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Treze Santos: São Camilo de Lellis

SÃO CAMILO DE LÉLIS 
O PRIMEIRO DOS PORTADORES DA CRUZ VERMELHA – (1550-1614)
saocamilo1Este foi um dos homens mais extraordinário que se pode imaginar. Tinha sido um rude soldado. Havia caído, pouco a pouco na mais extrema miséria, por força do seu vício de jogo. Também sofria de uma doença muito molesta e, aparentemente, incurável.
Contudo, em sua maturidade, mudou completamente o ritmo de sua vida, que foi longa, e se tornou o patrono dos doentes, dos hospitais e dos agonizantes. Em resumo, podemos dizer que foi, literalmente, como verdadeiro fundador da Cruz Vermelha e o idealizador do serviço de ambulâncias no campo.
Os primeiros hospitais foram enfermarias dos mosteiros, nas quais se acolhiam os doentes, seja os da comunidade monástica, sejam os vindos de fora. Os hospitais das cidades surgiram a partir do século XIII, por iniciativa de São Guido de Montpellier, na França. Deu continuidade a esta iniciativa, o Papa Inocêncio III, tendo como sede um decrépito edifício, adaptado a este fim pela comunidade anglo-saxã de Roma. O costume se difundiu por toda parte na Europa, em especial na Alemanha, com o nome de “hospitais do Espírito Santo”. Hoje, o de Roma, é a “casa-mãe” de todos.(n.t.: Nele trabalhou, como voluntário Sano Inácio de Loyola e os primeiros companheiros, fundadores da Companhia de Jesus).
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 Todos estes hospitais se abriram ou se desenvolveram nesta época. E não pensemos que fossem, também do ponto de vista da estrutura, instalações desprezíveis. O arejamento, os serviços sanitários, o fornecimento de água eram coisas de se notar. Também não pensemos que a cirurgia e a medicina em geral tivessem um nível tão baixo. Na realidade, eram muito melhores do que veio em seguida, porque muito se desaprendeu e muito foi destruído. Assim, havia cirurgias de nervo e crânio; conhecimento da verdadeira origem das doenças sexualmente transmissíveis; o uso de raios infravermelhos para a cura da varíola (método redescoberto pelo Doutor Finsen, dinamarquês, nos fins do século XIX, pelo qual recebeu o Prêmio Nobel); tudo isto e muito mais se sabia e praticava no século XIII e foi perdido em grande parte 250 anos mais tarde.
Os historiadores narram a tremenda degradação dos hospitais devida, com geralmente se sabe, tanto à destruição das ordens religiosas, quanto, como desejo particularmente sublinhar, à retomada, durante o Renascimento, da adoração da natureza, à imitação da Grécia antiga com o relativo desgosto de tudo o que fosse doente ou feio, com a tendência de pôr longe das vistas tudo o que fosse desagradável aos sentidos.
Ora, o que não se vê, logo se esquece. Contudo, foi durante o renascer do paganismo que, como era provavelmente inevitável, que a caridade cristã se revigorou.
Camilo nasceu nos Abruzos, quando sua Mãe já chegara aos 60 anos!
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 Sentindo as dores do parto, a pobrezinha se refugiou num palheiro, e assim o menino nasceu. O pai tinha sido guerreiro toda vida, numa seqüência de massacres e horrores. Tinha enriquecido tomando parte nos saques. Mas, empobrecido, só pode deixar ao filho “o punhal e a espada”. Quando seu Pai morreu, Camilo já era soldado, era doido por jogar e apenas conseguia ler. Durante uma campanha contra os turcos, em companhia do pai, voltara á casa com a mesma doença que matou o pai e ficou com uma ferida purulenta na perna, chaga que permaneceu aberta por toda a sua vida.
Naquele momento de amargura, Camilo encontrou dois capuchinhos e fez voto de mudar de vida, mas não o manteve Renovou esta promessa por mais duas vezes, sem tê-la mantido.
