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Treze Santos: Santos sem “São”

Como posso transmitir-lhes minha intenção? Não posso chamar “santos” as pessoas das quais desejo falar-lhes porque não foram canonizados e não posso antecipar a palavra autorizada da Santa Sé. Também não tenho espaço para sequer lhes mostrar uma miniatura de cada uma delas, mas apenas um pobre esboço.
OzananFrederico Ozanan (1813-1852)
Tomemos como exemplo Frederico Ozanam nt . Nasceu em 1813 e morreu em 1852. Viveu num período de ceticismo frívolo e de religiosidade afetada, exagerada e insincera. Era um menino teimoso, preguiçoso, violento e desobediente. Depois de sua Primeira Comunhão ficou mudado num “bravo rapaz”. Mais adiante se viu violentamente atacado por dúvidas.
Aos dezoito anos foi estudar direito em Paris. Entre seus colegas, encontrou apenas três que ainda se consideravam cristãos. Sua solidão teria sido mais penosa se não tivesse encontrado hospitalidade na casa de um grande cristão e célebre cientista, que foi Ampère. Assim teve contato com grandes expoentes da ciência de sua época. Sua carreira científica, literária e profissional o conduzia de triunfo em triunfo: doutor em direito, doutor em letras, professor de direito comercial em Lyon, catedrático de literatura estrangeira em Paris e, finalmente, catedrático na famosa Sorbone.Se seu nome não goza de fama internacional e isto talvez se deva ao fato de que fazia muito bem muitas coisas. Muito mais, porém, por causa de um outro lado de sua vida, ou melhor, da alma mesma de sua vida.
Não lhes vou falar da corajosa defesa dos valores intelectuais cristãos, que sustentou quer entre seus colegas de universidade, quer como jornalista, colaborando com personalidades como Bailly, Montalambert e Lacordaire. Recordo apenas que seu pai tinha dedicado uma boa terça parte de seus atendimentos aos pobres, como se soube depois de sua morte.
Ozanam tinha apenas 20 anos, quando fundou as Conferências de São Vicente de Paulo, que, hoje, se difundiram por todas as partes do mundo. Seus membros não hesitam em se dar a toda obra imaginável de caridade, sobretudo na visita aos necessitados, onde eles estiverem escondidos na pobreza e no esquecimento.
As Conferências são uma obra essencialmente de leigos cristãos, particularmente de jovens, para ajudá-los a tirar do coração a intolerância e o convencionalismo (a própria “revolta” juvenil segue regras estritas!) e curá-los da sua ignorância a respeito das grandes injustiças e dos grandes heroísmos da vida.
Marido e pai muito feliz, Ozanam, com apenas 39 anos estava moribundo. No dia 15 de agosto de 1852, amparado por sua esposa, foi, pela últiam vez, participar da Missa e o Padre, também muito doente, fez questão de lhe dar a Comunhão. Foi a última Missa que ambos ofereceram a Deus. No dia 8 de setembro seguinte, tendo voltado à casa da família em Marselha, Ozanam morreu. Hoje, sua obra cresce e prospera em todo o mundo católico.

Contardo Ferrini (1859 – 1902)
Na mesma igreja em que Ozanam foi batizado, 46 anos depois, também foi batizado Contardo Ferrini. Aos 20 anos foi graduado com nota máxima na Universidade de Pávia. Continuou seus estudos na Universidade de Berlim. Ensinou direito romano em Messina, Módena e Pávia. Seu conhecimento do direito penal romano e bizantino era tal que o grande historiador alemão, Mommsen, declarou que com Ferrini o primado destes estudos tinha sido perdido pela Alemanha para a Itália.

