infortunados quanto à religião, ou casa de convalescença espiritual. Quem tem o coração valente, é forte no trabalho, de imaginação criativa, de vontade firme também é chamado a viver no seu seio. Os cristãos são uma multidão confusa, assim como a maior parte da humanidade são uma mescla de bem e de mal. Assim o diz nossa própria consciência com muita clareza.

Gosto de pensar a Igreja como formada, no conjunto, de pessoas que lutam, provavelmente tendo muitos fracassos, mas que, derrotados e caídos, de nov se erguem. Os que estão fora do rinque, ajudam-nos a levantar-se. Nós nos apresentaremos ao nosso bom Juiz com olhos pisados e muitas machucaduras de todas as cores. São resultado dos golpes dados pelo mundo, pela carne, pelo demônio, que terão tido momentâneas vitórias sobre nós. Mas Ele não se aborrecerá com isto, mas dirá: Ora, ora, no final das contas, vocês venceram!

Digo-lhes estas coisas porque, depois de 250 anos de cristianismo, o calor do primeiro entusiasmo, o nível de santidade tinham caído muito. Nem é para nos admirar. Naquela época, o cristianismo se tornara muito popular. A rede começava a recolher peixes em grande quantidade, e trazia em si exemplares de pouca qualidade.

Além disto, muitas pessoas de importância nos diversos países – gentes da política, da burocracia, das cortes – se tinham feito cristãs e, entre elas, custava encontrar caráteres íntegros, condutas sempre de acordo com a convicção íntima. Descobriam, a cada passo, uma ocasião de transigir, de acomodar as coisas, de cuidar da sua careira ou da de seus parentes, e assim por diante. Entretanto, a cidade enorme, como Alexandria do Egito, no meio da massa pagã, a mundanidade e o vício haviam chegado a um ponto que a opinião pública não reagia.

Contudo, não se podia dizer que a época das perseguições do Império Romano tivesse acabado para sempre. Foram retomadas sob o Imperador Décio. Cristãos procuraram refúgio no deserto. Logo ali se estabeleceram por livre escolha. A vida depravada da grande cidade e recordações penosas causavam desgosto a uns e traziam ânimo a outros.

Foi neste período que nasceu Antônio, conhecido nos países de língua portuguesa como Antão. Era de família abastada. Aos 18 anos, herdou dos pais um bom patrimônio e uma bela fazenda da fecunda terra egípcia. Mas as palavras de Cristo – Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres (Mt 19,21) – não ficaram letra morta para ele. Distribui suas terras entre os lavradores pobres, se desembaraçou do capital e foi procura, entre a comunidade cristã do deserto, algum ancião rico de experiência espiritual, a quem pudesse confiar a direção e formação do seu caráter caprichoso e impressionável, que, ele sabia, não poderia governar sem ajuda.

Por 15 anos levou uma vida de estudo na grande solidão do deserto egípcio. Mas a julgou pouco suficiente, e foi encontrar pouso num fortim em ruínas sobre o Nilo, onde vivia de uma quantidade de pão que lhe levavam amigos de seis em seis meses e de tâmaras. E os amigos sempre o encontravam em boa saúde.

Talvez alguém diria que esta é uma maneira de fugir. Por que ele não permaneceu na grande cidade para ajudar seus irmãos em Cristo, como se diz, “fazendo o bem”, ou, pelo menos, alguma coisa de prático?Ficar sonhando entre túmulos! Livrar-se de tudo o que é áspero e cansativo na vida de cada dia para dar as costas aos que têm a coragem de sustentar a luta! Voltaremos sobre o assunto. Quero recordar-lhes antes de tudo que, para ser fortes e eficazes na ação, precisamos ter passado por uma preparação, temperando o caráter.

Assim, quando Antão tivesse aprendido a governar sua fortíssima índole e manter-se, perfeitamente, ordenado, cumprirá também outras missões. Uma preparação apressada, tratar que falassem de si, correr atrás da fama, tudo isto não torna a pessoa autenticamente grande. Os frutos não perduram.

Entretanto, o reconhecimento de sua perspicaz espiritualidade e de seu conhecimento da realidade do mundo cresceu tão rapidamente que os peregrinos se acumulavam em torno dele e chegaram a formar uma colônia. Quando a perseguição se reacendeu, ele soube deixar a solidão e se pôs a visitar os atribulados cristãos tanto em Alexandria, don delta do Nilo, quanto na Núbia, no alto Nilo. Ali visitou as minas, onde os cristãos cumpriam trabalhos forçados. Sua personalidade se impunha, e os agentes do governo imperial deixavam-no passar.

Cinco ou sei anos depois, Antão pôde voltar à vida solitária, nas margens desérticas do Mar Vermelho.

(continua)