Reduzido à miséria, entrou num hospital para se tratar, pagando com os serviços que pudesse prestar. Mas foi logo despedido, por seu caráter violento, contínuas brigas e paixão pelo jogo. Dormia com o baralho debaixo do travesseiro e não hesitava em largar seus deveres para jogar uma partida.
Alistou-se novamente. Só não participou da batalha de Lepanto, porque ficou em Corfu, abatido por uma disenteria. Mas sofreu na continuação da guerra contra os turcos: a tropa esfomeada chegou a ponto de se alimentar do fígado dos companheiros mortos. Mas isto Camilo não quis fazer! Sustentou-se com algumas ervas e carne de cavalo, quando havia.
Apesar de tudo isto, alistou-se noutra campanha, escolhendo certo regimento só porque seus membros tinham fama de serem apaixonados jogadores. Assim partiu para a guerra na Tunísia. De vota a Nápoles, foi despedido porque considerado inapto para o serviço militar. Perdeu no jogo o pouco que possuía. Jogou até a camisa, e a perdeu! Ficou reduzido à mendicância, o que o humilhava atrozmente.
Ainda era um homem alto e forte, apesar de sua perna chagada. Ofereceram-lhe o serviço de pedreiro, na construção de um novo convento dos capuchinhos. Aceitou constrangido, pensando que o ambiente poderia levá-lo a cumprir as promessas feitas no passado. Nem quis aceitar um pano que os frades lhe queriam dar para que fizesse uma roupa. Temia que isto o levasse a converter-se. Mas o frio atroz do inverno o obrigou a ceder. Assim, em 1575, este filho mais que pródigo, este homem que havia jogado fora sua vida e rompido várias vezes as promessas feitas, mudou de verdade.
Rendeu-se, mas não conseguia encontrar “sua vocação”. Tentou entrar em várias ordens religiosas, mas a chaga na perna era sempre o obstáculo. Em Roma, encontrou grande ajuda em São Felipe de Nero, fundador dos oratorianos. Este homem afetuoso, cheio de alegria e de compreensão, sugeriu ao antigo soldado enfermo a idéia de dedicar-se ao serviço dos doentes, nos hospitais, idéia que o levou , mais tarde, a fundar a congregação dos enfermeiros que perpetuou o seu nome.
Em 1582, Camilo decidiu reunir em torno de si um grupo de homens que partilhavam as mesmas idéias, e quis que levassem uma cruz vermelha nas costas. Esta foi, sem dúvida, a origem de todos os movimentos da “Cruz Vermelha” nos séculos seguintes.
Seria supérfluo recordar as grandes dificuldades que teve de superar, entre as quais o penoso desafio de estudar, a fim de poder ordenar-se sacerdote, como sentia que devia ser.
Ficamos contentes pensando que seus estudos – começados quasndo já tinha 32 anos, terminaram bem e ele foi ordenado por um bispo inglês, Goldwell, da diocese galesa de São Asaf, e presidiu sua primeira Missa no dia de Santa Margarida, Rainha da Escócia.
O pequeno grupo de camilianos logo aumentou bem e com rapidez. Em 1588, Camilo foi a Nápoles abrir a sua primeira “filial”, exatamente 14 anos depois de ter desembarcado naquele porto para ficar reduzido à indigência, tido como um, inútil e com a alma cheia de perturbação.
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Repito: quando a pompa pagã do Renascimento se mostrou mais ostensivamente, a solicitude para a miséria humana faltou. Quando a beleza do corpo foi adorada, logos e considerou repelente atéa vista de corpos deformados e doentes. Os hospitais foram se tornando antros horrendos, moral e fisicamente. Se eu tivesse tempo de descrever, não seria suportável. Os particulares que podemos ler nos autores do tempo bastariam para nos convencer que não estamos dando asas á fantasia. Somente na região de Roma, quando a peste irrompeu, logo depois de uma carestia, 60 mil pessoas morreram. Pessoas, no rigoroso inverno, procuravam os estrumeiros para se protegerem do frio. No verão, acidade foi atacada por nuvens de moscas. Faltava água aos doentes, que chegavam a beber o azeite das lâmpadas ara matar a sede. Camilo trabalhava umas duas horas cada noite para tecer cobertas, a fim de que os doentes não tivessem que jazer no chão.