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Mencionei estes fatos para sublinhar o fato de que ele se encontrou diretamente com todos os ceticismos e todas as convulsões sociais e culturais do seu tempo. Era de temperamento fogoso e como o ppa Pio XI, que o conheceu e o teve em grande estima, um apaixonado alpinista. Veio a morrer de tifo, contraído por beber água contaminada numa escalada nos Alpes. Vejam como a santidade está distante da moleza…
Antes de ir a Berlim, Ferrini fizera voto de castidade, que manteve inviolado. A prece e comunhão diárias eram os fundamentos de sua vida. E o que quereria enfatizar no caso deste homem reservado e laborioso, sempre muito correto, com sua barba aparada em ponta, casaco, atento à sua apresentação, é a constante e completa abnegação e dedicação de si mesmo a Deus no próprio âmbito de sua profissão. A extraordinária devoção de Ozanam aos pobres se manifestou, por assim dizer, em paralelo a sua carreira. Ferrini dá o exemplo de alguém que, nos limites mesmos de uma vida social e profissional absolutamente impecáveis, sempre manteve um visão verdadeiramente sublime e soube oferecer, com intensidade sem reservas, cada palpitar do coração, cada anseio da alma a Deus mediante Cristo. Morreu em 17 de outubro de 1902.

Ludovico Necchi (1876-1930)necchi
Fico contente de dizer alguma coisa sobre Ludovico Necchi, também filho de Pavia. Nascido em 1876, formou-se em medicina, teve um casamento feliz, foi adorado pelos soldados durante a Primeira Grande Guerra (1914-1918), no começo como médico num grupamento de artilharia de montanha, depois num hospital de campanha e, afinal, num hospital militar. Durante a guerra e depois, dedicou-se a estudar o que veio a ser conhecido como neurose de guerra, ou trauma de bombardeios, e de sua terapia. Sua vida interior não foi serena. Ele conhecia, por experiência própria os tormentos que podem afligir o sistema nervoso, uma mente e uma imaginação muito sensíveis. Daí, junto com seu profundo conhecimento da doutrina cristã e sua vasta experiência humana, ter gozado de um quase milagroso poder de cura.
Não posso descrever em tão pouco espaço a parte que Necchi teve na dimensão social da Ação Católica. Ele deveria ser o patrono de todos os que desejam servir ativamente a Nosso Senhor. Basta dizer que ele foi guiado por Deus para conduzir à fé o Dr. Edoardo Gemelli, mais tarde o franciscano Frei Agostino Gemelli, fundador da Universidade Católica do Sagrado Coração, cujo nome foi dado a um famoso hospital romano, onde o Papa João Paulo II esteve internado várias vezes). Necchi também participou da luta por esta fundação, com a bênção e aatuação decisiva do Arcebispo e Cardeal Acchille Ratti, eleito Papa, com o nome de Pio XI, um mês depois da inauguração da Universidade. Necchi era devotado irmão da Ordem Terceira de São Francisco de Assis. Ele mesmo fez o diagnóstico de sua doença terminal. Morreu serenamente,tendo passado o dia atendendo os seus doentes.

