Treze Santos: São Francisco de Assis, o Pobrezinho de Deus – 4ª e última parte
abril 27, 2013
Treze Santos: Santo Tomás de Aquino – 2ª parte
abril 27, 2013

Treze Santos: Santo Tomás de Aquino – 1ª parte

SANTO TOMÁS DE AQUINO – O “BOI MUDO”, O “MESTRE DO MUNDO”
(1225 ou 27-1274)

St. Thomas Aquinas from  by Carlo CrivelliÉ um verdadeiro prazer passar de São Francisco de Assis, tão simples, tão alegre, tão no oposto do que cheira “erudito”, e que conquistou o amor de todo o mundo, para Santo Tomás de Aquino, filho da Itália meridional, e que, em boa parte do século XX, com rapidez assombrosa, reconquistou a honra de ter sido a mais poderosa inteligência de quantas a Itália produziu. Começarei com um breve resumo de sua vida.
Biografia
Era de família muito nobre. Pelo lado do pai, o Conde de Aquino, e a mãe, Condessa de Teano, era aparentado com os Imperadores germânicos Henrique VI e Frederico II, e também com os Reis da França, Castela e Aragão.
Tinha cinco anos quando foi mandado para a escola dos beneditinos da célebre Abadia de Monte Cassino. Mais tarde, freqüentou os cursos da Universidade de Nápoles. Sua inteligência já se tinha manifestado de tal modo que teria sido lastimável não fazê-lo trocar a escola do mosteiro pela universidade.
Mas foi neste ambiente, sem ceder a perspectivas lisonjeiras e à corrupção geral, que Tomás se decidiu a pedir o ingresso na Ordem dos Pregadores, os dominicanos.
MonteCassino_abadia
Os superiores o enviaram a Roma, primeira etapa para um percurso pelos outros centros europeus do saber na época: Colônia, primeiramente, Paris, depois, o fulcro dos estudos científicos daquele século.
Seus pais, indignados com a idéia de que o jovem Tomás estivesse renunciando à dignidade de sua classe para usar o hábito branco e negro dos frades dominicanos, o fizeram seqüestrar e o mantiveram prisioneiro, enquanto seus irmãos recorreram a meios grosseiros para corromper sua castidade.
Mas ele saiu-se vitorioso destas provações e, obtendo livros, passou os dois anos de prisão estudando intensamente.
Finalmente obteve a permissão para ir a Colônia, onde estudou sob a direção de Santo Alberto Magno, um homem de cultura enciclopédica.
De constituição alta e maciça, Tomás tanto ouvia e falava tão pouco, que seus colegas o apelidaram de “o Boi Mudo”. Sabendo disto, Alberto declarou que,quando aquele “boi” mugisse, seu mugido encheria o mundo.
santoalbertomagno
 Com efeito, Tomás estava destinado a superar o seu professor, pelo menos na agudeza da observação e no vigor dos argumentos, bem como nos dotes superiores de limpidez e concisão de estilo.
Ordenado sacerdote em 1250, e conseguindo uma graduação depois de outra, passou por vários dos grandes centros intelectuais da Europa do seu tempo.
Em 1623, tomou parte do Capítulo Geral de sua Ordem em Londres. Sua figura maciça e alta foi vista nas margens do Tamisa, em “Black Friars” (Os Frades Negros, alusão ao hábito dominicano: túnica branca e escapulário negro). Seus pés pisaram as velhas pedras, neste século transferidas para um lugar mais adequado para elas: o convento dominicano de Haverstock Hill.
É humanamente inexplicável como Tomás conseguiu, naqueles anos, passados em contínuas viagens, ensinando, pregando, dedicando-se também a obras de apostolado, sequer conceber a robusta trama filosófica dos seus livros, estudando os autores que cita continua e textualmente, quanto mais a produzi-la!
Nos seus últimos anos irá revelar uma crescente insatisfação por este gênero de conhecimentos humanos e uma atração sempre mais viva pelo conhecimento que deriva da direta comunicação com Deus.
Morreu em 1274, com apenas cerca de 50 anos, hóspede num mosteiro cisterciense, quando viajava mais uma vez para obedecer ao chamado do Papa e estar presente no Concílio de Lião.
Um tempo de avanço cultural e científico