Nos primeiros dias de sua conversão, parecera-lhe ouvir o Senhor lhe dizer: Bandido! E isto o havia magoado profundamente. Sabia que não era fisicamente desprezível. Como soldado, fizera-se notar por sua temerária impetuosidade. Agora, lutando por amor a Cristo, não tinha mudado a maneira d agir e pedia muito aos seus companheiros, porque também nem lhe passava pela idéia poupar-se.
No entanto, sua gentileza e ternura eram grandíssimas. Qualquer um se alegrava vendo-o banhar e vestir os recém nascidos, ou ir preparar uma comidinha para algum convalescente. Sua intuição e empatia espirituais eram tão notáveis que fazia pensar que ele tivesse uma segunda visão. Também não cansava vê-lo na cabeceira dos doentes, alguém escreveu, como se fosse a mais extremosa das mães com seu filhinho doente.
Não nos espantemos, pois só o Espírito movia este homem. A chaga na perna se manteve aberta por 46 anos, e se tornava mais e mais dolorosa. Sofria também de pedras nos rins, levando uma cintura de ferro. Também as plantas dos pés lhe doíam insuportavelmente. Nos últimos 30 meses de sua vida, mal se alimentava, pois toda comida lhe revoltava o estômago. Enfraqueceu-se a ponto de que o se levantar cada manhã lhe custava muitíssimo. Contudo, depois de visitar alguns doentes, ficava tão cheio de alegria por estar servindo a Jesus que recuperava forças.
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Pouco antes de sua morte, agonizante, num leito de enfermaria, recitou a Oração do Anjo da tarde (“O Anjo de Senhor anunciou a Maria, etc.”) Uma hora depois, o enfermeiro lhe perguntou se desejava tomar alguma coisa para restaurar um pouco as forças. Camilo lhe respondeu: Espera mais um quarto de hora e vou ser restaurado. Um quarto de hora passado, ele abriu os braços em cruz e disse: Sangue preciosíssimo! Parecia que a cruz vermelha e sua origem fossem uma só coisa em seu pensamento dominante. Louvou o Santíssimo Nome de Deus e morreu sem um suspiro ou mudança nas feições, permanecendo sereno e alegre.
Antes de concluirmos, quero insistir em dois pontos. Primeiro: Camilo é o verdadeiro fundador da Cruz Vermelha, das ambulâncias e hospitais de campo e, em geral, dos hospitais militares. Ele escolheu a Cruz Vermelha, lembrando-se dos cruzados e fez dela o distintivo dos homens (mais tarde de mulheres) de sua congregação e do trabalho deles.Entre 1595 e 1601, o Papa Clemente mandou os camilianos com suas cruzes vermelhas com o encargo bem definido de cuidar dos feridos e agonizantes nos campos de batalha. Deu-lhes instruções para transportarem os feridos para a retaguarda e que preparassem hospitais para acolhê-los, providos de material médico e cirúrgico para os tratamentos.
Dunant, que esteve no campo de batalha de Solferino, e cujo livro, publicado em 1862, Recordações de Solferino (Souvenirs de Sofferino) está na origem da criação da Cruz Vermelha internacional com suas ambulâncias logo conhecidas por toda parte, viu a cruz vermelha dos camilianos em ação. Vamos prestar homenagem ao Autor e a seu livro, mas não esqueçamos Camilo e seus irmãos e irmãs, que iniciaram esta obra em tempos muito menos filantrópicos.