Pier Giorgi FrassattiPier Giorgio Frassatti (1901 – 1925)
Perdoem-me se lhes vou falar não de outro professor universitário mas de um estudante universitário: Píer Giorgio Frassatti, que morreu com apenas 24 anos em Turim, no dia 4 de julho de 1925. A seu funeral, como no de Dom Bosco, uma imensa multidão se fez presente.
Por quê? Ele era robusto como poucos, de bela aparência física, apaixonado alpinista, que foi muito fotografado em traje esportivo. Estudava para se formar em engenharia de minas, estava decidido a casar-se e a ter uma numerosa família… Era filho de um senador, embaixador da Itália em Berlim, num tempo em que a Igreja não era nada querida: positivismo e maçonaria no mundo culto e entre os governantes; fascismo subindo nas ruas; comunistas fortes no meio operário. O que atraiu tanto povo de uma cidade industrial a seu enterro, muitos até se ajoelhando na passagem de seu caixão? Um jornal, conhecido pelo seu anti-clericalismo publicou que mesmo os que não comungavam com sua fé se sentiam tomados por um “reverente estupor”. Poderia citar o artigo inteiro. Sua biografia teve cinco edições numa no e também foi traduzida em inglês.
Talvez baste dizer que ele ia a Missa e comungava cada manhã, rezava o Rosário e o Pequeno Ofício de Nossa Senhora (era da Ordem Terceira de São Domingos, membro da conferência  vicentina animada pelos jesuítas do colégio, onde estudara, militante da Ação Católica). Não se separava de Cristo em nenhum momento do seu dia. Cada momento livre dedicava ao serviço dos pobres. Morreu, depois de uma brevíssima doença (poliomielite) radioso, sereno, absolutamente desprendido de si.
São Luís Gonzaga, príncipe do Renascimento, dizia de si mesmo que era “um pedaço de ferro retorcido”. Não consigo imaginar nada em Frassati que fosse retorcido, mas como Luís era de ferro! Acima de minha cama, conservo um fragmento de um escrito que Píer Giorgio rabiscou no sofrimento de sua última agonia. Tudo o que posso desejar é que meu fim seja como o seu e que os nossos jovens estudantes universitários, rapazes e moças, em toda parte do mundo, possam alcançar sua intercessão.
Matt Talbot (1856 – 1925)matttalbot
Encerro com um trabalhador humilde, mas muito querido a meu coração: Matt Talbot, um operário de Dublin. Nascido em 1856, foi um estudante muito indisciplinado. Por isso, aos 12 anos, foi posto a trabalhar num depósito de vinho e cerveja. Aos 13, chegou em casa embriagado de cerveja forte. Acharam-lhe um outro serviço, no porto. Chegava em casa embriagado de uísque. Aos 17 anos começou a trabalhar como pedreiro, e chegou a vender ata as próprias calças e sapatos para comprar bebida.
À noite estava muito bêbado para dizer as orações, e passou muitos anos longe dos sacramentos. Quando já chegara aos 27 anos, caiu em conta que ninguém lhe pagava bebida, que ele gastava nisto o pouco que conseguia ganhar e que ele mesmo não podia pagar uma bebida para ninguém. Sentindo uma viva humilhação, fez o voto de nada beber de álcool por 3 meses. Sofria tanto que jurou a sua mãe que voltaria a beber mal se encerrasse o período. Entretanto, começou a ir à Missa das cinco da manhã e voltou a comungar. Não voltou a beber e com e junto como vício do álcool se foi o de blasfemar. Dormia sobre dois bancos, rezava e jejuava com freqüência.
Achou trabalho num depósito de lenha. De temperamento alegre, embora de modos rústicos, terminou por dominar, com a força do seu caráter, o seu ambiente. Nunca censurava ninguém. Não fazia sermões. Contudo os pequenos furtos cessaram. Não se ouviam mais palavrões. Ele mesmo não mentia nunca.
Durante graves distúrbios trabalhistas de 1913-1914 simpatizou de todo coração com seus colegas, feridos por gravíssimas injustiças desde o berço, mas recusou-se a participar de manifestações e piquetes, mas também de receber subsídio de grevista. Mas seus companheiros o compreendiam e o viam num nível diverso, e não aceitaram sua recusa. Mas ele usava o dinheiro para socorrer outros mais pobres do que ele. Naqueles anos agitados pela guerra entre a Inglaterra e a Irlanda e durante a Primeira Grande Guerra, sempre se manteve decididamente à parte de qualquer polêmica política.
Ele se deitava às dez e meia, levantava-se às duas para rezar, ia a Missa às seis e às oito começava o trabalho. Durante o dia se sustentava com uma ou duas xícaras de chocolate e algumas batatas, quase nunca carne. Trabalhava intensamente e iam lhe dando encargos de maior responsabilidade. A cada momento livre que aparecia, rezava.
Temos suas anotações espirituais. Escrevia com erros. Mas sabia falar com Deus. Sua leitura era a Bíblia, em particular os Evangelhos. Tinha numerosos amigos e sua caridade era sem limites. Poderíamos defini-lo assim: As pessoas o amavam e ele não sabia o que fazer com dinheiro.
Em 1923, adoeceu. Foi internado, sofrendo do coração. Em 1925, na rua, em Dublin, sofreu uma ataque cardíaco e morreu. Deixou escrito:O Reino dos Céus foi prometido não a quem tem bom senso e é instruído, mas às crianças pequeninas.
A loucura de Deus
Possam nossas conversar ter-lhes dado uma idéia, ainda que muito pálida, da loucura de Deus. Disse São Paulo: Mais forte que os homens é a fraqueza de Deus; mais sábia que a sabedoria deles é a loucura de Deus (1Cor 1,25). Se os estadistas, os banqueiros tivessem o memso espírito de Matt Talbot, conseguiriam a paz e a união entre os povos e etnias que hoje, inutilmente, procuramos.