Se eu disser a vocês que, provavelmente, nenhum outro homem terá influído tanto sobre o pensamento humano quanto Tomás, acreditarão que exagero ou digo uma bobagem. Contudo, os homens de pensamento desenvolveram e aprofundaram sua obra na mesma proporção em que, embora inconscientemente, seguido a seus princípios de pensar, realizando obras de pouca consistência quando os desprezaram.
Somente nos começos do século XX, porém, foi que seu nome, e os resultados obtidos no seu tempo começaram a retomar o lugar que merecem no parecer das pessoas.
Com efeito, havia passado uma moda de acreditar que nada se havia feito ou dito de algum valor antes do século XVI ou do XIX.
Este balão cheio de preconceitos está se esvaziando. Na verdade, caímos na conta que foi no século XIII que a maior parte das mais prestigiosas universidades européias se fundaram ou se desenvolveram mais rapidamente. Aquele foi um tempo no qual o estudo dos fatos com a maior profundidade e perspicácia. Nas obras de Alberto Magno e dos seus discípulos, Tomás de Aquino e Francis Bacon, encontrareis tudo o que iria conduzir rapidamente à ciência aplicada dos novos explosivos, das lentes, dos motores de combustão interna; o conhecimento exato do “sexo” das plantas; a observação sutil da evaporação de líquidos através de fibras… Também foi nesta época que se corrigiu o calendário com base, em parte, na observação já conhecida da velocidade da luz.
Pertence àquele século igualmente criações literárias que deixaram marcas profundas nos tempos que se seguiram, como, entre muitas outras: tomaram forma a Lenda do Rei Artur; O Romance da Rosa; A Legenda Áurea; O Ciclo dos Nibelungos (fonte de inspiração para as óperas de Wagner).
Mencionamos o progresso no campo legislativo e jurídico, a formação das corporações comerciais, viagens de exploração que iam alargando o conhecimento geográfico. Também é do século de Santo Tomás (como espero esclarecer melhor quando lhes apresentar São Camilo de Lélis) a fundação ou ampliação de hospitais (alguns ainda existentes, como, em Londres, os de São Tomé e São Bartolomeu). Neles se praticavam tratamentos clínicos e cirúrgicos, que as gerações seguintes esqueceram.
Observe-se também que o ensino em todos os graus estava al alcance de todos. A instrução pública nunca foi tão “democrática” desde então. As universidades da época eram repletas de um percentual maior, relativamente à população total, do que na primeira metade do século XX (…).
No tempo de Santo Tomás, a instrução era uma coisa desejada de coração, e os estudantes e suas famílias e amigos faziam sacrifícios enormes por amor ao saber. Davam-se bolsas de estudo, faziam-se coletas de todo tipo para que os estudantes pudessem ir à universidade, ter livros e se alimentarem.
De sua parte, os jovens deviam, quase sempre, renunciar muita coisa necessária e ao supérfluo como se decidirem a ganhar a vida não só com trabalhos manuais no tempo das férias, mas trabalhando na própria universidade, servindo aos professores ou companheiros mais abonados, dando aulas, etc.

O especial legado de Santo Tomás
Deste modo, se Santo Tomás tivesse posto somente à disposição de sua época sua enorme influência e sua energia intelectual, sua obra já teria enorme ressonância. Mas ele fez ao mundo um outro dom, um dom que foi uma ajuda ao pensamento humano desde então. Poderia sê-lo mais ainda se fosse melhor usado.
A obra do grande filósofo grego Aristóteles tinha chegado em pequenos fragmentos  mal traduzidos, principalmente por meio de autores árabes ou judeus, que tinham também tornado correntes certas interpretações da filosofia aristotélica, a ponto de que o nome do grande sábio começava a ser considerado com desconfiança e antipatia.
Santo Tomás, por assim dizer, mudou esta realidade. Com apoio do Papa, fez realizar uma tradução completa e fiel de toda a obra do antigo filósofo e, em seguida, deu uma explicação de todo o sistema muito mais acurada e exata do que se tinha conseguido antes dele. Mostrou que os vastos tesouros de suas pesquisas poderiam ser empregados generosa e serenamente pelos discípulos de Cristo, pois não eram necessariamente hostis ao Evangelho.